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10 de dezembro de 2008

A Semana Através dos Tempos

A. B. Christianini

Há uma acusação que é assim formulada: "Podem os adventistas provar que o sábado é o dia sétimo exato desde a criação? Estão eles certos de que tem sido conservado... durante todos os séculos?! Certamente não."

E nós respondemos, com absoluta firmeza: Certamente sim! E ficam os oponentes aos mandamentos de Deus na obrigação de provar em que época, em que dia, mês e ano ocorreu a alteração dos dias da semana. Notem os leitores que não se apresenta uma única prova sequer em favor da interrupção do ciclo semanal através da história. Apenas afirmações vagas, imprecisas, hipotéticas. Coisas assim: "Quem sabe foi na ocasião do dilúvio... Quem quem sabe no período anárquico dos juízes... Quem sabe... talvez... é provável..." etc. Isto é um "complexo de extravio de tempo" que acomete os antiadventistas, em grande parte devido ao modernismo religioso, calcado em equivocadas idéias evolucionistas, que os induz a não levarem a sério a antiguidade do dia do repouso.

Na era pré-cristã não se perdeu o dia original de repouso. Na nossa era não seria possível perder-se. Consideremos estes fatores:

1. Impossibilidade do mundo perder a contagem de um dia.

Uma simples pessoa dificilmente perde a contagem de um dia. Mais difícil é que uma família o faça. Seria possível que um povoado, ou cidade, ou país perdesse a contagem de um dia? Seria, pois, absurdo admitir que o mundo com seus bilhões de habitantes, grande parte observando o primeiro dia da semana, perdesse a contagem do dia!

2. O cuidado de Deus.

É absurdo supor que Deus exija a observância de uma instituição - como no caso do sábado por mandamento - e permita que este dia se extravie através dos tempos.

3. Os judeus.

Nos tempos de Jesus, os judeus eram extremados na guarda do sábado. Ao serem espalhados, dispersos por todas as nações da Terra, após a destruição de Jerusalém, levaram consigo a observância sabática. Em tempo algum se perdeu o sétimo dia nas nações em que se estabeleceram.

4. O costume e a História.

O Pastor William Jones, de Londres, com a cooperação de competentes lingüistas de todo o mundo, elaborou um mapa da semana em 162 idiomas ou dialetos. Todos reconheceram a mesma ordem dos dias da semana, e 102 deles denominaram o sétimo dia, de sábado. Abram-se as enciclopédias, cronologias seculares ou eclesiásticas, e o domingo é reconhecido como o primeiro dia da semana, logo depois do sábado. Quer dizer que não houve extravio algum.

5. As igrejas.

A igreja primitiva observava o sábado. O Prof. Edward Brerewood, em sua obra Learned Treatise of the Sabbath, Oxford, 1631 (notem bem a data), afirma: "O sábado ou sétimo dia... era observado religiosamente na igreja oriental por 300 anos ou mais depois da paixão do Salvador." Quer observadores do domingo (católicos e protestantes), quer da sexta-feira (mulçumanos) ou do sábado (judeus e adventistas), na era cristã, jamais houve eles a menor dúvida quanto ao dia que guardam.

6. Astronomia.

Os registros astronômicos e datas, que remontam a 600 a.C. concordam com a contagem dos astrônomos de hoje, de que jamais se alterou em tempo algum o ciclo semanal.

Reformas do calendário.

Houve, de fato, mudanças no calendário. Nenhuma delas, porém, mexeu com a ordem dos dias da semana. Não vamos referir-nos às reformas precárias que não foram adotadas, ou apenas simbólicas como o calendário positivista, o da Revolução Francesa, e outros. Analisemos resumidamente as mudanças que alteraram a contagem dos meses, dias e anos. O calendário judaico vinha dos primeiros tempos bíblicos, e consignava o sábado. Os calendários das demais nações do Antigo Oriente, embora dessemelhantes quanto aos meses ou anos, eram contudo idênticos na divisão semanal.
O calendário romano mais antigo, que se crê fora dado por Rômulo, na qual propôs um ano de 305 dias em 10 meses, a partir de março. Numa, sucessor de Rômulo, acrescentou dois meses, elevando o ano civil para 365 dias. Quando Júlio César subiu ao poder supremo de Roma, notando que o calendário vigente era deficiente, chamou o famoso astrólogo Alexandrino Sosígenes para estudar a questão.
Este determinou que se abandonasse o calendário dos meses lunares, e se adotasse o egípcio. Essa reforma foi feita em 45 a.C. e a semana que vinha no calendário egípcio era paralela à do calendário judaico, e foi mantida.

Assim a ordem setenária dos dias da semana não se alterou. Isso foi antes do nascimento de Cristo. Nos tempos de Jesus e dos apóstolos, a semana na Palestina coincidia com a semana dos romanos quanto a ordem dos dias. Também a denominação dos dias era a designação ordinal, pois os nomes aos dias da semana se devem a Constantino, o mesmo que, por decreto, legalizou a observância do primeiro dia. Voltando a Júlio César, o calendário ficou alterado, sem afetar a ordem dos dias semanais. É a reforma chamada juliana.

A outra reforma que alterou a contagem, mas não a semana, é a denominada gregoriana, feita por ordem do Papa Gregório XIII. Os países latinos: Espanha, Portugal e Itália aceitaram-na em 1582. A reforma se fez no dia 4 de outubro daquele ano. O dia 4 de outubro pulou para 15 (havendo portanto uma subtração de 10 dias). Mas o dia 4 foi quinta-feira, e o dia 15 logo a seguir foi a sexta-feira, permanecendo inalterado o ciclo semanal. Nos países de fala inglesa a mudança gregoriana só foi aceita em 1752, em setembro daquele ano. Assim o dia 2 foi seguido pelo dia 14. Mas o dia 2 de setembro caiu, numa quinta-feira. De novo não se alterou a semana.

Testemunho dos Astrônomos.

Não creio haver pessoas mais bem informadas a respeito do assunto do que os astrônomos. Recorramos, pois, a eles. Eis o que depõem:

"Tivemos a oportunidade de investigar os resultados dos trabalhos de especialistas em cronologia, e jamais se soube de um sequer que tivesse a menor dúvida acerca da continuidade do ciclo semanal desde muito tempo antes da era cristã. Nenhuma das reformas havidas em nosso calendário, em séculos passados, afetou de algum modo o ciclo da semana." - Dr. A. James Robertson, Diretor do Observatório Naval de Washington, respondendo a carta de consulta, em 1932. (Fotocópia publicada à pág. 560 de Answers to Objections, de F. D. Nichol.)

Outra carta assinada por Sir Frank W. Dyson, do Real Observatório de Greenwich, Londres, diz, em 1932: "Tanto quanto se sabe, nas várias mudanças do Calendário, não tem havido nenhuma alteração na ordem dos sete dias da semana, a qual transcorre inalterada desde os mais remotos tempos." (Fac-símile no mesmo livro, pág. 562).

Depoimento do Prof. D. Eginitis, Diretor do Observatório de Atenas, num relatório apresentado à antiga Liga das Nações: "A quebra da continuidade da semana, que tem atravessado, ainda intacta, os séculos e todos os calendários conhecidos, e o uso universal desta unidade de medição de tempo, são as razões que se opõem a esta mudança de calendário."

Em Nature, publicação científica inglesa, de 06/06/1931, na "Coluna da Astronomia", há o seguinte tópico: "A regularidade ininterrupta da seqüência das semanas, que têm decorrido sem uma quebra por mais de três mil anos, está agora levantando debates... Alguns... defendem a utilidade de manter-se a unidade do tempo que se mantém invariável desde o alvorecer da História."

O Dr. Fotheringham, uma das mais eruditas autoridades em cronologia, num artigo, publicado no Nautical Almanac para 1931, pág. 740, afirma: "Evidência clara é que o período de sete dias era contado independentemente do mês e de todos os períodos astronômicos. Da Igreja Judaica passou-se ele para a Igreja Cristã."

