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10 de dezembro de 2008

O Centro da nossa Esperança

Alberto Ronald Timm

Os sinais em si não são o objeto de nossa esperança, pois somos convidados a olhar para cima e aguardar do alto a concretização da nossa redenção.

Aquela sexta-feira revestia-se de profunda tristeza para nossa família. Após quatro dias em estado de coma, minha irmã finalmente descansara. Ao chegarmos a sua casa, antes dos serviços fúnebres, encontramos Henrique, seu filhinho de três anos e meio de idade, brincando inocentemente, como se não entendesse a situação. Não muito depois, ele se aproximou de mim e perguntou: ‘Tio Ronald, sabe que a mamãe morreu?” Surpreso com a pergunta, indaguei-Lhe:

“É mesmo?... E onde a mamãe está?” — “A mamãe está lá na igreja!”, foi a resposta.

— “E o que vai acontecer agora?”, voltei a perguntar-lhe. Sua resposta foi:

“A mamãe vai ficar lá no cemitério da igreja; mas quando Jesus voltar, ela vai ressuscitar!”

Suas palavras certamente refletiam a explicação que anteriormente lhe fora dada a res peito do que estava acontecendo; mas, mesmo assim, elas eram carregadas de uma profunda esperança: ‘quando Jesus voltar!”

Em realidade, essa tem sido a esperança dos cristãos através dos séculos. Ela é um dos temas predominantes do Novo Testa­mento, e sua mensagem tem si­do cantada pela Igreja Cristã. Muitos têm nela depositado a esperança, e têm orado fervorosamente por sua concretização. Mas qual é o verdadeiro sentido dessa esperança? Sob que aspecto deve repousar nossa ênfase ao considerarmos esse tema? O centro de nossa esperança está nos sinais que anunciam sua breve concretização, no tempo em que o evento há de ocorrer, ou nAquele que em breve há de voltar?

Sinais: Objeto de Nossa Esperança?

Ante o pedido dos discípulos (Mat. 24:3), Jesus passou a enumerar um grande número de sinais que haveriam de anteceder Sua segunda vinda. Esses sinais podem ser classificados em (1) “sinais gerais”, que são fatos que sempre ocorreram, mas que, devido a sua intensificação, se transformam em indí cios de Sua breve volta; e (2) “sinais específicos”, que ocorrem especificamente em relação com esse evento.

Se observarmos o atual contexto em que vivemos, distingui­remos um extraordinário cumprimento das palavras de Cris­to. Esse fato por si só já é suficiente para fascinar qualquer estudante sincero das profecias bíblicas. Mas a pergunta que surge é: Deveremos depositar a nossa esperança nesses sinais?

É certo que os sinais da breve volta de Cristo são deveras significativos; caso contrário, o Salvador jamais os teria menciona­do. Mas ao mesmo tempo em que os enumerou, Ele também advertiu: “Ora, ao começarem es­tas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima (Luc. 21:28).É esse “erguei as vossas cabeças” que faz a diferença entre os “homens que desmaiarão de terror” (verso 26) e os que exultarão (verso 28) em face dos últimos acontecimentos. Isso torna evidente que os sinais em si não são o objeto de nossa esperança, pois somos ad­vertidos a olhar para cima e aguardar do alto a concretização de nossa redenção.

Como a expectativa na parábola da figueira (Mat. 24:32) não está nos ramos que se renovam, nem nas folhas que brotam, mas no verão que se aproxima, assim também a esperança do cristão não se fundamenta no cumpri­mento dos sinais mencionados por Cristo, mas na realidade que eles apontam: a breve volta de Cristo. Portanto, se por um lado encararmos o cumprimento dos sinais que Cristo deixou como meros acontecimentos naturais, eles deixarão de ser sinais para nós. Se, por outro lado, fixarmos neles nossa esperança, eles assumirão para nós um caráter idolátrico, em substituição a Cristo que é “a esperança da glória” (Col. 1:27).

Tempo: Objeto de Nossa Esperança?

Em diálogo com alguém que alegava ter recebido o dom profético para advertir a Igreja em nossos dias, perguntei-lhe a res peito de qual seria a necessidade de uma nova manifestação desse dom em geral para a Igreja hoje. Sua resposta foi que o mesmo Deus que chamara Ellen G. White para mencionar os eventos que haveriam de ocorrer no fim dos tempos, agora o estava incumbindo de apresentar à Igreja o tempo especifico em que os eventos irão ocorrer.

Talvez esse seja um exemplo extremo dentro de um grupo representativo que, embora não re­clame para si o dom profético, julga possuir luz suficiente para advertir a Igreja da brevidade da volta de Cristo, enfatizando o tempo em que os eventos finais ocorrerão. Alguns chegam a argumentar que as palavras de Cristo em Mateus 24:36 nos impedem apenas de saber o “dia e hora”, mas que o mês ou pelo menos o ano de Sua volta é possível ser determinado. Os argumentos mais comuns baseiam-se em cálculos matemáticos elaborados sob a premissa de que em “determinado ano” terá fim o período dos “6.000 anos” e, consequentemente, nesse mesmo ano Jesus voltará.’

Em realidade, a curiosidade humana em relação com o tempo em que a volta de Cristo há de ocorrer não se limita aos nos­sos dias. Apesar de Cristo ter afirmado em Seu sermão profético que “a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os an­jos dos Céus, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mat. 24:36), pouco antes de Sua ascensão os discípulos voltaram a indagar-Lhe: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Is­rael?” (Atos 1:6).

Diante da insistência dos discípulos, Cristo claramente afirmou: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para Sua exclusiva autoridade...” (Atos 1:7). Essas pa­lavras esclarecem o fato de que quaisquer tentativas por definir um tempo específico ou época em que os eventos finais hão de ocorrer é tentar penetrar naquilo que Deus reservou para Si, e que não é de Sua vontade que conheçamos (Deut. 29:29).

Comentando a respeito desse assunto, a Sra. White declara:

“Jesus não veio assombrar os

homens com alguns grandes pronunciamentos de um tempo especial em que havia de ocorrer algum grande acontecimento, mas veio instruir e salvar os perdidos. Não veio despertar e satisfazer curiosidade; pois sabia que isto não faria senão aumentar o desejo por coisas curiosas e maravilhosas.”2 “Não devemos viver em excitação acerca de tempo. Não nos deve­mos absorver com especulações relativamente aos tempos e às estações que Deus não revelou. Jesus disse a Seus discípulos ‘vigiai’, mas não para um tempo definido.... Não sereis capazes de dizer que Ele virá dentro de um, dois, ou cinco anos, nem deveis retardar Sua vinda, declarando que não será por dez, ou vinte anos.”3

“Quanto mais frequentemente se marcar um tempo definido para o segundo advento, e mais amplamento for ele ensinado, tanto mais se satisfazem os propósitos de Satanás. Depois que se passa o tempo, ele provoca o ridículo e o desdém aos seus defensores, lançando assim o opróbrio sobre o grande movi­mento adventista... Os que persistem neste erro, fixarão final­mente uma data para a vinda de Cristo num futuro demasiado longínquo. Serão levados, as­sim, a descansar em falsa segurança, e muitos se desenganarão tarde demais.”4

“Tenho sido repetidamente ad­vertida com referência a marcar tempo. Nunca mais haverá para o povo de Deus uma mensagem baseada em tempo.”5 “O tempo não tem sido um teste desde 1844, e nunca mais o será.”6 “Em vez de viver na expectativa de al­gum tempo especial de excitação, cumpre-nos aproveitar sabia-mente as oportunidades presentes, fazendo o que deve ser feito para que almas sejam salvas. Em lugar de exaurir as energias de nossa mente em especulações quanto aos tempos e às estações que o Senhor estabeleceu por Seu próprio poder, e reteve dos homens, devemos render-nos nós mesmos ao domínio do Espírito Santo, cumprir os deveres atuais, dar o pão da vida, não adulterado com opiniões humanas, a almas que estão perecendo pela verdade.”7

“O Senhor me tem mostrado que a mensagem do terceiro anjo deve ir, e ser proclamada aos dispersos filhos do Senhor, mas não deve estar na dependência do tempo. Vi que alguns estavam conseguindo um falso excitamento, despertado por pregarem tempo; mas a mensagem do terceiro anjo é mais forte do que o tempo possa ser. Vi que esta mensagem pode sustentar o seu próprio fundamento e não necessita de tempo para fortalecê-la; e que ela irá em grande poder e fará a sua obra, e será abreviada em justiça.”8

Cristo: O Objeto de Nossa Esperança

Ser um “adventista” não significa desconhecer o tempo e o contexto em que vivemos, para apenas acariciar sonhos e imaginações utópicas em relação com o futuro. Um genuíno adventista é alguém que aceitou a Cristo como Salvador pessoal e como Senhor de sua vida, cujo coração foi a tal ponto enternecido pelo grande amor de Cristo, que sua viva ligação com Ele aumenta cada vez mais seu anseio de vê-Lo face a face.

A gloriosa promessa de contemplar “a Sua face” (Apoc. 22: 4) não permite que centralize­mos nossa esperança no tempo e nos sinais que ocorrem ao nosso redor. O tempo deixará de existir (Mat. 28:20) e a presente ordem de coisas passará (Apoc. 21:5), quando aqueles qúe depositaram sua esperança em Cris­to hão de resplandecer “como as estrelas sempre e eternamente” (Dan. 12:3).

E com essa esperança em mente que o apóstolo João escreveu: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-Lo como Ele é ” (I João 3:2). E o resultado natural dessa ênfase em Cristo será a purificação do próprio coração (1 João 3:3) e a dedicação da vida à proclamação do Evangelho ao mundo (Mat. 24:14).

Aos primeiros discípulos Jesus desviou a atenção e a preocupação por “conhecer tempos ou épocas”, para a necessidade de receber a unção do Espírito Santo a fim de testemunharem com poder no cumprimento da missão (Atos 1:7 e 8). Por semelhante modo, o mundo será convencido, não por constatar a precisão matemática em que formulamos os cálculos em relação com os acontecimentos fi­nais da história do mundo, mas por sentir que realmente estive­mos com Jesus (Atos 4:13) e que “o amor de Cristo nos constrange” (1 Cor. 5:14).

Considerações Adicionais

Emil Brunner afirma: “O que o oxigênio é para os pulmões, a esperança é para o sentido da vida humana. Remova-se o oxigênio, e a morte há de ocorrer por asfixia; remova-se a esperança, e a humanidade será constringida por falta de fôlego. O desespero sobrevém, paralisando os poderes intelectuais e espirituais por um sentimento de uma existência destituída de sentido e propósito. Como o destino do organismo humano de­pende do suprimento de oxigênio, assim o destino da humanidade depende de seu suprimento de esperança.”9

A esperança dá sentido à vida humana.

O verdadeiro cristão sabe que essa esperança transcende o tempo e o espaço, e centraliza-se na segunda vinda de Cristo (1 Cor. 15:19). E Edward Gibbon identifica a fé no iminente re­torno de Cristo como um dos cinco fatores mais importantes do progresso do cristianismo’0, afirmando que, enquanto essa esperança foi mantida, produziu “os mais salutares efeitos sobre a fé e a prática dos cristãos”.

Certa ocasião, ouvi o Pastor Ernest Steed, da Associação Geral, contar um episódio significativo que ele presenciou ao visitar uma das ilhas do Sul do Pacífico. Ao anoitecer, ele

acompanhou os nativos ao alojamento em que pernoitavam. Era uma construção rudimentar, na qual o primeiro andar, que ficava junto ao solo, servia de abrigo aos animais domésticos; o andar seguinte era destinado aos homens da tribo; e um terceiro andar era reservado às mulheres. De madrugada, quando ainda escuro, todos os nativos da tribo deixaram o alojamento e foram até a praia na direção em que nascia o Sol, re­tornando depois de algum tempo. Curioso ante o incidente, o Pastor Steed indagou-lhes a respeito do que foram fazer. Os nativos responderam que, quando o missionário adventista lhes havia pregado o Evangelho, ele afirmara que Jesus haveria de vir do Oriente (Mat. 24:27). As­sim, cada manhã, eles iam até a praia para ver se Jesus já estava voltando!

Tal costume pode parecer o resultado de uma fé ingênua, aos olhos de uma mente racionalista. Mas é uma demonstração prática de fé na iminente volta de Cristo, por um grupo de nativos que aceitou o Evangelho.

Na verdade, não somos insta­dos a estabelecer datas para a volta de Cristo, mas a crermos na iminência desse evento. Essa iminência cumprir-se-á para ca­da um de nós individualmente quando Jesus voltar em glória e majestade nas nuvens do céu, ou quando formos chamados ao descanso. O certo é que a cada um de nós individualmente Cristo declara: “Certamente ve­nho sem demora.” Que nossa resposta seja como a do apóstolo João: “Amém. Vem, Senhor Jesus.” (Apoc. 22:20.)

Referências:

1. Detalhes adicionais sobre o propósito e o significado que os 6.000 anos possuem em relação com a história deste mundo nos escritos de Ellen G. White podem ser encontrados em: Warren H. Johns, Ellen G. White and Biblical Chronology’. Ministry (abril de 1984), págs. 20-23.

2. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 187.

3. Idem, pág. 189.

4. Ellen G. White, O Grande Conflito, pag. 459.

5. __________, Mensagens Escolhidas, vol. 1 pág. 188.

6. _________ Primeiros Escritos, pág. 75.

7. ________ Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 186.

8. __________. Primeiros Escritos, pág. 75.

9. Emil Brunner, Eterna) Hope (Philadelphia: The Westminster Press, s.d.l, pág. 7.

10. Edward Gibbon, The Decline and Faíl of the Ro. man Empire (New York: Modem Library, s.d.), vol1. pág. 383.

11. Ideto. vol. 1, pág. 402.

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A condição humana de Jesus nos escritos de Ellen White

José Carlos Ramos

"Jesus aceitou a humanidade quando a raça havia sido enfraquecida por quatro mil anos de pecado".

Que tipo de natureza humana foi assumida da por Deus o Filho ao encarnar e viver entre nós? Pré-lapsariana, isto é, idêntica à de Adão antes da queda, ou pós-lapsariana, isto é, idêntica à nossa? Ambas as hipóteses parecem contar com apoio das Escrituras. Hebreus 7:26, por exemplo, refere-se a Cristo como, 'santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores, e feito mais alto do que os Céus ". Estas palavras descrevem adequadamente uma condição pré-lapsariana de humanidade. Por outro lado, esta mesma epístola, no capítulo 2:14 e 17, afirma que Ele se tornou semelhante aos demais homens na" participação comum de carne e sangue ", o que sugere uma condição pós-lapsariana (ver Rom. 8:3).

Igualmente o Espírito de Profecia parece favorecer uma e outra hipótese. Eis algumas citações com sabor pré-lapsariano (grifos nossos):

"Cristo veio à Terra assumindo a humanidade e colocando-Se como representante do homem para mostrar a grande controvérsia com Satanás que o homem, como Deus o criou em comunhão com o Pai e o Filho, poderia obedecer a cada requerimento divino." - Signs of theTimes, 9 de junho, 1898.

"Cristo é chamado o segundo Adão. Em pureza e santidade, unido com Deus e amado por Deus, Ele começou onde o primeiro Adão começou. Ele cruzou o chão onde Adão caiu, e redimiu o fracasso de Adão." - Yoth's Instructor, 2 de junho, 1898.

"Ele venceu a Satanás na mesma natureza a qual no Éden Satanás obteve vitória." - Idem, 25 de abril, 1901.

"Ele devia tomar Sua posição como cabeça da humanidade ao tomar a natureza mas não a pecaminosidade do homem." - Signs of the Times, 29 de maio, 1901.

"Sede cuidadosos, extremamente cuidadosos quanto a como vos ocupais com a natureza humana de Cristo. Não O coloqueis diante do povo como um homem com as propensões do pecado. Ele é o segundo Adão. O primeiro Adão foi criado puro, impecável, sem uma mancha de pecado sobre si; ele era a imagem de Deus... Jesus Cristo... poderia ter caído, mas nem por um momento existiu nEle uma propensão má... Nunca, de forma alguma, deixe a mais leve impressão sobre as mentes humanas que uma mancha de corrupção, ou inclinação para corrupção... apegou-se a Cristo, ou que Ele de alguma forma cedeu à corrupção... Que cada ser humano seja advertido contra a idéia de tornar Cristo totalmente humano tal como um de nós; isto não pode ser." - Comentário Adventista (inglês), vol. 5, págs. 1128 e 1129.

Destas citações podemos inferir que Cristo é o segundo Adão e como tal era diferente de nós no sentido de não possuir mácula do pecado, que possuímos desde o momento em que somos gerados (ver Sal. 51:5). Ele era isento das tendências carnais e pecaminosas que marcam a nossa vida. Para Ellen White, expressões como "pecaminosidade do homem", "propensão para corrupção" , "mancha de corrupção", "propensão má" e "propensões do pecado", são nesse contexto, mais ou menos equivalentes. Nenhuma destas coisas se fez presente em Jesus.

Outro grupo de citações parece implicar um sentido pós-lapsariano. Damos alguns exemplos novamente grifando expressões por motivo de ênfase:

"A natureza de Deus, cuja lei tinha sido transgredida, e a natureza de Adão, o transgressor, se reuniram em Jesus - o Filho de Deus e o Filho do Homem." - Idem, vol. 7, pág. 926.

"Cristo, que não conhecia o mínimo vestígio de pecado ou contaminação, tomou nossa natureza em seu estado deteriorado." - Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 253.

"Ele tomou sobre Sua natureza impecável, nossa natureza pecaminosa." - Medical Ministry, pág. 181. " Estava no plano de Deus que Cristo tomasse sobre si a forma e natureza do homem caído." - Spirit of Prophecy, vol. 2, pág. 39.

Estas citações deixam claro que Cristo assumiu uma natureza humana desfigurada pelo pecado; portanto, idêntica à nossa. Como harmonizar os dois grupos de citações?

Bem, Cristo não pode ter tido duas naturezas humanas, uma imaculada e outra maculada pelo pecado. Se for isto o que E. G. White está afirmando, então ela se contradiz. Mas seguramente não é este o caso. A questão é se entendemos corretamente o que está sendo declarado. Na verdade os conceitos pré e pós-lapsarianos, no contexto da Bíblia e do Espírito de Profecia, não se excluem, mas se complementam. Caso contrário, não possuiriam ambos o aval da inspiração.

Tomemos como exemplo a declaração acima, extraída de Medical Ministry, pág. 181. Ellen White não pode estar afirmando que Jesus tomou nossa natureza pecaminosa sobre Sua natureza impecável, no sentido de que ele passou a possuir duas naturezas humanas, uma que já era a Sua e outra que tomou de nós. Aliás, o sentido do verbo inglês to take (tomar) seguido da preposição upon (sobre), como aparece no original, é segundo o Webster Dictionary, "aceitar a responsabilidade por, aceitar como uma responsabilidade ou dever". A idéia é que Cristo submeteu-Se à situação do homem no pecado, para conhecer por experiência as lutas do pecador, e, por esse meio, gabaritar-Se a prestar-lhe uma ajuda autêntica, eficaz. A citação, em seu contexto, favorece esse pensamento.

"Ele tomou sobre Sua natureza impecável, nossa natureza pecaminosa, para que pudesse saber como socorrer aqueles que são tentados."

O mesmo se verifica em relação à citação seguinte, extraída de Spirit of Prophecy, vol. 2, pág. 39: "Ao tomar a natureza humana Cristo habilitou-Se a entender a natureza das provações humanas, e todas as tentações que assediam o homem. Os anjos, que não estavam familiarizados com o pecado, não poderiam simpatizar com o homem em suas provações peculiares... Estava no plano de Deus que Cristo tomasse sobre Si a forma e natureza do homem caído, para que pudesse Se aperfeiçoar através do sofrimento [o que não poderia ocorrer com Adão antes da queda], e Ele mesmo suportasse a força das ardentes tentações de Satanás, a fim de que pudesse entender como socorrer aqueles que seriam tentados." Cristo assim participou das conseqüências do pecado, às quais todos estamos sujeitos, mas não do próprio pecado. (Ver Heb. 2:18; 4:15.)

Outro ponto a ser considerado tem a ver com a terminologia usada na exposição do assunto. É sabido que a ocasiões em que faltam a um escritor termos que denotem com mais precisão o significado daquilo que deve ser exposto. Recursos literários se mostram inexpressivos, às vezes, na abordagem de temas transcedentais. Certamente escritores bíblicos depararam com esse problema, e com Ellen G. White não foi diferente. Este simples fato deve nos alertar quanto à necessidade de cuidado ao nos propormos à difícil tarefa da interpretação. Quando, por exemplo, a Bíblia diz que Deus "Se arrependeu", cumpre-nos procurar saber o que realmente está sendo aí enunciado. Seja o que for, não poderá contrariar o significado de outras informações que a mesma Bíblia presta sobre Deus, com opor exemplo o atributo da imutabilidade. Neste caso, temos de convir que o que Deus é dará o seu significado dos termos usados em referência a Ele, e não vice-versa.

No caso da natureza humana de Jesus, a exemplo de qualquer outro tema, cumpre-nos procurar saber por que E. G. White fez tais declarações, por que utilizou determinada terminologia, e o que realmente estava querendo comunicar. Uma forma através da qual é possível descobrir o que um escritor está querendo dizer quando emprega determinados termos, é observar o sentido que ele mesmo deu àqueles termos em outra ocasiões sobre o assuntos mais óbvios foram abordados. Isto, todavia, nem sempre funciona, porque podem estar os referidos termos sendo agora empregados em declarações não plenamente elaboradas. Exemplos disso ocorrem em declarações do Espírito de Profecia, as quais devem ser consideradas como citações livres que Ellen G. White faz de suas fontes de pesquisa.

A propósito, a revista The Ministry publicou há algum tempo um curto mais excelente artigo de autoria de Tim Poirier, secretário assistente do White Estate, que toca exatamente este ponto. Devemos compreender que a Sra. White não se acomodou com as visões que Deus lhe deu. Ela foi uma incansável pesquisadora, examinando autores cujos escritos poderiam não somente ajudá-la a entender certos assuntos, mas igualmente suprir-lhe certas expressões através das quais poderia melhor comunicar a revelação divina.

Seguido o articulista, um número de afirmações de E. G. White sobre a natureza humana de Jesus parece refletir o pensamento do pregador anglicano Henry Melvill (1798-1891), cujos sermões foram publicados em vários volumes. Para esse autor, a queda do homem acarretou duas conseqüências primárias: (1) debilidades inocentes, coisas como fome, dor, fraqueza, sofrimento e morte; e (2) propensões pecaminosas, isto é, inclinações ou tendências para o pecado. Cristo assumiu as primeiras sem assumir as segundas. Ainda de acordo com o articulista, termos com propensão, tendência, predisposição, foram entendidos e empregados por E. G. White numa perspectiva idêntica à de um outro autor, Octavius Winslow, o qual seguiu a mesma linha de argumentação de Melvill. Recomendamos a leitura de todo artigo, publicado em The Ministry, dezembro de 1989, págs. 7-9.

Este fato confirma o que concluímos anteriormente. Que para a serva do Senhor a imaculabilidade e impecabilidade de Cristo não significam incolumidade às conseqüências do pecado. Portanto, dois importantes aspectos da natureza humana de Jesus são abordados pelo Espírito de Profecia, ambos imprescindíveis à nossa salvação. Por um lado Cristo é referido como segundo Adão, o homem representativo da nova humanidade, o pai da raça redimida, Aquele que significa a nossa segunda oportunidade, o Filho de Deus. Por outro lado Ele é o Filho de Maria, Aquele que não somente se identifica conosco em nossas dores, conflitos e misérias, tornando-Se o nosso grande ajudador, mas antes de tudo Aquele que tomou nossas dores, que Se colocou em nosso lugar para arrostar a pena que nos estava reservada, tornando-Se assim o nosso Substituto e Redentor. "Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos." (Gal. 4:4 e 5, grifos acrescentados.) O quadro, pois, se completa, e Jesus é colocado em Seu devido pedestal. Ele é tudo o de que o homem carece, o Alfa e o Omega, o Autor e Consumador da redenção, o grande Ideal e o grande Recurso deparado pelo Céu para que esse ideal seja alcançado. Temos então dois lados de uma única moeda que se chama à natureza humana de Cristo. Observemos um terceiro grupo de citações que nos ajudam a estabelecer definitivamente o assunto. Grifamos novamente um ou outro ponto digno de destaque:

"Jesus aceitou a humanidade quando a raça havia sido enfraquecida por quatro mil anos de pecado." - O Desejado de Toda as Nações, pág. 41. No mesmo parágrafo ela afirma que Cristo Se subordinou à lei da hereditariedade. O termo dessa citação é humanidade enfraquecida. Quanto às doenças, Cristo não teve porque cumpriu à risca as leis de saúde. (Ver Desejado de Todas as Nações, pág. 35.)

"Separada da presença de Deus, a família humana, a cada geração sucessiva, estivera se afastando mais e mais, da pureza, sabedoria e conhecimentos originais, que Adão possuía no Éden. Cristo suportou os pecados e fraquezas da raça humana tais como existiam quando Ele veio à Terra para ajudar o homem caído. Em favor da raça, tendo sobre Si as fraquezas do homem caído, devia Ele resistir às tentações de Satanás em todos os pontos em que o homem seria tentado." - Mensagens Escolhidas, vol. 1, págs. 267 e 268. Aqui é afirmado que Jesus não veio no vigor de Adão antes da queda. Ele assumiu uma natureza humana enfraquecida física, mental e espiritualmente pelo pecado, e venceu o inimigo nesta condição.