O congressista Sol Bloom, de Nova Iorque, falando no senado americano, em 11/06/1929, sobre a reforma do calendário, disse: "As mudanças do calendário de modo algum interferiram na continuidade dos dias da semana... Não produziram quebra no ciclo semanal. As datas do mês foram alteradas, mas nunca os dias da semana... Não foi alterada quando a França cancelou dez dias de seu calendário no mês de dezembro. A mudança teve lugar numa sexta-feira, mas continuou sendo sexta-feira dia 20 em vez de sexta-feira dia 10... Os dias do ciclo semanal jamais foram alterados em tempo algum, em qualquer reforma processada no calendário." - Congressional Record, junho, 1829, pág. 5.

"A divisão da semana vem inalterável em milhares de anos" - M. Anders Donner, professor de Astronomia da Universidade de Helsinqui (Report on the Reform of the Calendar, 17 de agosto, 1926, pág. 51.

O espaço não nos permite citar perto de quinze depoimentos de autoridade em matéria de calendário, entre elas o Prof. M. Edouard Bailland, Diretor do Observatório de Paris, o Prof. Frederico Oom, Diretor do Observatório Astronômico de Lisboa, o Prof. M. Emile Picard, Presidente do Office of Longitudes.

Concluiremos com a transcrição dos debates havidos em torno da reforma do calendário, no Congresso de Washington, sessão de 21/01/1929, entre os congrecistas Sol Bloom, Cyrenus Cole e W. S. Eichelberger, então Diretor do Observatório Naval dos E.U.A:
"Mr. Bloom: Não é um fato que, nas mudanças produzidas no calendário, as datas foram mudadas, porém nunca os dias? V. Exa. sabe de algum tempo na História em que algum calendário, a partir do princípio do remoto calendário egípcio, em que o dia da semana se tenha trocado?
Mr. Eichelberger: Não, não sei absolutamente.
Mr. Bloom: Mas as datas foram mudadas?
Mr. Eichelberger: Sim, não há dúvida.
Mr. Bloom: V. Exa. pode mudar qualquer data do calendário a seu critério, como o fez o Papa Gregório, desprezando 10 dias em 1582, e o britânicos 11 dias em seu calendário, instituindo-se assim o calendário sob o qual vivemos. As datas foram trocadas, mas não foi alterado sequer um dia da semana...
Mr. Eichelberger: Tanto quando eu saiba, isto é exato.
Mr. Cole: Há fundamento na crença de que o sábado, ou outros dias da semana se têm sucedido em ininterrupta continuidade desde tempos remotos?
Mr. Eichelberger: Tanto quanto eu sabia, isto é verídico." - Congressional Report, pág. 68.
Temos absoluta certeza de que o dia de sábado jamais se perdeu na meada dos milênios. E, a despeito da multiplicidade das provas, contentamo-nos com uma: sendo o dia que tem o brilho inviolável da bênção divina, jamais se perderia na noite dos tempos. O próprio Deus Onisciente cuidou que assim fosse. E de fato o foi.
Já o mesmo não ocorre com os professos cristão em relação ao seu espúrio dia de repouso. Não têm certeza de que não se tenha extraviado nalguma alteração cronológica ou mudança de calendário na era cristã. Com este "complexo de extravio de dia", nem têm certeza do dia que guardam. Isto, porém, é um problema que pertence à eles.

A. B. Christianini, Subtilezas do Erro, 2.ª ed., 1981, pág. 168.

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As "coletas" de Corinto

A. B. Christianini

Emprega-se muito o surrado texto de I Coríntios 16:2, na tentativa de "justificar", pela Bíblia, a guarda do domingo. Muitos, valem-se da versão Almeida comum, que omite a expressão "em casa" encontrada no texto original. E argumentam: "Ora, se cada um pusesse de parte 'em sua casa' o dinheiro, teria que ser feita a coleta quando Paulo chegasse e era justamente isto o que queria evitar!"

Veremos como isto se pulveriza a um simples sopro de verdade. Nem haveria necessidade de argumentar, pois o próprio texto de Almeida na Versão Revista e Atualizada no Brasil, se encarregaria de fulminar a falsidade. Ei-la:

* "Quanto à coleta para os santos, fazei vós como também ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for."

Maior clareza não pode haver! Torna-se dispensável qualquer comentário! A Simples leitura do texto nos convence de que:


1. Não se tratava de culto nem de reunião de espécie alguma no primeiro dia da semana.
2. A coleta não era feita na igreja.
3. A coleta não era parte do culto nem se destinava à igreja local.
4. Era uma separação de dinheiro que cada um devia fazer em sua casa.

5. Quando Paulo viesse, cada um lhe entregaria o total de sua separação semanal, que Paulo levaria ou mandaria para os crentes pobres de Jerusalém. Não se faria coleta alguma quando Paulo viesse, porquanto esta já fora feita, já estava pronta. Paulo somente a tomaria para encaminhá-la ao seu destino.

Notemos no texto a expressão "pôr de parte", separar, reservar, depois de um balanço na situação, "conforme a prosperidade". Ora, se se tratasse de coleta feita num culto, Paulo não usaria estas expressões. Notemos mais a demolidora expressão "em casa" que está no texto original, e também nas melhores traduções. Isto liquida a pretensão de ser a coleta feita na igreja. Notemos ainda a expressão "e vá juntando", o que indica uma acumulação que se formava gradativamente mediante periódicas reservas de dinheiro.

Por que num "primeiro dia da semana"? Porque com o sábado findava-se a semana. Os cristãos eram previdentes e organizados. Era costume, no início da semana, logo no seu primeiro dia, planejarem suas atividades seculares, considerarem os gastos da semana anterior, anteciparem providências e fazerem previsão dos gastos para a nova semana. Uma questão de contabilidade doméstica. Paulo lhes recomenda que, ao fazerem a costumeira previsão, no início da semana, não se esqueçam de separar, o que fosse possível, em dinheiro para os pobres de Jerusalém, colocando o donativo numa caixa em seus lares. A idéia de Culto ou de reunião dominical é completamente estranha ao texto, e seria uma deslealdade à Bíblia forçá-la aqui.

O The Cambridge Bible For Schools and Colleges, autorizado comentário das Escrituras publicado pela Cambridge University Press dos prelados da igreja Anglicana, declara, comentando este texto, que "não podemos inferir desta passagem que os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana". E prossegue:
"'Cada um ponha de lado', isto é, em casa, no lar, não em reunião como geralmente se supõe. Ele [Paulo] fala aqui de um costume que havia naquele tempo, de se colocar uma pequena caixa ao lado da cama, e dentro dela se depositavam as ofertas, depois de se fazer oração". - Parte "The First Epistle to the Corinthians", editado por J. J. Lias, pág. 164.

Notemos que este comentário é insuspeito, porque é dos ardorosos advogados do repouso dominical. A seguir, citaremos interessante testemunho católico. O cônego Hugo Bressane de Araújo, em seu opúsculo Perguntas e Respostas, vol. 1, pág. 23, escreve o seguinte:
"'Pergunta: Mas dizem os protestantes que S. Paulo manda guardar o domingo.'
'Resposta: Não. S. Paulo, na I Epístola aos Coríntios, cap. XVI, só ordena que se faça uma coleta para os pobres no primeiro dia da semana; eis as palavras do Apóstolo; vers. 2.º - 'Ao primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte alguma coisa em casa, guardando assim o que bem lhe parecer, para que se não façam as coletas quando eu chegar.' Porventura esta determinação do Apóstolo acerca das esmolas para os pobres de Jerusalém anula o preceito sobre a observância do sábado?'" - Edições 1931, págs. 23 e 24.