"É um irmão em nossas fraquezas, mas não em possuir idênticas paixões. Sendo sem pecado, Sua natureza recuava do mal." - Testemunhos Seletos, vol. 1, pág. 220. Aqui são apresentados os dois lados da moeda "... em nossas fraquezas" implica condição pós-lapsariana, enquanto "sem pecado" implica condição pré-lapsariana. Cristo arcou com uma humanidade enfraquecida pelo pecado, mas moralmente era imaculada. João 14:30 afirma que o diabo não encontrou em Jesus qualquer correspondência às suas tentações. Mais algumas citações realçam o devido equilíbrio entre esses dois aspectos:

"Ele era incontaminado pela corrupção, um estranho ao pecado [condição pré-lapsariana]; contudo, orava, e freqüentemente com grande clamor e lágrimas. Orava por Seus discípulos e por Si mesmo, identificando-Se assim com nossas falhas, que são tão comuns à humanidade [pós-lapsariana]. Era um poderoso intercessor, não possuindo as paixões de nossa natureza humana caída [condição pré-lapsariana], mas rodeado das mesmas fraquezas [condição pós-lapsariana], tentado em tudo como nós. Jesus suportou agonia que requeria ajuda e apoio de Seu Pai." - Testimonies, vol. 2, págs. 508 e 509.

"Vestido nas vestimentas da humanidade, o Filho de Deus desceu o nível daqueles a quem Ele desejava salvar. Nele não havia qualquer mancha ou pecaminosidade; Ele foi sempre puro e imaculado [condição pré-lapsariana]; enquanto tomou sobre Si nossa natureza pecaminosa [condição pós-lapsariana]." - Review and Herald, 15 de dezembro de 1898. É evidente nesta citação que "tomar nossa natureza pecaminosa" não significa adquirir pecaminosidade.

"Ele nasceu sem uma mancha de pecado [condição pré-lapsariana], mas veio ao mundo em maneira igual à da família humana" [condição pós-lapsariana]. - Carta 97, 1898, cit. em Question on Doctrine, pág. 657.

É óbvio que Ellen G. White afirma que Jesus Se subordinou às limitações impostas pelos efeitos do pecado na raça humana desde a queda, a partir da qual a natureza humana foi se tornando mais e mais enfraquecida. Tal natureza humana, assim afetada pelo pecado, foi assumida por Ele.

Mas ao mesmo tempo Ele não herdou a mancha do pecado, a inclinação para o mal afeta a cada ser humano, e que costumamos chamar de natureza pecaminosa ou carnal. Santidade plena e fragilidade do homem caído fizeram presentes em Jesus Cristo. Esses dois aspectos de uma única natureza foram Nele combinados numa forma singular para capacita-Lo a ser nosso Salvador. Fosse apenas imaculado e não participasse de nossa experiência como vítimas do pecado, e não poderia ser nosso substituto e ajudador. Participasse de nossas dores e não da imaculabilidade de Adão antes da queda, e não poderia ser nosso Salvador. Teria de padecer por Si mesmo. "Não houve nele uma só gota de nossa amarga miséria que Ele não provasse, parte alguma de nossa maldição que não sofresse, a fim de que pudesse levar a Deus muitos filhos e filhas." - Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 253.

Fonte: Revista Adventista, Janeiro de 1992

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A natureza humana de Jesus

Pedro Apolinário

Dentre os muitos temas da Cristologia que desde os tempos pós-apostólicos têm gerado inúmeros debates, há um que permanece com certo grau de indefinição: era a natureza humana de Cristo pecaminosa ou não?

Diria inicialmente que ainda não temos posição definida da Igreja Adventista a respeito, tal a complexidade do problema.

É importante destacar, todavia, que "assim como a fé em Cristo constitui a alma do Cristianismo puro e prático, igualmente a verdadeira doutrina acerca de Cristo é o âmago de toda a teologia que mereça o nome de Cristã.” (1) Por este motivo, com o espírito dos bereanos (Atos 17:11), examinemos as Escrituras objetivando maior compreensão da natureza humana de Cristo.

Como o Filho de Deus, o fato de o Criador do Céu e da Terra ter vindo a este mundo nascer como Filho do homem (reunindo em uma pessoa as naturezas divina e humana) transcende a limitada compreensão do homem. Por isso

a Bíblia denomina este acontecimento como o grande mistério da piedade (I Tim. 3:16). Embora a encarnação seja mistério para nós, somos encorajados pelo Espírito de Profecia (Review and Herald, 5-4-1906) a estudá-la orientados pelo Espírito Santo.

Pensamentos úteis: "A humanidade do Filho de Deus é tudo para nós. É a corrente de ouro que liga nossa alma a Cristo, e por meio de Cristo a Deus.” (2)

"Evite toda discussão a respeito da humanidade de Cristo que dê lugar a mal-entendidos.” (3)

"As duas expressões humano e divino, em Cristo, tornaram-se unidas e inseparavelmente uma, contudo mantinham uma distinta individualidade.” (4)

Todos caímos pelo pecado do primeiro Adão, mas todos seremos libertados do pecado pela obediência do segundo Adão. Cristo tomou o lugar de Adão, para ser aprovado onde o pai da raça humana falhou.

É essencial saber que Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, porque em virtude da duplicidade de Seu trabalho era necessário que ele fosse divino e humano. Como divino trouxe Deus aos homens; como humano elevou os homens até Deus.

Heresias primitivas: As principais heresias surgiram da dificuldade em harmonizar a divindade com a humanidade. Duas escolas se opuseram neste sentido: a de Alexandria dando ênfase à divindade, e a de Antioquia, defendendo que Cristo era apenas humano.

Neste conflito se destacaram os seguintes grupos:

1. Os ebionitas, devido a sua formação judaica, negavam a natureza divina de Cristo, apresentando-o como mero homem.

2. O docetismo, por outro lado, negava a natureza humana de Cristo, porque seus adeptos julgavam que Sua pureza não podia estar ligada à matéria, que reputavam inerentemente má. Defendiam um corpo aparente e não carnal como o nosso.

3. O cerintianismo sustentava que a união das duas naturezas só se processou por ocasião do batismo de Jesus, e se desfez pouco antes de Sua morte.

4. O monofisismo, como o próprio nome indica, defendia uma só natureza para Cristo. A teologia bíblica nos evidencia que em Cristo há duas naturezas, mas uma única personalidade.

5. O apolinarianismo mutilou a natureza humana de Cristo, negando que tivesse alma humana.

6. O eutiquianismo defendia que as duas naturezas de Cristo se uniram em uma só, essencialmente divina.

7. O pelagianismo afirmava que os homens não nascem pecadores, mas assim se tornam por imitar o exemplo pecaminoso de Adão; por outro lado, chegamos a ser justos imitando o exemplo de Cristo.

Estas controvérsias dividiram a Igreja por séculos, porque muitos havia que tentaram ir além das revelações divinas.

O problema na IASD: Desde os pioneiros até hoje, assumimos duas posições distintas quanto à humanidade de Cristo: um grupo defende que Ele veio com a natureza de Adão antes da queda (pré-lapsarianista); outro, que veio com a natureza adâmica após a queda (pós-lapsarianista).

A Organização Adventista, nem nas 22 "Declarações de Nossa Crença", nem nas mais recentes 27 "Declarações das Crenças Fundamentais", votadas em Dálias, em abril de 1980, tratou do assunto.

E. J. Waggoner declarou que Cristo possuía a natureza pecaminosa do homem. (5) O Pastor W. W. Prescott, num sermão publicado em "The Bible Echo" (6/01/1896), afirma enfaticamente que Cristo tomou sobre Si a carne pecadora. (6)

Quando o livro Questions on Doctrine foi publicado (1957), e apareceu a taxativa afirmação da absoluta impecabilidade da natureza humana de Cristo, isto chocou a alguns como M. L. Andreasen, que escreveu o seguinte: "Tal ensino era contrário ao que os adventistas sempre haviam crido e Ensinado. (7)

Mais recentemente duas lições da Escola Sabatina apresentaram de modo diferente a natureza humana de Cristo.

I — A do primeiro trimestre de 1983, escrita por Norman R. Gulley, dava ênfase à natureza humana não-pecaminosa. As principais posições do autor são:

a) Cristo é nosso substituto.

b) Pecado não é apenas um ato, mas separação de Deus. Cristo assumindo a natureza humana manteve inflexível união com Deus.

c) Quanto à natureza física, Cristo é semelhante a nós. mas quanto à natureza moral e espiritual era semelhante a Adão antes da queda. Cristo é o segundo Adão por não ter propensões para o pecado.

d) Não somos culpados pelo pecado de Adão, não nascemos pecadores, mas com tendências pecaminosas.

e) A missão de Cristo foi salvar pecadores (Luc. 19:10). Se possuísse natureza pecaminosa, era também um pecador, necessitando Ele mesmo de um salvador

II — A lição de Herbert Douglass (quarto trimestre de 1984) opõe-se à de Gulley, por defender que Cristo tomou a natureza pecaminosa.

Seus argumentos essenciais são:

a) Cristo devia tomar a natureza caída para ser nosso exemplo.

b) Para bem compreender a natureza humana, era necessário perfeita identificação com o homem.

c) Não poderia com justiça haver condenado o pecado na carne, se

a Sua fosse intrinsecamente diferente da carne humana.

d) As expressões bíblicas: "Ele tomou a descendência de Abraão" (Almeida Antiga; Heb. 2:16) " ...segundo a carne veio da descendência de Davi" (Rom. 1:3), são usadas como prova de que Jesus tomou uma natureza pecaminosa derivada de Abraão e Davi.

O amplo contexto da Bíblia, todavia, prova que estes versos não estão considerando a natureza de Cristo, mas a Sua missão. Assim como Deus chamou a Abraão para formar um povo através do qual abençoaria todas as nações (Gên. 22:18), semelhantemente Jesus veio através de Maria para salvar as nações. Mat. 1:18, 21. Veja Ministry, junho de 1985, pág. 16

e) Defende sua posição com Hebreus 2:14; 4:15; 5:7-9. Comentando Hebreus 5:7-9, Douglass afirma: Se Cristo tivesse a natureza de Adão antes da queda, não teria necessidade de aprender neste mundo.

f) Em defesa de seu ponto de vista, cita Ellen G. White: "Cristo tomou sobre Sua natureza divina a forma e natureza do homem caído." — The Spirit of Prophecy, vol. 2, pág. 39.

g) Na lição do dia 3-11-84, lemos: “Ele [Cristo] reteve o caráter de Deus enquanto foi sobrecarregado com a natureza ou constituição pecaminosa."

Tanto Gulley quanto Douglass se valem da Bíblia e de Ellen G. White em defesa de suas posições contrárias.

A análise das duas lições deixa nos a impressão de que os argumentos de Gulley são mais lógicos, consistentes e em harmonia com as Escrituras e o Espírito de Profecia.

Inegavelmente a Bíblia apresenta a Cristo como nosso Substituto e Exemplo, mas a salvação não a recebemos apenas por imitar o exemplo digno de vida que Ele nos legou. Seu papel como Substituto ocupa posição primordial, enquanto como Exemplo um lugar subordinado.

Romanos 8:3; II Coríntios 5:21; Filipenses 2:7 e Hebreus 2:14 são usados por Gulley e Douglass em defesa de suas conclusões. Confrontando estes versos com outros, concluímos que é difícil aceitar que a natureza humana de Cristo seja pecaminosa. Os textos citados afirmam que Jesus era homem, que veio na semelhança, mas não na identidade do homem.

Semelhança não significa igualdade. A serpente de bronze do deserto não era destruidora, mas se assemelhava a uma serpente destruidora.

Sobre Romanos 8:3 escreveu A.V. Olson: "A expressão ‘Deus enviando Seu Filho em semelhança da carne do pecado’ não deve ser interpretada como significando que Deus enviara Seu Filho em carne pecaminosa. A semelhança é um símile, uma comparação, uma aparência externa e não algo absolutamente igual. Uma fotografia de determinada pessoa é a semelhança da aparência exterior de quem se deixou fotografar, mas não aquela pessoa. Assim ocorre com a carne de Cristo. Assemelhava-se à carne dos homens no meio dos quais viveu, mas achava-se livre de qualquer mancha de pecado.” (8).

Solução bíblica: A Bíblia afirma que todos os descendentes de Adão foram concebidos em pecado, logo todos são pecadores. Essa foi exatamente a confissão de Davi no Salmo 51:5: "Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe."

Sendo Adão cabeça e representante geral de toda a raça, a sua queda fez com que todos os homens caíssem. Isto é o que nos diz Paulo em duas passagens:

a) Romanos 5:19 "... pela desobediência de um só homem muitos

se tornaram pecadores ..."

b) I Coríntios 15:22 "... em Adão todos morrem..."

A única exceção a esta regra geral foi o nascimento de Cristo, que esteve livre do pecado original, porque Sua natureza humana foi formada no ventre de Maria pelo poder do Espírito Santo, e o que vem diretamente de Deus não pode ser maculado pelo pecado.

O apóstolo João, em seu evangelho (1:13), confirma que Cristo não nasceu da vontade da carne, mas do Espírito.

As seguintes passagens apresentam a Cristo livre de pecaminosidade e sem propensão para o pecado:

l. II Coríntios 5:21: "Aquele que não conheceu pecado, ele O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus."

O Professor Dederen diz sobre este verso: "Se fez pecado" não é uma expressão muito comum. Entretanto, parece-me claro que quer dizer: tratado como um pecador, feito para carregar a pena do pecado, ou algo semelhante. 'Deus mesmo', comenta Kari Barth, 'olhou-O e O tratou como um pecador.” (9)

"Ele tornou-Se pecado por nós não na natureza pelo nascimento, mas em missão pela morte." (Norman R. Gulley.)

O livro Questions on Doctrine, preparado por professores de teologia e líderes adventistas, na página 56, comentando a expressão "Ele O fez pecado por nós" declara: "Esta expressão paulina tem desconcertado teólogos durante séculos, mas, por mais que signifique, certamente não quer dizer que nosso Imaculado Senhor Se tornou um pecador. O texto declara que ele foi feito (como pecado). Portanto, deve significar que Ele foi contado com os transgressores (Isa. 53:12) e que tomou o fardo e a penalidade que nos cabiam."

De acordo com muitos comentaristas, pecado nesta passagem significa "oferta pelo pecado". Veja o Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol. 4, pág. 350, de Russell Norman Champlin.

2. Hebreus 7:26 confirma que Ele não tinha natureza pecaminosa.

"Com efeito nos convinha um sumo sacerdote, assim como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores, e feito mais alto do que o céus." (Grifo acrescentado.)

3. I S. Pedro 1:19: "Mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo."

4. IS. João 3:5: "Sabeis também que Ele Se manifestou para tirar os pecados, e nEle não existe pecado."

A afirmação de João vai além de dizer que Ele não pecou. Declara que nEle não existe pecado. Se Sua natureza fosse pecaminosa, esta afirmação não lhe caberia.

5. S. Lucas 1:35 nos cientifica de que a impecabilidade de Cristo foi proclamada antes do Seu nascimento - " ...por isso o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus". A expressão 'ente Santo ou ser Santo' jamais poderia ser dita de nossa natureza humana.

6. S. João 8:46 é outra prova da natureza humana não pecaminosa. "Quem dentre vós Me convence de pecado?"

7. S. João 14:30: "Já não falarei muito convosco, porque aí vem o príncipe do mundo; ele nada tem em Mim." Satanás não tinha nada em Jesus, porque Sua natureza humana não era pecaminosa.

8. Hebreus 9:14: "Muito mais o sangue de Cristo que, pelo espírito eterno, a Si mesmo Se ofereceu sem mácula a Deus... "

No Espírito de Profecia: A pena inspirada de Ellen G. White seguiu a mesma direção dos escritores bíblicos quanto à natureza humana não pecaminosa de Cristo. Várias citações evidenciam este fato, como por exemplo:

"Sede cuidadosos, excessivamente cuidadosos ao vos demorardes sobre a natureza humana de Cristo. Não O apresenteis diante do povo como homem com propensão para o pecado. Ele é o segundo Adão. O primeiro Adão foi criado puro, ser não pecaminoso, sem uma mancha de pecado sobre si; tinha a imagem de Deus e podia cair, e o fez por meio da transgressão. Pelo pecado sua posteridade nasceu com a inerente propensão da desobediência. Jesus Cristo, porém, era o Filho unigênito de Deus. Tomou sobre Si a natureza humana e foi tentado em todos os pontos em que a criatura humana o é. Ele podia ter pecado; podia ter caído, mas nem por um momento houve nEle qualquer propensão para o mal."

"Nunca, de maneira nenhuma, deixeis a mais leve impressão sobre as mentes humanas de que pairasse sobre Cristo corrupção, mancha ou inclinação para o pecado.” (10)

"Ele tomou a forma humana, porém não a natureza pecaminosa."

"Ao identificar-Se com nossas necessidades, nossas fraquezas e nossos sentimentos... foi um poderoso intercessor, não possuindo

as paixões de nossa natureza humana caída.” (12)

"Não devemos ter dúvidas quanto à perfeita impecabilidade da natureza humana de Cristo.” (13)

"Ele tomou sobre Sua natureza sem pecado nossa natureza pecaminosa.” (14)

"Tivesse Ele uma nódoa de pecado, e não podia ser o Salvador

da Humanidade.” (15)

É inegável a existência de citações de Ellen G. White que favorecem a outra posição. A mais citada encontra-se no Comentário Adventista, vol. 4, pág. 1147: Jesus Se apropriou da "natureza sofredora humana caída, degradada e corrompida pelo pecado." À luz, porém, do contexto amplo dos seus escritos, e das Escrituras Sagradas, tais citações se referem, sem dúvida alguma, à natureza física de Cristo; não à natureza moral.

Outras comprovações: "Tivesse Jesus vindo ao mundo com uma mancha de pecado, com inclinações e propensões para o mal. e teria estado como todos os filhos de Adão (ver Rom. 5:12) debaixo da condenação da morte devido a Sua situação deplorável, e, portanto, necessitado de expiação.” (16)

"O Filho de Deus assumiu nossa natureza humana sem pecado, de modo que Ele era em tudo igual a nós, exceto no pecado.” (17)

"Este aspecto da natureza humana pecaminosa, embora presente na posteridade de Adão, não estava presente na natureza humana de Cristo.” (18)

"Ele [Cristo] devia tomar Sua posição de cabeça da humanidade, tomando a natureza, mas não a pecaminosa idade do homem.” (19)

"Ele [Cristo] estava isento de paixões hereditárias e das contaminações que corrompem os descendentes naturais de Adão.” (20)

A maioria dos teólogos adventistas e protestantes defende que a natureza humana de Cristo não era pecaminosa. As citações apresentada exemplificam este fato.

Conclusão: "Uma vez que o pecado em sua raiz é um princípio ou estado, a natureza pecaminosa tornaria Cristo um ser pecador e Ele próprio em necessidade de um Salvador.” (21)

A crença de que a natureza humana de Cristo era pecaminosa, opõe-se à Bíblia, foi condenada pela Igreja Primitiva, rejeitada pêlos reformadores e contraria explícitas declarações do Espírito de Profecia.

A natureza humana de Cristo era exatamente igual a nossa: imperfeita e corrompida, no aspecto físico. No aspecto moral, todavia, era santa. Ele foi o segundo Adão, e Seu próprio desejo deve silenciar-nos de uma vez: "Quem dentre vós Me convence de pecado?" (João 8:46).

Referências:



1. A Pessoa de Cristo, pág. 13. Philip Schaff.

2. Mensagens Escolhidas. Livro I, pág. 244.

3. Carta n° 8 de Ellen G. White ao Pastor W. L. H. Baker.

4. Signs of the Times, 1005-1899. Ellen G. White.

5. Veja Cristologia, pág. 101, de Raoul Dederen.

6. Idem, pág. 108.

7. Letters to the Churches, n° l, pág. 5.

8. O Ministério Adventista, setembro/outubro de 1962, pág.10.

9. Cristologia, pág. 56, Raoul Dederen.

10. Citação do SDA Bible Commentary, vol. 5, pág. 1128.

11. Signs of the Times, 29-05-1901. Citado em Questions on Doctrine, pág. 55.

12. Testimonies, vol. II, pág. 508.

13. Mensagens Escolhidas, Livro I, pág. 300.

14. Medicina e Salvação, pág. 181.

15. The Youth's Instructor, 21-09-1899.

16. Artigo de A. V. Olson em O Ministério Adventista, setembro-outubro de 1962, pág. 10.

17. Fórmula de Concórdia, pás. 239.

18. Cristologia. pág. 125, Raoul Dederen.

19. SDA Bible Commentary, vol. 7, pág. 925.

20. Seventh-day Adventist Answer Questions on Doctrine, pág. 383.

21. Lição da Escola Sabatina, pág. 42, Edição do Professor, Primeiro Trimestre de 1983.

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Cristo: O problema da onipresença

Pedro Apolinário

Ultimamente várias perguntas nos têm sido feitas para que esclareçamos se Cristo realmente perdeu Sua Onipresença. O problema surgiu destas duas circunstâncias:
1º) A promessa de Cristo de enviar o Espírito Santo (S. João 14:16), e a declaração de Ellen G. White: "Embaraçado com a humanidade, Cristo não poderia estar em toda parte em pessoa. Era, portanto, do interesse deles que fosse para o Pai, e enviasse o Espírito como Seu sucessor na Terra."'
2º) Descuidadas notas de lições da Escola Sabatina, as quais analisaremos nesta matéria.

Atributos Divinos: Para compreender melhor o assunto, seria bom saber alguma coisa sobre os atributos divinos.

Devemos distinguir entre a natureza de Deus e Seus atributos. A natureza de Deus constitui o Ser; os atributos revelam o Ser. Deve-se ainda notar que os atributos não são Deus, mas são os modos e as qualidades dEle.

Várias classificações têm sido apresentadas: uns falam em atributos naturais e morais; um segundo grupo prefere falar em atributos absolutos e relativos.

A mais comum, todavia, é falar em atributos incomunicáveis ou imanentes, e comunicáveis ou emanentes.

Atributos incomunicáveis são privativos de Deus, e não podem ser encontrados no ser humano: onipotência, onipresença, onisciência imutabilidade. Por outro lado, atributos comunicáveis são aqueles que a Divindade transfere ao ser humano, tais como: bondade, amor, justiça, paciência, longanimidade, misericórdia, etc.


Conhecendo o Problema: A declaração de O Desejado de Todas as Nações, página 644 - “Embaraçado [ou limitado] com a humanidade..." — se explica por si mesma. Cristo, ao estar na Terra, era tanto Deus como Homem, mas tinha uma missão a cumprir exclusivamente como Homem, não podendo, portanto, utilizar-Se de

Sua divindade para benefício próprio ou no cumprimento de tal missão. A prova de que a divindade estava nEle presente é que Sua maior tentação foi usar o poder divino que possuía (ver S. Mat. 4:1-11). Limitado pela humanidade, Ele não poderia estar em toda parte, mas como divino, isso era perfeitamente possível.

Se em Sua humilhação, Cristo não usou os atributos divinos

independentemente do Pai, é evidente que concluída essa fase na Terra, podia usá-los livremente. Tanto é que Seu primeiro ato após concluir Sua missão na cruz foi ressuscitar-Se a Si próprio pelo poder divino que possuía. (2).

Ensinar que Cristo perdeu a onipresença é mais uma das artimanhas do inimigo, para diminuir o Salvador de Seu todo-suficiente sacrifício em nosso favor.

Declarar que Ele perdeu a onipresença seria negar Sua divindade, uma das mais sérias heresias que a Igreja Cristã enfrentou através dos séculos, e

enfrenta em nossos dias.

Cristo é Deus, pois o Novo Testamento assim o denomina sete vezes. (S. João 1:1; 20:28; Rom. 9:5; Tito 2:13; Heb. 1:8; II S. Ped. 1:1; I S. João 5:20.)

Se é Deus, é perfeito, logo não pode ganhar nem perder nada. O Pastor Daniel Porto declarou convincentemente: "É bastante eliminar um dos atributos de Deus para que Ele deixe de ser Deus.” (3)



Ampliando o Problema: Quanto às notas de lições da Escola Sabatina, três merecem destaque:

a) Dia 7 de abril de 1977 — "Quando Jesus Se tornou carne, despiu-Se dos poderes da Divindade e Se tornou absolutamente dependente do Pai e do Espírito Santo."

Não tive condições de averiguar se o verbo despir-se foi bem traduzido do inglês, ou se foi uma infelicidade de tradução.

Despir-se é pôr de lado, abandonar, despojar-se. Jesus não deixou Sua natureza divina ao estar na Terra; Ele possuía as duas naturezas. De Divindade Ele passou à humanidade, esvaziou-Se, sem

deixar de Ser Deus.

O Espírito de Profecia contesta a idéia de Cristo despir-Se ou despojar-Se da natureza divina:

"Jesus tomou a humanidade e a acrescentou à Divindade. Ele

revestiu Sua divindade com a humanidade.” (4)

"A Divindade e a humanidade combinaram-se misteriosamente, e o homem e Deus se tornaram um.” (5).

"Cristo não podia ter vindo à Terra com a glória que possuía nas cortes celestiais. Seres humanos pecadores não suportariam vê-Lo. Ele velou Sua divindade com a roupagem da humanidade, porém, não Se desfez de

Sua divindade.” (6).

Não Se desfazer da divindade é a maior prova de que também não Se desfez da onipresença.

b) Dia 11 de março de 1983 — "Jesus, como Ser humano, está na presença de Deus no Céu, comparecendo ali por nós. Visto que Ele sempre continuará sendo humano, está restringido a um lugar no espaço e no tempo.

(Ver O Desejado de Todas as Nações, ed. popular, pág. 644.)"

Como humano Cristo estaria limitado pelo espaço, mas como divino jamais, porque Deus não pode ser limitado nem pelo espaço nem pelo tempo.

Uma das provas conclusivas de não estar limitado pelo espaço se encontra em Seu aparecimento a dois discípulos no caminho de Emaús (S. Luc. 24:13-31), e aos outros em Jerusalém (S. Luc. 24:36 e 37).