Este comentário também é insuspeito, por ser de origem da instituição responsável pela observância dominical religiosa. Alinhemos ainda alguns testemunhos de pessoas guardadoras do domingo:
Sir Willian Domville, em seu livro The Sabbath, entre outras considerações diz:
"É estranhável que um texto que nada diz a respeito de qualquer reunião para qualquer propósito, venha a ser usado para provar um costume de reunir finalidades religiosas!... Se é insustentável inferir do texto um costume de reunir - pois nele não se menciona reunião alguma - parece ainda mais insustentável, e mais incoerente inferir dele... que a ordem de reservar um donativo em casa signifique que o mesmo deveria ser dado na igreja...
A tradução em nossas Bíblias comuns é exatamente como o original: 'Cada um de vós ponha de parte em casa'. Uma tradução ainda mais literal da palavra original thesaurizon (acumulando), mostra de modo mais claro que cada irmão contribuinte devia ir ajuntando por si mesmo, e não entregar a oferta de semana em semana a uma outra pessoa." - The Sabbath, págs. 101 à 104.

Diz Neander: "Contudo não podemos de modo algum ver aqui qualquer observância especial do dia, como afirma Osiander."

John Peter Lange, outro comentarista muito citado, conclui: "A expressão é, pois, conclusiva contra a opinião prevalecente de que a coleta se fazia na igreja. Era ela um negócio individual e privado". E mais adiante: "'E vá juntando'... Em virtude de todo domingo alguma contribuição ser posta à parte, formaria, sem dúvida uma acumulação".

Era, sem dúvida, esta "acumulação" que Paulo tomaria e enviaria de uma só vez, já pronta, para Jerusalém.

A Enciclopédia Bíblica (em inglês), de Cheyne and Black, no artigo "dia do Senhor", comenta esta passagem, chegando à seguinte conclusão: "Não devemos, no entanto, passar por alto o fato de que a dádiva de cada um devia ser separada particularmente (par hauto) isto é, em seu próprio lar, e não em alguma assembléia de adoração".

Outro fato digno de nota é que, antes do fim do quarto século de nossa era, ninguém se lembrou de valer-se deste texto para pretender confirmar a guarda do domingo. O primeiro a fazê-lo foi Crisóstomo, em sua Homília 43 sobre I Coríntios. No entanto, o próprio Crisóstomo admite que a coleta não se fazia na igreja. Eis textualmente seu comentário:

"S. Paulo não afirmou que trouxessem suas ofertas à igreja, para que não se envergonhassem da pequenez da quantia; mas, 'aumentando-a aos poucos em casa, que a tragam, quando eu chegar'; por ora, vão juntando, em casa, e façam de suas casas uma igreja e de seu mealheiro um cofre". Eis o silogismo:

* Premissa Maior: O dia em que o crente, em casa, põe de parte um donativo para os pobres, é o dia de guarda;
* Premissa Menor: Ora, os crentes de Corinto faziam isso no primeiro dia da semana;
* Conclusão: Logo, o primeiro dia da semana é dia de guarda.

Estará certa a premissa maior? Seria esta a forma de se estabelecer uma doutrina? Será sincero este modo de proceder com as coisas divinas?

Pensaram acaso os leitores como deveriam sentir-se os crentes de Corinto, se lhes fosse dado saber, naquela ocasião, que algumas professos cristãos do século XX haviam de tentar estabelecer a doutrina da guarda do domingo, no simples fato deles, os crentes coríntios, colocarem moedas em cofres domésticos com a intenção de ajudar os pobres de Jerusalém? Com certeza estes amigos de Paulo ficariam estarrecidos! E talvez bem aborrecidos também!

A. B. Christianini, Subtilezas do Erro, 2.ª ed., 1981, pág. 211.

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Preparo para o batismo: assunto sério

Alberto R. Timm

O grau de comprometimento de nossas futuras gerações para com a mensagem adventista está sendo determinado em grande parte pela maneira como estamos preparando os interessados para o batismo. Assim como muitas influências pré-natais deixam resquícíos na criança depois do nascimento, o preparo pré-batismal afeta decisivamente a identidade espiritual dos novos membros e, consequentemente, a própria identidade da igreja.

Se “a aquisição de membros que não foram renovados no coração e reformados na vida” é realmente “uma fonte de fraqueza para a igreja”2 então “a hora de instruir os conversos completamente, é antes do batismo”, quando eles ainda “estão ansiosos por aprender, e o fogo do primeiro amor arde brilhante­mente no altar de seu coração”.3 Mas o que estaria envolvido nesse preparo cabal para o batismo?

Nem sempre é possível generalizar o conteúdo das séries de estudos bíblicos pré-batismais a serem ministradas, pois os interessados provêm de diferentes contextos profíssionais, socioculturais e religiosos.

Mas, a despeito dessas variantes, existem três grandes áreas da religião com as quais os interessados devem estar devidamente familiarizados antes do batismo.

Conversão — A primeira dessas áreas é o conhecimento teórico-experiencial do plano da salvação em Cristo Jesus, que leva o interessado a uma genuína experiência de conversão pessoal. Este aspecto é fundamental a toda série de estudos bíblicos, levando-se em conta a primazia que ele exerce sobre os demais temas. Cristo mesmo declarou que a vida eterna consiste no conhecimento pessoal da Divindade (João 17:3; cf. Osé, 6:3). Por esta razão, Ellen White insiste em que “o primeiro e mais importante aspecto” em toda série de estudos bíblicos “é enternecer e abrandar a alma pela apresentação de nosso Senhor Jesus Cristo como o Salvador que perdoa os pecados”.

O mais cedo possível devem os interessados ser familiarizados com o verdadeiro conceito bíblico de salvação; pois, no cristianismo em geral (e mesmo entre os evangélicos), prolifera uma falsa dicotomia entre a salvação no Novo Testamento (por graça) e no Antigo Testamento (por obras). Devemos, portanto, deixar bem claro que os pecadores, tanto do Antigo como do Novo Testamento, sempre foram salvos pela graça (Efés. 4:8), justificados pela fé (Rom. 5:1) e julgados pelas obras (Apoc. 20:13); pois é impossível que em algum tempo pecadores pudessem ser salvos por seus próprios méritos.

O plano da salvação deve ser apresentado de forma contextualizada, fluindo através do progressivo tema do santuário, que: 1) começa com os altares patriarcais; 2) prossegue com o tabernáculo mosaico e o templo de Jerusalém; e 3) culmina com a morte de Cristo na cruz, com o Seu ministério sacerdotal no santuário celestial e com a Sua segunda vinda em glória e majestade para a salvação final dos Seus filhos.

Após compreenderem essa visão abarcante do plano da salvação, os interessados devem ser conscientizados de que tudo isso só se tomará eficaz para eles se pessoal-mente (cf. LI Cor. 5:18-20) se arrependerem dos seus pecados (Atos 2:38) e aceitarem a morte vicária de Cristo (João 3:16) e Seu ministério sacerdotal (Heb. 4:14-16). A pessoa que ministra os estudos bíblicos poderá ajudar grandemente o interessado a fazer sua entrega pessoal a Cristo.

Mas neste ponto surge uma decisiva indagação: Seriam a compreensão do plano da salvação e a entrega pessoal a Cris­to as únicas condições realmente necessárias para o batismo?



Conhecimento — Certas experiências do Novo Testamento (ver Atos 2:1-41; 8:26-38; 9:1-18; 10:1-48; 16:13-15, 19-33;

18:8; 19:1-5) parecem sugerir, à primeira vista, que a única condição para uma pessoa ser batizada é crer em Cristo. Essa poderia ser a realidade, se vivêssemos nos dias dos apóstolos e nossa missão fosse pregar aos judeus da época ou às pessoas já familiarizadas de alguma forma com os ensinos do judaísmo. Nesse caso, nossa missão básica se restringiria a levar os interessados a aceitar a Jesus de Nazaré como o prometido Messias.

Não devemos nos esquecer, porém, de que os tempos mudaram significativamente, e que no mosaico religioso (e mesmo cristão) de nossos dias os interessados têm “muito que aprender e muito que desaprender, e isso leva tempo”. Se cremos que o cristianismo pós-apostólico passou por um profundo pro­cesso de apostasia que se estende até nossos dias (cf. Dan. 8:9-12; 11 Tess. 2:1-12), então precisamos também re­verter esse processo a fim de retomarmos à fé pura do cristianismo primitivo.