A publicação adventista Questions on Doctrine (explicação de nossas crenças fundamentais, à página 77) afirma: "O fato de Cristo ter-Se tornado homem de modo algum fez com que Sua divindade fosse restringida ou subtraída."

c) Dia 8 de setembro de 1986 — "Visto, porém, que 'Cristo levou Sua humanidade para a eternidade' (Comentários de Ellen G. White, SDABC, vol. 7, pág. 925) e está restringido a um corpo humano e não pode mais estar presente em toda a parte como sucedia antes da encarnação, Ele habita agora em Seus seguidores por meio do Espírito Santo.’ ”"É por meio do Espírito Santo que Cristo habita em nós.” (Deve-se notar bem que apenas o que se encontra entre aspas simples pertence a Ellen G. White; o restante é do autor da lição.)

Como Igreja é importante que não permitamos nenhum erro doutrinário entre nós. A afirmativa do autor da lição — “... não pode mais estar presente em toda parte como sucedia antes da encarnação..." — não se harmoniza com outras declarações do Espírito de Profecia e com os ensinos das Escrituras.

A seguinte verdade deve ser lembrada: cada pessoa da Trindade desempenha específica função em benefício do ser humano, mas isso não significa que cada uma não possa desempenhar a função da outra.

Nas 50 proposições sobre nossas crenças e ensinos há esta: “Cremos que a Divindade, ou Trindade, consiste do Eterno Pai, Ser Pessoal, espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e amor; do Senhor Jesus Cristo, Filho do Eterno Pai, através de quem todas as coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; do Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador na obra da redenção (S.Mat.28:19).” (7).

A função de cada membro da Trindade é a seguinte: "Deus no trono do Universo, Jesus no trono da graça e o Espírito Santo no trono do coração humano trabalham para a nossa salvação.” (8)

O Pai provê, o Filho realiza e o Espírito Santo aplica. Concluir que Cristo, por conservar Seu corpo humano após a encarnação, perdeu a onipresença é errado, porque seria crer que Ele deixou de ser divino.

"Cristo é Deus perfeito, mas nunca deixou de ser Homem perfeito, desde o momento da encarnação. O Ser que subiu ao Céu e está assentado à destra de

Deus Pai é Homem e também Deus. Cristo é Homem perfeito,

mas nunca deixou de ser Deus perfeito.” (9).


Referências Bíblicas: Há inúmeras provas bíblicas da onipresença de Cristo. S. Mateus 18:20 "Porque onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, ali estou no meio deles."

Hebreus 13:8 — "Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre." Valiosa prova de que Cristo não poderia ter perdido nada está em Sua imutabilidade.

Os versos 19 e 26 de S. João 20 comprovam que Cristo, após a ressurreição, não estaria restringido a um corpo humano.

A declaração de Lucas (Atos 9:5) do aparecimento de Cristo a Paulo, cientifica-nos de que Ele pode aparecer em qualquer lugar.

A maior evidência bíblica de que Cristo, tomando a natureza humana, não perdeu nada da divindade se encontra na conhecida declaração paulina: "Portanto nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade." Col. 2:9.

O Comentário Adventista traz a seguinte nota sobre este verso: "Em Cristo habita a soma total da natureza e atributos de Deus.Todas as funções e poderes da divindade residem continuamente nEle. Toda a plenitude de Deus é revelada em Cristo.

"A extensão do termo pleroma, 'plenitude', é sem limite no tempo, no espaço e em poder. Tudo quanto Deus é, cada qualidade da Divindade — dignidade, autoridade, excelência, poder para criar e sustentar o mundo, energia para manter e guiar o Universo, amor que levou a redimir o ser humano, presciência a fim de suprir todas as coisas necessárias a cada uma de Suas criaturas — repousa em Cristo." (10)

Sobre Colossenses 1:19 afirma o mesmo comentário: "Em Cristo se encontra a perfeita expressão da Divindade de maneira completa e eterna."(11).

Na carta aos colossenses, Paulo está condenando a heresia gnóstica, que não aceitava a plenitude da divindade de Cristo, apresentando-O como um semi-deus, destituído de alguns atributos divinos.

Colossenses 1:19 e 2:9 contestam hoje, frontalmente, conclusões errôneas a que chegaram membros de nossa Igreja, por interpretarem mal declarações bíblicas e do Espírito de Profecia.

Esses dois versos seriam suficientes para provar que Cristo não perdeu o atributo da onipresença. Onipresença é propriedade inerente a Cristo, logo continuará existindo com Ele por toda a eternidade.

Não perdendo nenhum atributo em Sua humilhação, é evidente

que, terminada essa fase, pode perfeitamente usar todos os atributos que Lhe são peculiares.

A Cristologia nos ensina que Cristo é onipresente, mas pode ser que nem sempre faça uso desse atributo. Não usar alguma coisa, todavia, não significa a sua perda.


No Espírito de Profecia: Além das citações já feitas, as seguintes declarações do Espírito de Profecia quanto à onipresença de Cristo também merecem ser destacadas:

"O pequeno grupo reunido para adorar a Deus no Seu santo dia, tem direito a reclamar as bênçãos de Jeová e pode estar certo de que o Senhor Jesus será honroso visitante em suas reuniões.” (12)

"Não obstante a aparente vitória de Satanás, Cristo está levando avante Sua obra no Santuário celeste e na Terra.” (13)

"A divindade não foi degradada ou mutilada pela humanidade."

Essas declarações seriam suficientes para dirimir qualquer dúvida que ainda paire na mente de alguém.


Conclusão: Por mais que alguém pesquise tanto na Bíblia quanto no Espírito de Profecia, não encontrará nenhum texto que dê margem à conclusão de que Cristo perdeu Sua onipresença ao tomar sobre Si a humanidade.

Possuindo as duas naturezas, como humano não pode ser onipresente, mas como divino é Senhor de todos os atributos.

Demos graças a Deus por termos um Salvador perfeito, completo, banindo da mente a falsa idéia de um Cristo mutilado.



Referências:



1) O Desejado de Todas as Nações, pág. 644.

2) Ver O Desejado de Todas as Nações, pág. 753.

3) Revista Adventista, março de 1984, pág. 6.

4) Review and Herald. 5/7/ 887.

5) Signs of the Times. 30/6/1896.

6) Review and Herald. 15/6.1905.

7) Seventh-day Adventist Answer Questions on

Doctrine, pág. 45.

8) Revista Adventista, março de 1984, pág. 7.

9) Comentário do Evangelho Segundo S. João, pág. 15, J. C. Ryle.

10) Seventh-day Adventist Bible Commentary, VII, pág. 202.

11) Idem, pág. 193.

12) Testemunhos Seletos, vol. 3, pág. 27.

13) Obreiros Evangélicos, pág. 26.

14) Review and Herald. 18'2; 1890, citado em SDABC, vol. V, pág. 918.

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O conceito de LOGOS no período pré-evangélico

Ruben Aguilar

Ao descortinar a exposição literária sobre o ministério do Mestre, o apóstolo João inicia sua narrativa evangélica com a assertiva de que "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1:1). O vocábulo português Verbo é uma derivação do termo latino Verbum usado por Jerônimo na edição da Bíblia Latina, denominada Vulgata. Esse termo, por sua vez, é uma interpretação do original grego fogos, usado por João para se referir ao princípio fundamental de toda existência — Deus.

Muitos críticos do quarto evangelho procuraram minorar a sua originalidade e a revelação contida nesse texto, asseverando que o apóstolo João notadamente usou o termo Logos influenciado pelo conceito filosófico-religioso do primeiro século, denominado Gnosticismo. Esse movimento, posteriormente declarado herético, aceitava a dualidade entre o bem e o mal; entre o espiritual e o material num sentido de extrema separação. Deus, como Ser espiritual, não poderia ter criado o mundo material; e nessa seqüência de pensamentos os gnósticos rejeitavam a idéia da encarnação de Jesus.

É oportuno confirmar que, além da perseguição dos cristãos pela alienação dos césares romanos e a falsa piedade tradicionalista dos judeus, o maior obstáculo à disseminação do cristianismo genuíno, nos seus alvores, foi a falsidade do Gnosticismo.(1) Certamente João aspirava a que sua mensagem evangélica chegasse não somente a um reduzido grupo de judeus sequiosos de uma reforma espiritual, mas, sobretudo, a pessoas que emergiam da cultura helênica, e a uma variada gama de homens de diferentes etnias que usavam o grego como meio de comunicação, (2) e em cujas mentes vagava uma tênue interpretação de Logos, ao menos, do seu significado.

Destarte, João estava longe de ser influenciado pelo traumatismo intelectual cognominado Gnosticismo. Sua atitude era atingir a mente da vasta sociedade helenista do seu tempo, induzindo a desconhecida realidade de Jesus usando o amplamente conhecido conceito de Logos, da mesma maneira como Paulo introduziu a essência do Deus criador para atenienses através do conceito do "deus desconhecido" (Atos 17:18-34).

O vocábulo Logos é traduzido na linguagem bíblica em diversas acepções, mas o sentido joanino do termo em João 1:1 é a "Palavra de Deus encarnada". Isto é admissível através da análise dos diversos contextos do próprio evangelho, e duma maneira geral do conceito de Logos no pensamento grego, judaico e oriental.

Logos no Pensamento Grego

Originalmente, o termo Logos tem o significado de "Palavra" ou expressão fonética que dá significação aos conceitos ou coisas. O surgimento do pensamento filosófico outorga a esse vocábulo um sentido mais profundo e fundamental relacionado com a origem das coisas.

No século VI AC, Heráclito, nascido na populosa cidade de Éfeso, ensinava que todas as coisas mudam e por esse fato a existência é breve e transitória. O principio de todas as coisas é então o "devir", a mudança, que Heráclito identificou com o termo Logos. Mais ainda, Heráclito tornou explícito que Logos é uma "energia criadora"; que a "sabedoria" dos homens deriva dela; Logos é "sempre existente"; e que todas as coisas acontecem sob seu domínio. (3) O cosmos para Heráclito está regido por uma lei intemporal, o Logos, que representa tudo o que é "geral e absoluto" no Universo, "imortal e indestrutível". (4)

Na segunda metade do século V AC, surge em Atenas um dos maiores pensadores da cultura helênica, Sócrates, a quem Platão sempre chamou de Mestre. Sócrates se preocupava em descobrir o "ser" ou a "razão da existência" das coisas. Sócrates perguntava-se "qual a razão da existência da justiça"; "qual a razão ou o ser da valentia", e assim de todas as virtudes morais. Sócrates designa essa "razão de existência" com o vocábulo Logos, que no sentido técnico filosófico aponta à fonte originadora de toda virtude, pois para ele o interesse fundamental é a Moral. (5)

Posteriormente, Platão amplia o uso de Logos procurando aplicá-lo num sentido vasto e geral, ou seja, descobrir qual a "razão da existência ou o ser" de todas as coisas do Universo. Platão une ao mesmo tempo a idéia de Logos com a idéia do "ser" único e eterno. (6)

No início do século III AC, aparece Zenon de Citium ensinando filosofia no pórtico (stóa) de Atenas, pelo que os seus seguidores são chamados de Estóicos. Para o Estoicismo, o Universo é matéria animada por uma "força" imanente que origina, sustenta e dirige tudo. Essa "força" suprema é o Logos. (7)

Os estóicos falam também da identidade da razão humana com a razão do mundo, que seria o principio imanente ou a "divina razão", identificado como sendo o Logos espermátikos,(8) e que também determina o modo de ser das coisas.

No Pensamento Judaico

Simultaneamente com o raiar da Era Cristã, veio à luz o pensamento filosófico de Philo Judeus. Nascido em Alexandria, como fruto de uma miscigenação greco-judaica, Philo tenta conciliar o clamor da verdade

judaica com os conceitos gregos, sem esconder sua profunda inclinação pêlos preceitos e normas de Moisés. Na obra Sobre a Criação do Mundo e Interpretação Alegórica do Gênesis, Philo expõe sua crença em Deus como um ser que contém toda perfeição e que preserva todas as coisas, além de ser ininteligível por parte do homem. Philo acredita que Deus Se tornou parcialmente inteligível ao homem por via do Logos, que também é designado como sendo o "Primogênito de Deus", o mais elevado "arcanjo", e o "sumo sacerdote". Philo afirma também que esse Logos é a "Palavra" criadora de Deus, pela qual todas as coisas foram formadas. (9)

Philo usou o termo Logos refletindo o pensamento circunstancial de sua época, mas certamente era uma interpretação do pensamento judaico sobre a "Palavra", que na língua hebraica é Dâbâr. L. Durr (1938) demonstrou que o conceito de Logos, ou a "Palavra", não é originário da cultura helênica, mas sim de uma expressão cultural anterior, sustentando esta tese com textos sumerianos e cananitas, onde a "voz divina" é representada pelo poderoso som do trovão. (10) Mais tarde, a literatura israelita não-canônica faz referências à "Palavra" de Deus em expressões virtualmente hipostáticas como o texto em Dêutero-Isaías 40:8: "Mas a Palavra do nosso Deus existirá por sempre"; e em Sabedoria de Salomão 18:15: "A Tua Todo-poderosa Palavra derrama dos céus... destruição."

Lingüisticamente o vocábulo Dâbâr é o equivalente hebraico do termo grego Logos. Mas o significado de Dâbâr é tanto a "Palavra" como também "acontecimento". Assim, Josué fala todas as palavras (Dâbâr) que Deus tem pronunciado (Jos. 23:14 e15). Mas o sacrifício de Isaque é introduzido com a frase "Depois desses acontecimentos..." (Debárim, plural de Dâbâr em Gên. 22:1). No Antigo Testamento as palavras pronunciadas por uma pessoa não se distinguem da própria pessoa que as pronuncia. As palavras são a manifestação do seu próprio eu, de tal maneira que um ser está presente nas palavras que expressa. A Bíblia usa o termo Dâbâr em relação a Deus numa referência a Sua própria manifestação, ou seja, a Sua encarnação." Esse conceito sobre a "Palavra" de Deus outorga-Lhe força, poder e veracidade nos Escritos Sagrados.

No Pensamento Oriental

Apesar da barreira da distância, o pensamento oriental, principalmente da Índia, sempre teve no passado feixes de contato com o pensamento palestiniano e ocidental. Uma evidência desses relacionamentos são os documentos encontrados em 1907 nas ruínas da capital do lendário Império Hitita, que hoje recebe o nome de Boghazkoy, no norte da Palestina, na região conhecida no passado como Anatólia. Esses documentos revelam, entre outros assuntos, a influência da religião da Índia sobre os impérios do Oriente Próximo, o que levou alguns historiadores a tecer referências tais como: os deuses Indo-Iranianos de Mitani (antigo império ao norte da Palestina).

Através dessas evidências e outras tantas é possível asseverar que o trânsito frequente de mercadores, guerreiros, etc., entre essas distanciadas regiões, permitiu a translocação de ideias filosóficas e religiosas. Não é de duvidar que, na época do apóstolo João, estivessem presentes entre seus ouvintes muitos indivíduos provenientes da longínqua Índia. O que interessa para o presente artigo, todavia, é que nos escritos sagrados da Índia existem referências de uma divindade identificada como Vac ou "Palavra". Vac é um termo análogo ao grego Logos e ao hebraico Dobar, e possivelmente aninhado na mente de alguns dos ouvintes de João.

O historiador francês George Dumézil analisa entre os escritos sagrados da Índia, denominados Vedas, o hino classificado com a referência Rg Veda 10, 125, onde se menciona a divindade Vac. Esse ente sagrado é, na realidade, a "Palavra" divinizada e o fundamento do Universo. (11) O hino referido descreve a "Palavra" como uma deusa cujos poderes podem ser descritos brevemente sobre quatro pontos: l. Seu domínio sobre os outros deuses; 2. Sua natureza espiritual resumida em três qualidades — soberania universal, propriedade de todos os bens e inteligência suprema; 3. Sua paternidade por satisfazer as três principais necessidades humanas; 4. Seu papel cósmico. (13).

Outro hino sagrado onde se faz referência a Vac é o classificado com o registro RS: 7.86.1 onde a "Palavra" afirma ter gerado o Pai, como a cabeça deste mundo. (14). E a estrofe RS: 1.164.45 declara que a "Palavra" é um Ser Sagrado dividido em quatro partes, das quais três são segredos divinos e unicamente a quarta é revelada ao homem. (15).

Das referências anteriores, infere-se que o ambiente filosófico religioso do período pré-evangélico estava carregado com a ideia de Logos, ou seu equivalente em outras línguas. Esse termo em diversas expressões apontava um ser de características divinas, embora sua identificação ficasse por conta unicamente da imperfeita percepção da mente humana. Por extremado que fosse o esforço humano, não alcançaria a compreensão plena dos atributos divinos do Logos. Era necessária uma revelação que emanasse do verdadeiro Deus e tornasse límpida e fulgente Sua conceituação. A revelação desta verdade veio através de João, que transmite em expressões simples, desprovidas de metáforas, que o Logos é Deus criador, encarnado na pessoa de Jesus, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus.

Referências:

1. O SDABC, vol. 5, págs. 893 e 894 aponta essas três tendências como sendo as mais perigosas contra o cristianismo do primeiro século.

2. Montgomery, James Boice, The Gospel of John, An Exposilional Commentary, vol. l, pág. 36; e também Morris, Leon, Commentary on the Gospel of John, pág. 116.

3. Adam, James, The Religious Teachers of Greece, Edimburgh 1909, pág. 217.

4. Thomson, George, The First Philosophers, vol. 2, Laurence and Wishort Ltd. England 1974, pág. 134.

5. Garcia Morente, Manuel. Lecciones Preliminares de Filosofia, Edil. Diana S. A. México, págs. 88 e 89.

6. Ibidem, pág. 89.

7. Avey, Albert E. Handhook in lhe Historv of Philosophy, 2nd. Ed. Barnes & Noble Inc. N. Y., pág. 41.

8. Tredici, Jacinto. Breve Corso di Storia della Filosofia, Edizioni Cardinal Ferrari, Roma, pág. 61.

9. Avey. Op. Cif., págs. 48 e 49.

10. Citado por AIbright, William F., From the Stone Age to Christianity, The John Hpking Press, pág. 371

11. Pidoux, Georges. El Hombre en el Antiguo Testamento, Ediciones Carlos Lohlé, Bs. As., págs. 55 e 56.

12. Dumézil, Georges. Les Dieux Souverains dês Indo-Européens, Edilions Gailimard, Paris, pág. 27.

13. Ibidem, págs. 29 a 32.

14. Varenne, Jean. Mythes et Legendes Extraits dês Brahmana, pág. 63.

15. Ibidem. pág. 38.

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Passagens Subordinativas e a divindade de Jesus - I

José Carlos Ramos

A subordinação de Jesus a Deus, verificada em Sua vida na Terra, não conspirou contra a Sua divindade.

Denominam-se passagens subordinativas aquelas que explicitamente afirmam a sujeição de Jesus ao Pai. Estão en­tre as mais citadas: Mat. 26:39 e 42; João 4:34; 5:19 e 30; 14:28; 1 Cor. 11:3; 15:27 e 28; Filip. 2:7 e 8; Heb. 5:8.

A doutrina do subordinatismo, surgida no segundo século e esposada por alguns Pais da Igreja, en­tre os quais Justino Mártir, Orígenes e Irineu, foi, em realidade, uma tentativa racional de explicar o relacionamento entre as pessoas da Trindade. Mas a integridade divina do Filho e do Espírito Santo acabou seriamente comprometida. No quarto século, o arianismo, rejeitando a plena divindade do Verbo, atribuiu-Lhe uma natureza subordinada, isto é, inferior à do Pai. Em nossos dias, grupos religiosos que negam a existência da Trindade, como as Testemunhas de Jeová, se valem das passagens subordinativas para sustentar um ponto de vista semelhante.

Como Adventistas do Sétimo Dia, afirmamos “que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus, sendo da mesma natureza e essência que o eterno Pai”. (1) Neste estudo tenta­remos demonstrar que a subordinação de Jesus, conforme exposta nas Escrituras, não depõe contra nossa posição cristológica.


“Humilhou-Se a Si mesmo”



Comecemos por aquelas passagens que claramente fazem referência ao ministério terrestre de Jesus e que, portanto, devem ser consideradas na perspectiva da humilhação a que Se submeteu ao Se encarnar.

Jesus veio ao mundo para cumprir a missão que o Céu Lhe con­fiou. Em João 4:34 esta missão é chamada “a vontade dAquele que Me enviou” e “a Sua obra”. Ela es­tava vinculada à redenção humana, para cuja efetuação foi requerida a total submissão do Filho ao propósito divino. Hebreus 5:8 afirma que, através da obediência, Je­sus foi “aperfeiçoado”, isto é, atingiu a maturidade física e espiritual indispensável para oferecer um sacrifício idôneo, todo suficiente para torná-Lo “o Autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem” (verso 9). Natural­mente esta maturação tinha que ver com Sua natureza humana, posto que Sua divindade sempre foi perfeita em todos os aspectos.

Sua humanidade, todavia, carecia de desenvolvimento. Embora Ele possuísse perfeição relativa a cada fase da vida, (2) não deveria enfrentar a morte senão no mo­mento certo, ideal, estabelecido pelo Pai em Sua sabedoria. Jesus Se capacitou para esse momento mediante inteira confiança nas providências de Deus e estrita obediência às Suas orientações.

Assim, se Jesus viesse a morrer antes do tempo determinado, Sua missão resultaria inacabada e se­ria de se duvidar que houvéssemos sido salvos. Chances de morrer antes da hora Ele teve e muitas. Mas de tal forma consagrou-Se ao cumprimento de Sua missão, e de tal forma colocou-Se nas mãos do Pai, que a morte não pôde atingi-Lo se­não no momento próprio (ver João 7:30 e 44; 8:20). No empenho de obstar a Jesus na jornada rumo à cruz, o inimigo empregou todos os meios possíveis para, ou levá-Lo ao pecado, ou criar situações através das quais pudesse eliminá-Lo. Em ambos os casos, ter-Lhe-ia si­do fácil utilizar a própria divindade para Se livrar. Mas isto não era o que devia fazer. Plena submissão ao plano de Deus e total dependência dEle eram-Lhe requeridas em quaisquer circunstâncias.

Devemos também notar que Je­sus não encarou situações de ris­co com indiferença, como se pouco Lhe importasse viver ou morrer. Tampouco foi sensível a elas por mero amor à vida. Sabia que, para ser o Redentor, teria que morrer um dia. Mas sabia também que, segundo a vontade de Deus, tinha que viver até esse dia. Sua vontade de tal forma se identificou com a vontade divina que, nas ve­zes em que Se viu ameaçado, insistiu com o Pai, e isto “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas” (Heb. 5:7), para que fosse preservado, e assim prosseguisse até o fim, até o momento culminante de Seu ministério. Quando esse momento chegou, muito ao contrário de orar ao Pai por livramento, disse: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-Me desta hora? Mas foi precisa­mente para esta hora que Eu vim.” (João 12:27, Bíblia de Jerusalém.) Ao entrar no Getsêmani, Sua al­ma se angustiou extremamente, tendo em vista a natureza da mor­te que O aguardava. Daí Sua tríplice oração: “Se possível, passe de Mim este cálice!” Mas ainda a von­tade de Deus Lhe era soberana: “Todavia, não seja como Eu que­ro, e, sim, como Tu queres.” (Mat. 26:39.) Sua plena submissão ao propósito divino conduziu-O final­mente ao Calvário.

A cruz, portanto, é, neste contexto, o grande clímax de uma atitude de obediência da parte do Filho, que se iniciou no momento da en­carnação (“eis aqui estou para fazer, ó Deus, a Tua vontade”, Heb. 10:9), e se desenvolveu num crescendo de intensidade até o mo­mento em que nossa redenção foi assegurada “está consumado!” (João 19:30), o que equivale a “completei a obra que o Pai Me deu”. Paulo alude a este fato quando afirma que Ele “a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filip. 2:8).

É evidente, pois, que a vontade de Deus envolveu todo o ser de Je­sus e determinou-Lhe o inteiro curso da vida. Cada atitude de Je­sus foi regida pela vontade do Pai. “Não elaborava planos para Si mesmo. Aceitava o que Deus fazia a Seu respeito e o Pai os desdobrava dia a dia.” (3) João 5:19 e 30 deve ser entendido à luz desse fato: “Em verdade, em verdade vos di­go que o Filho nada pode fazer de Si mesmo, senão somente aquilo que vir fazer o Pai ... Eu nada posso fazer de Mim mesmo; na forma por que ouço, julgo ... Não procuro a Minha própria vontade, e, sim, a dAquele que Me enviou.”

Em primeira instância, essas pa­lavras soam como uma adequada reprimenda aos judeus incrédulos que procuravam matá-Lo por julgarem-nO transgressor do sábado (verso 18). “Não Me censurem. Estou fazendo apenas aquilo que vejo Meu Pai fazer.” Mas elas indicam também Sua perfeita adesão à vontade de Deus em todo o transcurso da vida. Ele “cuidava dos negócios de Seu Pai quando mourejava na banca de carpinteiro tanto quando operava milagres em favor da multidão”. (4) E verdade também que todos os atos que praticou visaram à salvação do homem. Tornar-Se o Salvador foi Sua grande motivação, uma motivação coincidente com a vontade de Deus (João 6:39 e 40).


Relacionamento funcional



A pergunta que se nos impõe neste ponto é: A subordinação de Jesus a Deus, verificada em Sua vi­da terrestre, conspirou de alguma forma contra Sua divindade? Absolutamente.

Essa subordinação não se verificou num plano de relacionamento essencial, e sim funcional. Não era um Deus menor prestando obediência a um Deus maior. Isto seria politeísmo e não o que a Bíblia ensina. Vemos um Ser, em tu­do igual a Deus, (5) que Se encarnou e passou a conviver com uma natureza humana passiva de um desenvolvimento necessário e possível de ser logrado apenas no caso de plena submissão a Deus. Foi pa­ra cumprir a função de nosso Substituto e Exemplo, e assim tornar-Se o nosso Salvador, que Cristo viveu como viveu e morreu como morreu, sempre em submissão ao plano divino.