Deveríamos mostrar: 1) como o poder da ponta pequena deitou por terra o sistema de verdades conectadas com o santuário celestial (Dan. 8:9-12; 7:25); 2) como esse sistema seria restaurado no final das 2.300 tardes e manhãs (Dan. 8:13 e 14), através da proclamação das três mensagens angélicas de Apocalipse 14:6-12; e 3) como o Movimento Adventista do Sétimo Dia surgiu nessa época para restaurar as verdades do ministério de Cristo no santuário celestial, da perpetuidade da Lei e do Sábado, da segunda vinda pessoal e visível de Cristo, da imortalidade condicional da alma, da manifestação do dom profético, etc.6

Os diferentes componentes doutrinários de nossa mensagem devem ser sempre apresentados cristocentricamente, pois, de acordo com Ellen White, “toda verdadeira doutrina tem a Cristo como centro, e todo preceito recebe força de Suas palavras”.7 E mais, “de todos os professos cristãos, de­vem os adventistas do sétimo dia ser os primeiros a exaltar a Cristo perante o mundo”.8 Devemos, portanto, proclamar com entusiasmo ao mundo nossa visão ampla do que Cristo fez (na cruz), está fazendo (no santuário celestial) e ainda fará (em Sua Segunda Vinda) por nossa salvação.

Estilo de vida — Há ainda aqueles que negam a influência social da religião, alegando, dicotômica e unilateralmente, que o que importa é apenas o interior da pessoa e não o seu exterior. Essa teoria, no entanto, é claramente rejeitada por Cris­to ao afirmar que os cristãos são tanto o “sal da terra” (Mat. 5:13) como a “luz do mundo” (Mat. 5:14-16), e que a verdadeira religião é reconhecida “pelos seus frutos” (Mat. 7:15-23; João 15:1-5).

Como adventistas do sétimo dia, cremos que o ser humano é um todo indivisível e que a religião interior se reflete exteriormente. Isto significa que deve­mos ensinar aos interessados também os princípios bíblicos do estilo de vida adventista. Eles devem compreender que um povo que professa estar vivendo‘, 9“hoje no grande dia da expiação preparando-se para a breve volta de Cristo, deve viver em conformidade com a fé que professa. Tal povo jamais indagará: “qual o mínimo que precisamos fazer para alcançar a salvação?”, mas sim: “qual a maneira mais adequada de servirmos Cristo?”

A apresentação dos princípios do estilo de vida adventista deve abranger o hábitos devocionais, a reforma de saúde, a mordomia financeira, o vestuário e os adornos pessoais, bem como os vá rios aspectos do comportamento social do cristão. Se “todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário”0 então devemos também ensinar os interessados a começarem a testemunhar de sua fé ainda antes do batismo. E deveras importante que explique mos a eles que nossa igreja não é um mosteiro de santos que já atingiram pefeição, e sim um “hospital espiritual”, onde todos precisam ser ajuda­dos (cf. Filip. 3:12).

R. A. Anderson comenta que “aceitar a luz em pontos de fé tais como a reforma de saúde ou as ofertas sistemáticas, ou o dom divino de profecia, é fácil” às pessoas que se preparam para o batismo. Mas, “se esses e outros itens vêm a ser descobertos depois [do batismo], não é de se admirar que a sua confiança comece a diminuir e o fogo do primeiro amor a se apagar. Sem dúvida, todos conhecemos alguns que perderam o caminho e abandonaram a mensagem simplesmente porque, na época em que foram trazidos à igreja, algumas dessas coisas não lhes foram esclarecidas”.

Conclusão — Crer no Senhor Jesus Cristo não significa apenas professar o Seu nome, mas aceitar também a Sua vontade para a nossa vida (ver Mat. 7:21), numa pro­funda experiência espiritual que se reflete exteriormente. Toda a genuína aceitação de Cristo como Salvador pessoal leva à espontânea indagação: “Senhor, que queres que eu faça?”

Se prepararmos nossos conversos apenas em uma das áreas acima menciona­das, estaremos não apenas sendo parciais para com os interessados mas também desvirtuando a natureza todo-abarcante de nossa mensagem. Se apresentarmos apenas um Cristo sem dou­trinas, estaremos promovendo o pluralismo, uma espécie de ecumenismo interno que destrói a identidade de qualquer denominação. Se, por outro lado, nossos estudos propagarem doutrinas sem Cristo, estaremos difundindo o legalismo, que rouba da mensagem o seu poder santificador. Se, por último, apregoarmos um estilo de vida que não derive de uma experiência espiritual interior, estaremos estimulando o formalismo, que caracterizava o farisaísmo dos dias de Jesus (cf. Mat. 23).

Um preparo adequado para o batismo, que: 1) conduza à experiência da conversão; 2) forneça o conhecimento doutrinário básico; e 3) promova a vivência do nosso estilo de vida distintivo, não representa necessariamente um acréscimo no tempo de preparo e sim uma mudança de metodologia que restaure nossa verdadeira identidade profético-adventista. Se quisermos que nossa Igreja preserve sua identidade denominacional, precisamos investir num adequado preparo das novas gerações que ingressarem em nossas comunidades.

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Tradução de Lucas 23:43

Gilson Medeiros da Silva

Existe uma polêmica com relação à tradução de Lc 23:43, devido à ausência de pontuação no original grego. Duas possibilidades são questionadas para o texto: uma que confirma a doutrina da imortalidade da alma; outra que não dá margem para este pensamento. Ambas encontram respaldo no texto original, porém apenas uma deve ser aceita como sendo a intenção do autor do Evangelho de Lucas. Somente através da análise de passagens paralelas podemos ter uma direção sobre qual a melhor tradução para o texto.

O trabalho ora apresentado está disposto em três capítulos. O capítulo um analisa a presença marcante da doutrina da imortalidade no seio cristão. No capítulo dois é apresentada a forma como o texto grego está escrito e suas variações na pontuação. O capítulo três abordará a posição do grupo cristão que não aceita a tradução que deixa explícita a doutrina da imortalidade. Ao final, é apresentado um Resumo e a Conclusão do estudo.


CAPÍTULO I

TRADUÇÃO HABITUAL DE LUCAS 23:43

A maioria das versões bíblicas traduzem este texto de Lucas, da seguinte maneira: "Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". [1] Outras versões variam um pouco no que tange à pontuação, como por exemplo: "Jesus respondeu a ele: Eu te digo a verdade, hoje você estará comigo no paraíso". [2]

As traduções acima baseiam-se na concepção geral de que a alma é imortal, e de que a recompensa humana é recebida após a morte. Willcock confirma isto dizendo que a palavra "hoje", no texto em estudo, refere-se a "uma imediata recompensa em lugar de outra distante". [3]

Outra conceituada obra afirma que "a resposta de Jesus garante-lhe [ao ladrão] que ele não precisa esperar nenhum evento futuro, mas que terá uma


experiência alegre e imediata de companheirismo com Jesus 'no paraíso'". [4] A concepção geral de que a alma é imortal, e de que logo após a morte já recebe-se a recompensa, leva muitos autores a serem bem enfáticos em suas interpretações. Morris, por exemplo, diz que o ladrão "naquele mesmo dia, entraria no Paraíso". [5]

Archer é ainda mais claro em suas concepções imortalistas, quando afirma que "foi para o Hades que as almas de Jesus e do ladrão arrependido se dirigiram, depois de terem morrido naquela sexta-feira à tarde". [6]

A certeza da recompensa imediata após a morte está sempre presente nos comentários dos diversos teólogos. Eles, em sua maioria, aliam a doutrina da imortalidade com a da entrada instantânea no reino de glória, ou paraíso. [7]

Esta doutrina da imortalidade da alma está presente em praticamente toda a cristandade. A própria igreja católica romana expressa em seu catecismo doutrinário que "cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte [...] seja para entrar de imediato na felicidade do céu, seja para condenar-se de imediato para sempre". [8] No seu compêndio doutrinário, os mórmons, por exemplo, afirmam que "todos nós éramos espíritos adultos antes de nascer". [9]

Outro exemplo de grupo imortalista são os batistas, que afirmam que "no estado intermediário a alma é consciente. Continua depois da morte como uma pessoa consciente". [10]

CAPÍTULO II

A PONTUAÇÃO DO TEXTO GREGO

Encontra-se o seguinte texto no original grego:

kai; ei\pen aujtw'/ !Amhvn soi levgw shvmeron met! ejmou' e[sh/ ejn tw'/

paradeivsw/. - segundo o ms. NA 27. [11]

Entre as versões bíblicas que utilizam a mesma tradução do ms. Siríaco Curetoniano [12] cita-se a tradução Novo Mundo (editada pelas Testemunhas de Jeová), onde se lê: "E êle disse: Deveras, eu te digo hoje: estarás comigo no paraíso". Como observa-se, o ms. Siríaco Curetoniano (syrc) vincula a palavra "hoje" com o verbo "digo". [13] A simples colocação dos sinais de pontuação em local diferente confere ao texto bíblico um sentido oposto àquele citado no capítulo anterior. Nesta tradução, as palavras de Jesus não afirmam (ou mesmo sugerem) a imortalidade da alma, bem como o recebimento da recompensa logo após a morte.


Sabe-se que a maioria dos manuscritos antigos não apresentavam sinais de pontuação [14] , o que permitiu que, na colocação destes sinais, o tradutor conduzisse seu pensamento de forma a ser coerente com aquilo que ele, em sua concepção pessoal, acreditava ser o mais correto.

O professor Pedro Apolinário amplia a informação referente à pontuação no grego, quando cita que "somente no século VIII é que foram introduzidos nos manuscritos alguns sinais de pontuação, e no séc. IX introduziram o ponto de interrogação e a vírgula". [15] Mesmo um dos destacados defensores da imortalidade admite que existe dificuldade em comprovar sua posição:

Os manuscritos originais do Novo Testamento não tinham pontuação, e em face do fato de que o grego clássico (incluindo o koiné, no qual foi escrito o NT) gozava de ampla liberdade no tocante à ordem das palavras, é impossível, à base do próprio texto grego, provar um lado ou outro dessas idéias contraditórias [imortalidade ou mortalidade da alma]. [16]

O Comentário Adventista acrescenta que "é evidente que tanto a conjunção 'que' como a colocação de pontuação baseiam-se no entendimento dos tradutores e revisores da RVA, da RVR e de outras traduções, relativo ao estado dos mortos". [17]


CAPÍTULO III

QUANDO REALMENTE IRÁ PARA O

CÉU O "BOM" LADRÃO?

Até aqui, vê-se que existem duas correntes de pensamento que são diametralmente opostas com relação à tradução de Lc 23:43. Os teólogos que acreditam na imortalidade da alma (a grande maioria) traduzem o texto conjugando a palavra "hoje" com o verbo "estarás". [18] Os que advogam a mortalidade da alma e o sono inconsciente na morte (Adventistas e Testemunhas de Jeová, por exemplo) colocam a palavra "hoje" em conexão com o verbo "digo". [19] Levando-se em conta que o texto grego não apresenta pontuação, deixando, assim, margem para ambas as concepções doutrinárias, faz-se necessário analisar outras duas passagens, registradas no evangelho de João, que ajudarão a clarear o estudo da passagem de Lucas.

Jo 20:10-18

Acha-se aqui o relato do encontro de Maria com Jesus, logo após Sua ressurreição na manhã do primeiro dia. Estando ela chorando por não ter encontrado seu amado Mestre, recebe a visita de Jesus que apresenta-Se para confortá-la; então,


Ele faz a Maria uma declaração relevante para o estudo em questão, que pode ser lida no verso 17: "Jesus lhe recomendou: Não me detenhas; pois ainda não subi para


meu Pai" [20] . Jesus morreu antes do pôr-do-sol do sábado (Lc 23:53-56), algum tempo após fazer a promessa ao ladrão.

Ora, se até a manhã do primeiro dia Ele ainda não havia estado com o Pai, então não poderia ter cumprido a promessa de estar com o ladrão "naquele mesmo dia" (sexta-feira). Como analisado anteriormente, o paraíso ao qual Jesus referiu-se é interpretado como sendo o lugar da habitação dos salvos, a restauração do Éden. [21]

Jo 19:31-33

Encontra-se aqui outro relato interessante. Para que os três presos pudessem ser retirados da cruz (e não fosse transgredido o dia de sábado especial que se aproximava), os judeus aconselharam a Pilatos para que as pernas dos "condenados" fossem quebradas, apressando assim sua morte. [22] O verso 32 afirma que "os soldados foram e quebraram as pernas" dos dois ladrões, pois eles ainda estavam vivos. É possível que o ladrão não tenha morrido naquela tarde de sexta-feira, tornando impossível que ele estivesse em seguida "no paraíso" com Jesus. [23]

Do estudo destas duas passagens do evangelho de João, fica evidente que ambos (Jesus e o ladrão) não foram juntos para o céu ou "reino de glória" naquele mesmo dia. [24]

As pessoas responsáveis pelas traduções e revisões do texto sagrado não podem esquecer que "todo estudioso do Novo Testamento precisa estar consciente da iniqüidade que é alterar um texto simplesmente com base em considerações doutrinárias infundadas". [25]

Comentando a passagem de Lucas, Ellen G. White diz que "Cristo não prometeu que o ladrão estaria com Ele no paraíso naquele dia. [...] Mas no dia da crucifixão, o dia da aparente derrota e trevas, foi feita a promessa". [26]

Não seria naquela sexta-feira que o ladrão estaria com Jesus no paraíso, "mas será depois da ressurreição dos justos, a qual ocorrerá na segunda vinda do Senhor". [27]


A doutrina da imortalidade da alma não encontra firme alicerce nos ensinos de Jesus ou dos apóstolos que O sucederam na pregação do cristianismo. Jesus sempre viu a morte como um sono, um repouso inconsciente (cf. Mt 9:24; 27:52; Jo 11:11). [28]


RESUMO E CONCLUSÃO

Verifica-se que existem duas correntes de interpretação para Lc 23:43 - os que a explicam segundo o conceito de que existe a imortalidade da alma, e outra, oposta, que crê na mortalidade da alma e no sono da morte.

Ambas as interpretações podem encontrar base textual devido à falta de pontuação do grego koiné. Porém, não se pode admitir que do mesmo texto bíblico surjam duas concepções doutrinárias inteiramente discordantes entre si. Se o texto original permite tal situação, então tem-se que observar o ensino geral da Bíblia acerca da alma e do estado dos mortos. Foram analisadas duas passagens bíblicas significativas do evangelho de João (19:31-33 e 20:10-18) que mostram que os dois personagens centrais deste relato (Jesus e o ladrão arrependido) não estiveram juntos no paraíso naquele mesmo dia, e um estudo mais amplo sobre o assunto, conforme proposta na bibliografia recomendada, mostra que ainda hoje não o estão.

A correta interpretação desta passagem bíblica está relacionada à concepção pessoal do tradutor acerca da doutrina da imortalidade. Esta doutrina não encontra base bíblica sustentável, uma vez que a Bíblia ensina que a "alma que pecar, esta morrerá" e que todos os que morrem estão "dormindo" até a ressurreição.

Conclui-se, então, que a tradução mais coerente para o texto de Lc 23:43 é a que coloca a pontuação após a palavra "hoje", como por exemplo: "Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso".


BIBLIOGRAFIA

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________. Patriarcas e profetas. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993.


[1] Salvo indicação contrária, a versão adotada nesta monografia é a de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada, 2ª edição (São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993).

[2] New International Version (Colorado Springs, CO: International Bible Society, 1984).

[3] J. Willcock, Commentary on the Gospel According to St. Luke, The Preachers Complete Homiletic Commentary, vol. 24 (Nova Iorque: Funk & Wagnalls Company, s.d.), 577.

[4] "The Crucifixion" [Luke 23:26-43], NIV Bible Commentary, ed. Kenneth L. Barker & John R. Kohlenberger III (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1994), 2:283.