Que Sua subordinação não Lhe furtou um jota ou um til sequer de Sua igualdade com Deus, infere-se do fato de que as Escrituras atribuem a Ele essa igualdade ao tem­po em que testificam de Sua subordinação. Basta que observemos o contexto das passagens aqui consideradas.

Hebreus 5:8, por exemplo, per­tence a uma epístola que já em sua abertura afirma a divindade de Je­sus: Ele é a expressa imagem do Pai, o Agente da Criação, o Sustenedor do Universo, e o Revelador de Deus (1:2 e 3). O próprio Pai re­conhece Sua divindade chamando­ O Deus e ordenando aos anjos adorá-Lo (versos 6 e 8).

Filipenses 2:8 contém uma das declarações cristológicas mais significativas de Paulo. O contexto imediato (versos 5-11) merece uma análise cuidadosa que ficará para uma oportunidade posterior. Por ora, basta-nos observar que no verso 5 Jesus é referido como nosso modelo, o que estabelece o caráter funcional de Sua submissão no verso 8. A seguir, o verso 6 alude à igualdade de Jesus com Deus. Do que Ele Se esvaziou ao encarnar (verso 7) tem sido matéria de discussão teológica. Seja do que for, Seu esvaziamento não deve significar uma diminuição em Sua realidade divina. O mais provável é que o apóstolo esteja se referindo à posição de exaltação e glória que Jesus desfrutava junto ao Pai. (Cf. João 17:5.)



Quanto a João 5:19, é desnecessário dizer que os escritos joaninos são os que mais expressam a divindade de Jesus. O contexto imediato desta passagem, porém, não pode ser passado por alto. No verso 17 Jesus afirma: “Meu Pai trabalha até agora e Eu trabalho também.” Deus é Seu Pai não por­que Ele é Pai de todos e portanto Seu também. O que Jesus pretende aqui é a igualdade com o Pai, o que os judeus percebem muito bem (verso 18). Uma vez estabelecido este ponto, Jesus faz, no verso 19, três declarações muito significativas:

1º) “O Filho nada pode fazer de Si mesmo.” Isto, como se viu, in­dica Sua dependência do Pai e plena subordinação a Ele. Observe que Ele afirma não poder agir in­dependentemente, não porque não tenha capacidade para tal, mas porque não Lhe é próprio fazê-lo. Sua missão é revelar o Pai e não ser um rival dEle. E revelação re­quer subordinação.

2º) “Senão somente aquilo que vir fazer o Pai.” Esta afirmação de­ve ser observada em consonância com o que é dito no verso 20: “Por­que o Pai ama o Filho e Lhe mos­tra tudo o que faz.” No grego o verbo mostrar está no presente contínuo — o Pai nunca cessa de mostrar Sua obra ao Filho. Não se tra­ta de uma simples exibição ao Fi­lho daquilo que o Pai faz. Ver aqui transcende a mera visão ocular. O fazer de Jesus não é simples imitação do fazer do Pai, pois os ver­sos 22 e 27 declaram que não é o Pai que julga e sim o Filho. Ora, se o Filho faz somente aquilo que Ele vê o Pai fazer, temos que convir que Ele julga não porque meramente viu o Pai julgando alguém (isto é declarado que o Pai não faz), mas porque Ele sonda o íntimo do Pai, vê nEle a realidade fundamental do julgamento, e está apto pa­ra cumprir Seu propósito vincula­do ao juízo. Só Alguém igual ao Pai poderia atribuir para Si prerrogativa tal. Com efeito, “ninguém conhece o Pai senão o Filho.” (Mat. 11:27.)


Relacionamento essencial



3º) “Tudo que Este fizer o Filho também semelhantemente o faz.” Mais uma vez a unidade essencial de ambos é declarada. A cláusula de subordinação (relacionamento funcional) deve ser entendida à luz da cláusula de igualdade (relacionamento essencial). Qualquer coisa que difere de Deus é inferior a Deus, pois Deus é absoluto e único. É justamente porque Jesus é igual a Deus que Ele nada pode fazer de Si mesmo, e faz somente o que Ele vê o Pai fazer. Ele não po­deria dizer: “Faço coisas por Mim mesmo ou diferentes das do Pai”, e ainda evocar igualdade com o Pai. A conclusão lógica é que Sua subordinação não é apenas com­patível com Sua igualdade com Deus. Ela a pressupõe. (6)

Teoricamente parece existir, nos termos dessa unidade essencial, uma subordinação recíproca entre o Pai e o Filho. O mesmo Jesus que no Getsêmani orara “faça-se a Tua vontade”, pouco depois reagiu ao gesto impetuoso de Pedro de for­ma a substanciar esta hipótese: “Embainha a tua espada ... Acaso pensas que não posso rogar a Meu Pai, e Ele me mandaria neste mo­mento mais de doze legiões de anjos?” (Mat. 26:53.) O Pai estava pronto para atender o Filho e livrá-Lo da cruz. Bastava que Ele o quisesse. (7)


“O Pai é Maior do Que Eu”



As palavras de João 14:28, “o Pai é maior do que Eu”, também não negam a igualdade de Jesus com o Pai. O termo grego meizon— maior — não tem um sentido qualitativo, como querem os que rejeitam a divindade plena de Jesus, mas quantitativo. Caso a idéia ex­pressa fosse “natureza divina inferior”, Kreítton, que expressa melhor o sentido qualitativo, seria um termo mais apropriado, como em Hebreus 1:4, onde é dito que Jesus é superior aos anjos. A passagem, portanto, deve ser entendi­da à luz da encarnação, e uma vez mais o relacionamento funcional, e não o essencial, é subentendido. “Esta é uma descrição de Sua posição como um servo e não uma comparação de natureza ou qualidade”, (8) como quando Jesus declarou: “Eu e o Pai somos um” (10:30).

João 14:28 deve também ser en­tendido à luz de seu contexto imediato. A ascensão de Jesus ao Pai seria um benefício para os discípulos, pois o Espírito Santo haveria de ser enviado (16:7). Jesus à direita do Pai significa a outorgação de maior poder para a Igreja. A es­te respeito Hoskyns afirma: “No quarto evangelho a expressão maior que significa de poder e autoridade maior que (4:21; 8:53; 10:29; 13:16; cf. 1 João 3:20), e este sentido deve ser relevante aqui. A humilhação do Filho envolveu, de alguma forma real, uma separação do Pai. Sua glorificação e re­torno ao Pai restaura-Lhe uma posição através da qual pode comunicar aos discípulos maior po­der.” (9) Por isso Jesus declarou: “Em verdade, em verdade vos di­go que aquele que crê em Mim, fará também as obras que Eu faço, e outras maiores fará, porque Eu vou para junto do Pai” (14:12). Todavia, não são obras qualitativa-mente maiores, pois neste caso os discípulos seriam superiores ao Mestre. Mas Jesus declarou mo­mentos antes de Sua ascensão: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as na­ções.. .“ (Mat. 28:18.) De fato, a Igreja deve realizar uma obra quantitativamente maior, isto é, mais vasta, mais ampla, que aquela realizada por Jesus. Não a fará, porém, em sua própria força, mas através do poder que a ela é assegurado no fato de que Jesus está entronizado à direita do Pai.

Assim o verdadeiro subordinatismo, aquele esposado pelas Es­crituras e que se deduz da manei­ra como Jesus conduziu Sua vida neste mundo, é perfeitamente coe­rente com Sua realidade divina. Mas o que dizer de 1 Cor. 11:3 e 15:27 e 28, que fazem referência ao Cristo glorificado, restaurado à exaltada posição que sempre ocupou ao lado de Deus, e que mesmo nestas circunstâncias continua subordinado ao Pai? O que real­mente estas passagens significam? Aguardemos o próximo número.



Referências:



1. Manual da Igreja, 1974, pág. 32.

2. E. G. White, Parábolas de Jesus, pág. 83.

3. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 3º edição, pág. 149

4. E. G. White, The Upward Look (Washington DC: Review and Herald Publishing Association, 1982), pág. 67.

5. Respeitando-se a identificação pessoal Pai e do Filho.

6. A nosso ver, Ellen White toca nesse ponto quando afirma: “Embora Cristo Se tenha humilhado a Si mesmo para Se tornar homem, Divindade ainda lhe pertencia. Sua natureza divina não podia ser perdida enquanto Ele permanecesse fiel e verdadeiro a Sua lealdade.” (Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 5, pág. 1129. Grifos Supridos.)

7. Ver E. G. White , Primeiros Escritos , pág. 170.

8. E. C. Gruss, Apostles of Daniel (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970), pág. 113.

9. E. C. Hoskyns, The Fourth Gospel (London: Faber and Faber, 1947), pág. 464.




Fonte: Revista Adventista: Maio de 1991, pág. 13-16

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Passagens Subordinativas e a divindade de Jesus - II

José Carlos Ramos

Mais duas passagens subordinativas devem ser consideradas: I Cor. 11:3 e 15:27 e 28. Em contraste com as anteriores, dizem respeito ao Cristo glorificado e exaltado à direita do Pai, mas a exemplo daquelas, falam de Sua subordinação sem Lhe furtar a dignidade divina.
I Cor. 11:3 “Deus, o Cabeça de Cristo”

“Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem o cabeça da mulher, e Deus o cabeça de Cristo.” Com estas palavras o apóstolo Paulo introduz algumas recomendações (versos 4-16) quanto ao comportamento do homem e da mulher, particularmente condizentes com o contexto social e religioso local e do tempo do após­tolo, mas aplicáveis, em seus princípios, a qualquer época e lugar. O tema é palpitante e digno de um estudo à parte.

Em 1 Cor. 11:30 apóstolo afirma três coisas: (1) o homem é o cabeça da mulher; (2) Cristo é o cabeça de todo homem; (3) Deus é o cabeça de Cristo. Alteramos a ordem das afirmações para enfatizar que uma gradação de autoridade pode ser aqui observada. Deus é a autoridade maior e Cristo ocupa posição de mediação. Sua subordinação a Deus e Seu senhorio sobre o homem emprestam significado à subordinação e senhorio no âmbito terrestre. Há aqui qualquer indicação de uma divindade inferior da parte do Filho? Atente­mos antes para as outras duas afirmações.

Quando é dito que Cristo é o cabeça do homem, não significa que Ele não é o cabeça da mulher também. Este é um fato importante para o assunto da igualdade dos sexos perante Deus. Outros textos se referem a Cristo como “cabeça da Igreja” (Efés. 5:23; Col. 1:18) e esta é composta de homens e mulheres. A luz do evangelho toda qualquer discriminação perde sua razão de ser. “Não pode haver... nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. (Gál. 3:28.)

O homem é o cabeça da mulher no que tange a esta vida com suas implicações sociais, as quais encontram na vida conjugal sua maior ex­pressão. Daí a recomendação apostólica de que a esposa seja submissa ao marido “como ao Senhor” (Efés. 5:22-24; Col. 3:18. Cf. Tito 2:5). Ë também urna questão de prioridade existencial já que o homem foi criado antes da mulher, dele ela procede e ela veio a existir por causa dele (I Cor. 11:8 e 9). Mas nada disso envolve qualquer sentido de inferioridade feminina. A mulher é apenas lembrada do dever de cumprir o papel provido por Deus para ela. Como diz Champlin: “A mulher não é espiritualmente inferior ao homem, mas está subordinada a ele nesta esfera terrestre, especificamente a seu próprio marido.” (1)

No mesmo contexto em que a prioridade do homem é declarada, lemos: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus” (ver­sos 11 e 12). Portanto, uma dependência mútua entre os dois é estabelecida. Ambos possuem direi­tos e deveres que serão reciprocamente respeitados e cumpridos caso a consciência da igualdade comum seja mantida. E neste dar e receber ambos se completam e realizam.

Seria diferente o sentido de sub­missão na esfera celestial, divina? Absolutamente. Paulo, com efeito, alude a três ordens de submissão entre iguais: (1) da esposa ao ma­rido, ambos possuidores de todas as prerrogativas humanas; (2) da Igreja a Cristo, o qual para Se tornar o Seu cabeça, identificou-Se com ela, adotando a natureza humana ao ponto de Se tornar igual a nós em tudo, exceto no pecado (Heb. 2:14 e 17, ver também Efés. 5:30-32); e (3) de Cristo a Deus, considerando que Ele, embora tenha adotado para sempre a natureza humana, continua sendo “Deus essencialmente, e no mais alto sentido”. (2)

Ê evidente, portanto, que em 1Coríntios 11:3 temos mais um exemplo de submissão em termos de um relacionamento não essencial, mas funcional. Igualdade de natureza não significa necessariamente igualdade de posição. Tam­pouco diferença de posição significa necessariamente diferença de natureza ou essência. “Existe aquela força suprema, Deus Pai, o qual opera por intermédio do Filho de Deus, o qual, por Sua vez, opera por meio do Espírito Santo... Quanto à posição e à tarefa, certas distinções devem ser feitas... Mas isto é um arranjo divino, que não se alicerça sobre qualquer inferioridade de seres, mas antes, numa lógica divina de posição”.(3) Dizer -que Cristo é um Deus inferior por ter o Pai por cabeça é tão irrazoável quanto dizer que a mulher é um ser humano inferior por ter o homem por cabeça. A dedução nos parece lógica e irretorquível.