[5] Leon L. Morris, O evangelho de Lucas (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, reimpressão 1986), 308.

[6] Gleason L. Archer, Encyclopedia of Bible Difficulties (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1982), 367.

[7] Ver, além dos anteriores: George A. Buttrick, ed., The Interpreter's Bible (Nova Iorque: Abingdon Press, 1954), 8:411.

[8] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Catecismo da igreja católica, (São Paulo: Loyola, 2000), 288.

[9] A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Doutrina e convênios - manual do aluno (São Paulo: Centro Editorial Brasileiro, s.d.), 356.

[10] H. W. Tribble, Nossas doutrinas, (Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985), 93. Apesar de o presente trabalho discordar da doutrina da imortalidade da alma, pode-se conferir as seguintes obras para um maior esclarecimento sobre esta doutrina: Ray Summers, A vida no além (Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1971); Russell P. Shedd e Alan Pieratt, eds., Imortalidade (São Paulo: Vida Nova, 2000).

[11] Luiz A. T. Sayão, ed., Novo Testamento trilingüe (São Paulo: Vida Nova, 1998), 244.

[12] Para outras traduções semelhantes a esta, ver: A. B. Christianini, Subtilezas do erro (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1981), 254.

[13] Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado (NTI) (São Paulo: Candeia, s.d.), 2:230-231.

[14] Bruce M. Metzger, Manuscriptus of the Greek Bible (Nova Iorque: Oxford University Press, 1981), 31-32.

[15] J. Angus, História, doutrina e interpretação da Bíblia, vol. 1, n. 39, citado em Pedro Apolinário, História do texto bíblico (São Paulo: Instituto Adventista de Ensino, 1985), 69. Ver também: Wilson Paroschi, Crítica textual do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1993), 15-42.

[16] Champlin, NTI, 2:230-231.

[17] "Te digo que hoy estarás" [Lc 23:43], Comentário bíblico adventista del séptimo dia (CBASD), ed. Humberto M. Rasi (Boise, ID: Publicaciones Interamericanas, 1987), 5:855-856.

[18] Champlin, NTI, 2:230.

[19] Ibid.

[20] Grifo nosso.

[21] "Paraíso", CBASD, 5:855.

[22] Tal costume era conhecido como crucifragium. Ver: "Se les Quebrasen las Piernas", CBASD, 5:1039.

[23] Lourenço S. Gonzalez, Assim diz o Senhor (Niterói, SP: Assim Diz O Senhor, 1997), 326-328.

[24] Ibid.

[25] Norman Geisler e Willian Nix, Introdução bíblica: como a Bíblia chegou até nós (São Paulo: Vida, 1997), 172.

[26] Ellen G. White, O desejado de todas as nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), 751.

[27] "Paraíso", CBASD, 5:856.

[28] Para uma melhor compreensão do ensinamento bíblico sobre o estado do homem na morte e as duas ressurreições, ver: Rubens S. Lessa, Márcio D. Guarda, e Rubem M. Scheffel, eds., Nisto cremos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1999), 453-468; Estudos bíblicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1987), 436-475; Ellen G. White, O grande conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), 531-550; idem, Patriarcas e profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), 683-689; Rubens S. Lessa, ed., Consultoria doutrinária (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1979), 93-116; Alejandro Bullón, O terceiro milênio e as profecias do Apocalipse (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), 79-87.

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Daniel sabia lidar com gente

Dênis K. Fehlauer

Normalmente, quando lemos ou ouvimos uma história bíblica, temos a tendência de passar por alto os detalhes. E um ato inconsciente, natural, mas muitas vezes prejudicial. Contudo, descobrir de maneira natural, no texto bíblico, uma novidade" que sempre esteve ali, produz uma sensação agradável.

Assim, gostaria de recapitular a história de Daniel. Não para dizer que ele era um homem de oração, corajoso, honesto ou cheio de fé. A leitura desse trecho da Bíblia desperta curiosidade sobre outro aspecto da personalidade do profeta.

Daniel é um dos personagens para quem, tanto a Bíblia como o Espírito de Profecia, só há elogios. Um bom exemplo disso encontramos no capítulo 9. Ali, Daniel recebe dos livros proféticos o que parecia ser más notícias. Então ora, confessa pecados e pede misericórdia a Deus. Ele havia descoberto que as dificuldades que seu povo enfrentava em terra estrangeira, durariam ainda setenta anos. Ficou confuso. Enquanto orava, o anjo Gabriel veio voando, tocou nele e disse (verso 23): "Logo que você começou a orar, Deus atendeu o seu pedido. Deus o ama muito e por isso me mandou explicar a visão a você." (BLH.)

A princípio pode não parecer elogio o fato de Deus mandar dizer que ama alguém. Ora, Deus ama todo mundo! Mas a versão da Bíblia de Jerusalém dá uma idéia interessante sobre o assunto: "Desde o começo da tua súplica uma palavra foi pronunciada e eu vim para comunicá-la a ti, porque és o homem das predileções". Os tradutores sugerem que Daniel era um dos prediletos de Deus. Muitos de nós gostaríamos de ouvir algo nesse sentido.

Voltando ao capítulo 6, vemos que mais alguém, além de Deus, gostava de Daniel. Com certeza, não eram os políticos da época. A inveja deles é compreensível. Além de ser o funcionário mais competente, Daniel era um estrangeiro. Alguém de fora iria governar sobre os da casa (verso 13).

A admiração dirigida ao profeta vinha do rei. Após compreender o plano arquitetado contra Daniel, o monarca deixa transparecer a amizade que sentia pelo velho conselheiro (verso 14). "Penalizado pela parte que havia desempenhado no mal que se praticara, o rei ‘até o pôr-do-sol’ trabalhou para salvar seu amigo." — Profetas e Reis, pág. 543, grifo acrescentado.

Por não conseguir salvar seu amigo, o rei passou uma noite nada agradável. Daquele tipo que a gente não dorme nem com chá de erva cidreira. A ansiedade fez com que o rei fosse apressadamente à cova

dos leões ao primeiro sinal do dia. E no verso 20 lemos: "Chegando-se ele à cova, chamou por Daniel com voz triste..." Dario não estava triste apenas por perder um bom funcionário. Não queria perder alguém por quem ele sentia real amizade. Daniel não era um daqueles aduladores do chefe. Ele era querido pelas pessoas que não tinham inveja dele. Daniel sabia lidar com gente.

"Através do reinado de sucessivos monarcas, da queda da nação e o estabelecimento de outro império mundial, foram de tal natureza sua sabedoria e capacidade de estadista, tão perfeitos seu tato, cortesia, genuína bondade de coração e sua fidelidade ao princípio, que mesmo seus inimigos foram forçados a confessar que não podiam achar ‘ocasião ou culpa alguma; porque ele era fiel’." — Profetas e Reis, pág. 546.

Tato, cortesia e bondade de coração são qualidades de quem sabe lidar com gente. Nós precisamos aprender a lidar com pessoas. "Muita gente faz cursos de informática, inglês, comércio exterior e tantos outros, mas poucos fazem cursos para entender o mais importante: gente. E o mundo é formado por gente. Fazer as pessoas trabalharem é fácil, qualquer feitor de escravos sabe como fazê-lo. Porém, ajudar a desabrochar seres humanos é trabalho para os jardineiros de Deus"

(A Revolução dos Campeões, de Roberto Shinyashiki, págs. 141 e 142).

Muitos de nós ocupamos posições de liderança em algum lugar e de alguma maneira. Na igreja, no trabalho, em casa, etc. A pergunta é: Sabemos lidar com as pessoas? Seja qual for a nossa esfera de ação, temos sido jardineiros de Deus? Temos ajudado as pessoas a desabrocharem como seres humanos?

Daniel foi elogiado por Deus não apenas por ser administrador excelente, mas por ter tato, cortesia e bondade de coração. Por ser um jardineiro de Deus.

Quem sabe se nós um dia — naquele dia, ao nos encontrarmos entre os salvos não vamos ouvir de Deus: "Meu filho, você soube como tratar as pessoas, foi amado por elas e esse é o significado do evangelho. Eu também o amo muito; por isso, você está aqui."

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Desvendando Mateus 27

Somente Mateus relata esse fato relacionado com a crucifixão e a ressurreição de Jesus. O verso 53 de Mateus 27 diz: "E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dEle, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos."

O texto é claro: os santos ressuscitados nessa ocasião não saíram da sepultura antes de Jesus ressuscitar. Diz o Espírito de Profecia:

"Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e, ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente. Eram os que haviam colaborado com Deus, e que à custa da própria vida tinham dado testemunho da verdade. Agora deviam ser testemunhas dAquele que os ressuscitara dos mortos." — O Desejado de Todas as Nações, pág. 786. "Eram escolhidos e santos de todos os tempos, desde a criação até os dias de Cristo... . Aqueles ressuscitados diferiam na estatura e formas, sendo alguns mais nobres do que outros, em seu aspecto." — Primeiros Escritos, pág. 184.

O fato de o terremoto ter fendido pedras e aberto sepulturas no momento da morte de Jesus, não quer dizer que alguns santos ressuscitaram antes de Ele ressuscitar. Eles saíram da sepultura, como primícias de Seu poder, tão logo Ele saiu da tumba. Notemos, agora, a diferença entre os que Jesus ressuscitou durante Seu ministério e os santos que saíram da sepultura no momento de Sua vitória sobre a morte. Diz Ellen White:

"Durante Seu ministério, Jesus ressuscitara mortos. Fizera reviver o filho da viúva de Naim, a filha do principal, e Lázaro. Estes não foram revestidos de imortalidade. Ressurgidos, estavam ainda sujeitos à morte. Aqueles, porém, que ressurgiram por ocasião da ressurreição de Cristo, saíram para a vida eterna. Ascenderam com Ele, como troféus de Sua vitória sobre a morte e o sepulcro. Estes, disse Cristo, não mais são cativos de Satanás. Eu os redimi. Trouxe-os da sepultura como as primícias de Meu poder, para estarem comigo onde Eu estiver, para nunca mais verem a morte nem experimentarem a dor." - O Desejado de Todas as Nações, pág. 786.

A ressurreição de uma multidão de santos foi uma demonstração do poder de Jesus sobre a morte. Ao longo do tempo, tantos os que foram ressuscitados como os trasladados sem ver a morte, tiveram esse privilégio na virtude da vitória que Cristo teria sobre os grilhões da morte.

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Deus mata pessoas?

Frank B. Holbrook

Será que Deus mata pessoas? No sentido de assassinar? É lógico que não. Ele proíbe tal ato no sexto mandamento (Ex. 20:13). E no sentido de uma execução judicial? Sim. Mas mesmo em tal caso, "o Juiz de toda a Terra" (Gên. 18:25) sofre profundamente. "Dize-lhes: 'Tão certo como Eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer...?"' Ez. 33:11.

Alguns cristãos sinceros argumentam que a execução de pecadores impenitentes por parte de Deus é contrária à Sua natureza de amor. Esse tipo de argumento pretende exaltar o caráter amorável de Deus, mas, na realidade, o deprecia. O amor de Deus é santo, não indulgente ou sentimental. O salmista diz: "Justiça e direito são o fundamento do Teu trono; graça e verdade Te precedem" Sl. 89:14. Amor e justiça são dois lados da mesma moeda e precisam ser colocados no devido equilíbrio. Que tipo de segurança teríamos no governo civil se o governo não pudesse punir os infratores da lei? Ou se o governo deixasse que os criminosos destruíssem a si mesmos? Deus não é menos justo e ordeiro do que o ser humano!

A opinião de que Deus não executará o impenitente O destitui da soberania em Seu Universo. Seria verdadeira justiça permitir que um pecador se auto-destruísse fisicamente? Considere um exemplo extremo: O ditador Adolf Hitler morreu com sangue de milhões de pessoas inocentes em suas mãos. Será que o universo dos leais e redimidos ficaria verdadeiramente satisfeito se no juízo Deus dissesse a Hitler: "Você, Hitler, é um homem ímpio e perdido. Eu o sentencio a morrer da maneira que você desejar, pode ser por suicídio ou que você seja ferido por alguém que esteja perto de você e também esteja condenado. Eu não vou tocá-lo, pois Eu sou amor?" Que pensariam as vítimas deste criminoso? Veria o Universo qualquer justiça em tal sentença.

Conquanto a destruição dos ímpios seja mencionada como o "estranho ato" de Deus (Is. 28:21, ARC), a verdadeira justiça requer punição e execução apropriadas. "[Deus] recompensará cada um segundo as suas obras." Rm. 2:6. Tormento infindável não é justiça. Mas a justiça requer castigo adequado pêlos pecados e crimes que o impenitente tenha cometido.

Amor e justiça são dois aspectos do caráter divino. É o santo amor que finalmente torna o Universo seguro.

Os anjos não vêem injustiça no fato de Deus punir diretamente os ímpios. As sete últimas pragas são descritas como "a ira de Deus" (Ap. 15:1). Depois de derramar a terceira praga (água se transformando em sangue), diz o anjo a Deus: "Justo és Tu, ó Senhor, que és, e que eras, e santo és, porque julgaste estas coisas. Visto como derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também Tu lhes deste sangue a beber; porque disto são merecedores." Em resposta a estas palavras o profeta ouve outra voz dizer: "Na verdade, ó Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos são os Teus juízos" (Ap. 16:5-7).

Deus é frequentemente comparado com um pai. Um pai amoroso e justo às vezes castiga o filho desobediente. Não é errado um pai exercer juízo diretamente. Espera-se que o faça. No caso do pecado, dois princípios lutam pela soberania: o princípio do amor altruísta e o princípio do egoísmo egocentrismo. Eles não podem coexistir. A divindade determinou

juízo sobre o pecado: separação e morte eterna. Rm. 6:23.

Unicamente Deus, a Fonte de vida, tem o direito e autoridade de privar um ser vivente de sua vida. Aos que escolheram permanecer rebeldes e impenitentes. Ele terá que punir de acordo com seus atos e privá-los da própria vida. Isto é simples justiça e misericórdia. Tais pessoas prefeririam morrer a ter que viver na santa atmosfera da Nova Terra - a qual eles rejeitaram enquanto estiveram neste planeta. Por isso a advertência de Cristo:

"Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo." (Mt. 10:28, cf. Hb. 10:30 e 31).


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Orientação divina na tradução da Septuaginta

Ruben Aguilar

A Septuaginta é a mais antiga versão grega do Velho Testamento. Sua tradução do hebraico foi um trabalho de erudição feito por judeus, e considera­da primeiramente por eles, como obra de suma estimação. Escrito­res judeus como Philo e Josefo a usaram preferentemente, senão exclusivamente nas suas obras. A Septuaginta foi instrumento de su­prema importância na expansão e preservação do judaísmo, pois os judeus que, afetados pela Diáspora, moraram distantes da terra dos seus pais, tiveram na Septuaginta estímulo suficiente para guardar fidelidade à “Lei” (Torah).

Foi através da Septuaginta que o mundo grego, pela primeira vez teve contato com a revelação do Velho Testamento, dando oportunidade para os não-judeus estudarem os escritos hebraicos. “A atitude mais generalizada entre os gregos que tiveram conhecimento do Velho Testamento (Septuaginta), foi considerar que este livro e o Cosmos estão relacionados mutua­mente e devem ser entendidos jun­tos.” (1)

A Septuaginta tornou-se um meio de levar o conhecimento da religião judaica para o vasto mun­do gentílico, com importantes re­sultados na conquista de prosélitos. Foi através da Septuaginta que as profecias relativas ao pro­metido Messias tornaram-se co­nhecidas na linguagem universal, cerca de 300 anos antes do nascimento de Cristo. Além disso, aplainou o caminho para o advento do cristianismo e das missões cris­tãs.