I Cor. 15:27 e 28
“O Próprio Filho também Se Sujeitará”



“Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos Seus pés. E quando diz que todas as coisas Lhe estão sujeitas, certamente exclui Aquele que tudo Lhe subordinou. Quando, porém, todas as coisas Lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também Se sujeitará Aquele que todas as coisas Lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.”

À luz das conclusões precedentes, não há por que supor que nessa passagem Paulo atribui a Jesus uma natureza divina inferior. Somente uma interpretação “força­da”, estribada nalgum conceito antitrinitário, poderia conduzir a tal hipótese. Sua subordinação a Deus não Lhe denegriu a divindade plena, quer enquanto neste mundo quer de volta ao Céu após a ressurreição. Por que o faria na consumação dos séculos?

A passagem situa-se no grande capítulo da ressurreição (1 Cor. 15) e é por demais significativa para ser passada por alto. Deve ser considerada em seu contexto escatológico com ênfase na consumação final quando o plano da redenção alcançará total cumprimento. Ë, pois, de importância singular pa­ra o presente estudo. Ela envolve as implicações da sujeição de Jesus na erradicação definitiva do pecado.

Primeiramente observemos o que o apóstolo está dizendo:

“Todas as coisas sujeitou debaixo dos Seus pés”. Esta é uma claríssima referência ao Salmo 8 onde é afirmado que no princípio Deus sujeitou todas as coisas a Adão (verso 6). Paulo interpreta o salmo messianicamente e aplica-o a Jesus (cf. Heb. 2:5-8). (4) O sentido é que a partir da ressurreição cada coisa deve ser subordinada a Jesus. Ele é o segundo Adão.

“... exclui Aquele que tudo Lhe subordinou”. Dois fatos são aqui declarados: (1) E o Pai quem subordina todas as coisas ao Filho. Mas isto não significa que o Filho não possui o mesmo poder que o Pai. Muito ao contrário, confirma aquilo a que já nos referimos — que Jesus participa da mesma essência divina do Pai. Paulo jamais nega que o Filho possui idêntico poder de subjugar todas as coisas (ver Filip. 3:21). Na realidade o Pai aqui sujeita todas as coisas ao Filho rio próprio ato de o Filho sujeitar to­das as coisas a Si mesmo (versos 24 e 25). Não podemos esquecer que Jesus, no cumprimento do propósito divino, realiza não apenas as mesmas obras do Pai (João 5:17, 19-21; 14:11), mas as próprias obras do Pai (7:16; 8:16; 9:4; 14:10). Em outras palavras, o Pai age na própria ação do Filho.

(2) Tudo deve ser subordinado a Jesus, exceto Deus, pois o processo que culmina com a subordinação de todas as coisas ao Filho objetiva que finalmente todas as coisas voltem a estar sob o domínio de Deus (verso 18 última parte). Pela mesma razão ocorre a subordinação do Filho, declarada em seguida.

“O próprio Filho também Se sujeitará.. .“ Uma criação que se rebelou contra Deus deve ser restaurada ao domínio de Deus. Isto é feito através do plano da redenção cujo cumprimento foi confiado ao Filho (João 3:35; 13:3). O desempenho de Jesus é tal que todas as coisas acabam subordinadas a Ele, e, através dEle, ao Pai. Assim o plano da redenção em seu propósito último depende da sujeição de Jesus. Faltando esta, o plano ficará frustrado.

A sujeição de Jesus é referida nos versos 24 e 25 nestes termos:

“E então virá o fim, quando Ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo o principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos Seus pés”. O paralelo com o verso 28 é evidente. “... destruído todo principado, bem como toda potestade e poder” e “... haja posto todos os inimigos debaixo dos Seus pés” se equivalem, e correspondem a “quando, porém, todas as coisas Lhe estiverem sujeitas”. Por sua vez, ... quando Ele entregar o reino ao Deus e Pai” corresponde a “... o próprio Filho Se sujeitará Aquele que todas as coisas Lhe sujeitou”. O tempo para Jesus entregar o rei­no, ou sujeitar-Se, é referido como “o fim”. Este é o fim absoluto, “o fim final” que segundo o verso 26 irrompe com a destruição da mor­te, o último inimigo. Aponta, por­tanto, não para a segunda vinda, mas para o fim do milênio quando “a morte e o inferno” serão “lançados no lago de fogo” (Apoc. 20:14). Em outras palavras, com o aniquilamento de Satanás, o último rebelde, a própria morte será aniquilada. “O fogo que consome os ímpios, purifica a Terra. Todo vestígio de maldição é removi­do” (5), e o planeta ressurge em sua perfeição edênica. Com este derradeiro ato de Cristo no trato com a rebelião, é colocado o ponto final no plano da redenção. Então, ao Ele Se sujeitar a Deus, propicia-se que os efeitos da execução deste plano sejam desfrutados para sempre. Isto equivale a dizer que o pecado jamais se levantará outra vez.

Não devemos supor que Paulo afirme nos versos 24 e 25 que Cris­to reinará apenas até que o último inimigo seja vencido, e que, uma vez alcançado esse último triunfo, entregará a Deus o reino para deixar de ser Rei. Os ofícios messiânicos de Jesus são eternos, tanto quanto a Sua pessoa. Para sempre Ele é Profeta, isto é, o meio da revelação divina; Sacerdote, isto é, o Medianeiro entre Deus e a criação; e Rei, isto é, o Primogênito de to­da a criação, o Cabeça do Universo. O apóstolo está simplesmente dizendo que Cristo reina desde Sua ressurreição, quando toda a autoridade Lhe foi conferida no Céu e na Terra (Mat. 28:18. Cf. Filip. 2:9-11). É exatamente no desempenho de Suas atribuições reais que Ele subjuga os inimigos. Mas toda esta obra de—subjugação é feita mediante a ação de Deus, para quem convergem os resulta­dos E ainda na qualidade de Rei que Ele Se sujeita a Deus, tal co­mo Davi, tipo do Rei messiânico, o fez no passado. (6) Acabará não o reinado de Cristo, pois este é eterno (Luc. 1:33; II Pedro 1:11; Apoc. 11:15), mas a dimensão de Seu rei­nado vinculada com o procedi­mento com o pecado.

“Para que Deus seja tudo em todos”. Aquilo que procedeu de Deus volta para Deus. “Esse é o grande desígnio e o propósito da sujeição de todas as coisas a Cristo. Aquele que é a fonte de toda a vida, torna-Se igualmente para todos o alvo e a perfeita concretização da existência inteira, de todos os seres”. (7) Para este ponto converge o todo da missão de Jesus. Ele “não descansará até que a supremacia do Pai seja universalmente reconhecida, e nada esteja além do sa­lutar controle de Deus”. (8)



Cristo, o segundo Adão



Concluindo este estudo, medite­mos um pouco na sujeição de Jesus como garantia de que o mal, além de ser erradicado, jamais se levantará outra vez. Este aspecto envolve a função de Cristo como Cabeça representativa da humanidade a exemplo de Adão ao ser criado. Devemos também considerar como o pecado entrou neste mundo.

Paulo se refere a Cristo como segundo ou último Adão no próprio contexto de I Coríntios 15:27 e 28. Um contraste em termos de mor­te e vida é feito entre Adão e Cris­to no verso 22. Nos versos 45-48 eles são novamente referidos agora num contraste entre realidades terrenas e celestiais. No verso 45 Cristo é explicitamente chamado “o último Adão”. Além disso, em Rom. 5:12-19 o apóstolo mais uma vez contrasta os dois, desta vez abordando a problemática do pecado e sua divina solução. Estes textos têm sido utilizados na sustentação da doutrina do pecado original que não nos cumpre aqui discutir. Basta-nos apenas lembrar que a presença do pecado neste mundo deriva de um ato de desobediência da parte do primei­ro homem.

Como Deus sujeitou todas as coisas aos pés de Adão para que ele fosse o dominador da Terra (Gên. 1:26-28), assim Deus sujeitará todas as coisas aos pés do segundo Adão para que Ele seja o dominador não apenas da Terra, mas de todo o Universo (Filip. 2:10 e 11), o que explica ser Ele o primogênito, o cabeça de toda a criação (Col. 1:15-20).

Em I Cor. 15:27 e 28, Paulo pro­cura demonstrar que o segundo Adão não tomará a mesma atitude de rebeldia do primeiro Adão. Deus sujeitou todas as coisas aos pés deste, e deu-lhe o domínio da Terra recém-criada, para que ele, sujeitando-se ao Criador, permitis­se que Deus fosse o supremo dominador. Ao lançar mão do fruto proibido, uma clara atitude de não sujeição a Deus, Adão passou o do­mínio a Satanás, (9) a quem se sujeitou obedecendo-lhe a voz. Satanás exerceu então o domínio (Luc. 4:6), e colocou-se como deus deste mundo (II Cor. 4:4). Portanto, se por um ato de insubordinação a Deus o pecado ganhou este mundo, através da subordinação a Ele o pecado será extirpado (Cf. Rom. 5:18 e 19). Pode o leitor perceber até onde os efeitos da sujeição de Jesus alcançam?

O que Adão se negou a fazer, Cristo fará. Destruído o último inimigo, Cristo estará numa situação equivalente à de Adão antes da queda — Ele terá todas as coisas submissas a Si. Então o segundo Adão terá chegado, em Sua própria esfera, ao solene momento correspondente àquele no qual o primeiro Adão deveria comprovar sua sujeição a Deus, não o fazendo contudo. Mas o segundo sujeitar-Se-á “para que Deus seja tudo em todos”. E no transcurso da eternidade Cristo jamais deixará de ser submisso. Assim o domínio de Cristo será o domínio de Deus. Nunca mais o pecado se fará presente, pois o reinado de Cristo não terá fim (Luc. 1:32, 33). Cristo é a segunda oportunidade para o homem se mostrar fiel. Damos graças porque esta oportunidade não será desperdiçada. Todos os remi­dos, mais o restante da criação, em submissão a Cristo e este a Deus comporão os infindáveis do­mínios dAquele de quem, por quem, e para quem são todas as coisas.



Notas e Referências:



1. R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo (São Paulo: Milenium Distribuidora Cultural Ltda., 1985), vol. 4, pág. 168.

2. E. G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 247. Na verdade a Sra. White diz: “Cristo era Deus essencialmente e no mais alto sentido”, referindo-se a Sua pré-existência. Mas ela re­conhece que a encarnação não alterou Sua divindade. Enquanto esteve neste mundo “Ele era tudo o que era como Deus”. (Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 5. pág. 1.126.) “Ele não cessou de ser Deus quando Se tornou homem”. (Ibidem, pág. 1.129.)

3. Champlin, op. cit., Pág. 255. Grifos do autor.

4. Há na passagem ingredientes de pelo menos mais dois salmos messiânicos: 2 e 110.

5. E. G. White, O Conflito dos Séculos, pág. 726.

6. A sujeição de Jesus foi prefigurada em Davi. No regime teocrático de Israel Deus era o Rei. A dinastia de Saul não perdurou devido a sua rebelião às orientações divinas (1 Sam. 15:22 e 23). Deus então escolheu a Davi, homem segundo o Seu coração (Atos 13:22), e à sua descendência, para, por intermédio deles, reinar sobre Seu povo. Na realidade, Davi e seus descendentes se assentaram no “trono do reino do Senhor” (1 Crôn. 28:5). E através de Seu povo Deus deveria finalmente reinar sobre todas as nações (Sal. 22:27 e 28; 86:9; 102:15 e 22; Isa. 19:25; Zac. 8:2 1.23). A estabilidade do rei es­tava na dependência de ser sujeito a Deus no cumprimento de Sua vontade, (1 Reis 2:4.)

Conforme sucederam-se as gerações, os reis davídicos lamentavelmente se tomaram mais e mais rebeldes, até que foram enviados os babilônicos e o reino de Judá foi desfeito. Toda­via Deus havia prometido a Davi uma linhagem real eterna ØI Sam. 7:12-16; Sal. 89:26-37). Esta promessa se cumpre através de Jesus Cristo, o Rei messiânico, o Filho de Davi (Jer. 33:15-17; Ezeq. 21:26, 27; Miq. 4:7, 8; 5:2; Luc.

1:32; Apoc. 5:5; 22:16). O reino de Cristo não terá fim (Luc. 1:32 e 33), porquanto a exemplo de Davi, e naturalmente de maneira muito mais ampla e completa, Ele será sujeito a Deus no cumprimento de Seu desígnio.

7. Champlain, op. cit., pág. 255.

8. Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 6, pág. 806.

9. Ver E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, pág. 90.



Fonte: Revista Adventista junho de 1991, págs. 36-39.

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