Durante o alvorecer do cristia­nismo, a Septuaginta foi as Sagra­das Escrituras, tanto dos cristãos como dos judeus, em razão do grego ser a língua amplamente falada naqueles dias. Usada pela igreja primitiva como estandarte na difu­são da sua mensagem, a Septua­ginta capacitou-a, por isto, a descobrir um ponto de contato (Atos 8:26-40) entre os gentios que pre­viamente foram atingidos com o seu conhecimento. (2)

Em relação ao surgimento da “Vulgata Latina”, Agostinho afir­ma que Jerônimo usou a Septua­ginta na sua estrutura canônica, e não o hebraico original, como base para sua tradução. (3) Orígenes de Alexandria incluiu a Septuaginta na sua monumental obra de compi­lação escriturística denominada Héxapla (230-240 AD). O impera­dor Constantino, convertido ao cristianismo, na sua homília, du­rante o Concilio de Nicéia (325 AD), recomendou ao mundo cris­tão a leitura da Septuaginta como fundamento dos princípios da fé e para resguardar-se das heresias.

Muitos vocábulos bíblicos do ori­ginal hebraico, ao serem traduzi­dos para o vernáculo, sofreram alterações de interpretação que so­mente, graças à linguagem da Sep­tuaginta, são esclarecidos e interpretados com exatidão para se co­nhecer a vontade de Deus.

A produção da magna obra, que é a Septuaginta, pelos resultados gerados, faz parte dos eventos proféticos que convergem principal­mente no advento de Cristo a este mundo. Esta asserção encontra-se alicerçada na análise histórica e na interpretação profética dos aconte­cimentos que precederam o início de nossa era. A interpretação dos fatos históricos que emolduram o surgimento da Septuaginta, evita o vaticínio após o evento, que minimiza a sua influência, deixando, porém, expostos claramente, os si­nais providenciais de Deus, diri­gindo e orientando o afloramento desta obra.



A Expansão do Helenismo nos Desígnios Divinos:



É possível sentir de modo palpável a mão da Providência, conduzindo especificamente o surgimento da Septuaginta, desde a expansão do helenismo, graças às campanhas bélicas de Alexandre o Grande. Este gênio militar, embebido des­de a mocidade pelos conceitos filo­sóficos de seu tutor, Aristóteles, desenvolveu profunda reverência e amor por todas as expressões da cultura helênica: literatura, arte, beleza, e principalmente a lingua­gem grega (1 Cor. 1:22 ú.p.) Deus tinha um propósito quando determinou o curso da História. E a na­ção grega foi “chamada por Deus para realizar um trabalho — um es­pecífico trabalho”. (4)

Duzentos anos antes do estabe­lecimento desse império, Daniel re­presentava-o profética porém inteligivelmente, como o “ventre e os qua­dris de bronze da estátua do sonho de Nabucodonosor” (Dan. 2:32-35), ou como um leopardo com quatro asas nas suas costas (Dan. 7:6), ou mais conclusivamente, como o bo­de que vinha do ocidente sobre to­da a terra (Dan. 8:5-8). Na mesma linguagem simbólica, Alexandre é introduzido nos anais divinos, co­mo o “príncipe da Grécia” (Dan. 10:20) que “reinará com grande domínio” (Dan. 11:3). (5)

Contava Alexandre apenas 20 anos de idade (336 AC), quando co­meçou a iluminar o horizonte da História como fugaz estrela que brilha no zênite do firmamento e desaparece em rápido declínio. Em apenas oito anos de invictas batalhas Alexandre apossou-se dos confins do mundo conhecido: Granico, Ásia Menor, Issus, Tiro, Ga­za, Palestina, todo o Egito, Arbela, Babilônia, Susã, Báctria e Índia. No Egito, como por vaticínio, fun­dou Alexandria, cidade-berço da Septuaginta.

E notório o fato registrado por Josefo, ao relatar a chegada de Alexandre à cidade de Jerusalém no comando dos seus invencíveis esquadrões. (6) Tremenda consterna­ção apossou-se da população quando tornou-se conhecida a iminente chegada do guerreiro grego. En­tretanto o sumo sacerdote Judas, movido por um sonho noturno, de­cidiu enfrentar o conquistador. Ataviado com suas vestes sacerdotais e acompanhado por um séqui­to de sacerdotes em níveas vesti­mentas, aguardou a aproximação de Alexandre. Este, para surpresa das suas milícias e generais, cur­vou-se reverente diante do sacerdo­te, ao divisar o nome de Deus gra­vado na mitra do líder religioso. (7)

Alexandre permitiu aos judeus observar suas próprias leis, conce­deu exceção de tributos durante os anos sabáticos, e os estimulou a re­sidir em Alexandria, com privilé­gios iguais aos dos cidadãos gregos. (8) E compreensível, a partir deste fato, o interesse demonstra­do pelos gregos em adotar as for­mas e cerimônias de adoração dos judeus, e até a arquitetura do Templo de Jerusalém tornou-se um modelo imitado pelos artífices gregos.

Desta maneira, dois fatores im­portantes à difusão da Palavra Di­vina estavam já assentados: a universalidade do poder e linguagem gregos, e a influência da religião judaica no esquema do novo impé­rio. Porém, o cumprimento profé­tico dos eventos sucessivos a este prelúdio de domínio universal, de­terminaram com maior precisão o ambiente adequado à produção da Septuaginta. O onisciente Deus, que conhece os mistérios que en­volvem os acontecimentos históri­cos (Dan. 2:28), diante da hegemo­nia de um poder sustentado espiri­tualmente pelas falácias mitológi­cas e divagações filosóficas, pre­servou através da influência do Seu Espírito, na dinastia dos Pto­lomeus, a atmosfera espiritual ne­cessária à elaboração da Septua­ginta.

De fato, a mão do Criador e Sustentador estava guiando o suceder histórico na expansão do helenismo previamente fixado, e no esta­belecimento de uma dinastia capaz de permitir a difusão dos Escritos Sagrados em idioma internacional.



Selêucidas e Ptolomeus:



A morte prematura de Alexandre o Grande (323 AC), não houve her­deiro para ocupar o trono do conquistador, pois seu filho mais ve­lho contava apenas cinco anos de idade. O império era vastíssimo para ser dirigido por um líder im­provisado. Assim, durante 20 anos sucederam-se lutas intestinas en­tre oito generais insuficientemente fortes para suceder Alexandre, e que culminaram (302 AC) com a divisão do império em quatro reinos: Ptolomeu tomou o Egito; Se­leuco apoderou-se da Síria e de to­da a região Leste; Lisímaco apos­sou-se da Trácia e Ásia Menor; e Cassandro ficou com a Grécia. Pou­cos anos depois, Lisímaco apodera­va-se da Grécia, para depois (281 AC) ele mesmo sucumbir aos embates de Seleuco, reduzindo a dois os governos sucessórios do impé­rio grego: Selêucidas e Ptolomeus. Jerusalém e toda a Palestina fi­cavam sob o governo dos Ptolo­meus, que demonstraram grandes favores para com o povo, judeu; não assim os Selêucidas, quando foi a sua vez de dominar a terra de Israel.

A dinastia dos Selêucidas, fun­dada por Seleuco 1 (Nicátor), um dos generais de Alexandre, teve uma sucessão de governantes de nome Seleuco e Antíoco, com clara ambição de manter sob seu contro­le a cidade de Jerusalém. Isto aconteceu em 199 AC, quando An­tíoco III, cognominado “O Gran­de”, venceu os Ptolomeus na bata­lha de Paneion, transferindo para seus domínios o território da Pa­lestina. Antíoco III mostrou-se ini­cialmente generoso com o povo ju­deu. Reduziu a um terço os tributos da população de Jerusalém e providenciou meios para reconstruir o Templo. (9) Esta estratégia política produziu os resultados propostos, ao conseguir que vários líderes judeus estimulassem a helenização da Palestina, despertando, não obstante, patentes repulsas entre os mais ortodoxos.

A crise chegou ao seu clímax durante o reinado de Antíoco IV, Epifanes. Onias, sumo sacerdote em Jerusalém, foi despojado do seu cargo por judeus favorecidos política e financeiramente pelo novo governo. Jason, judeu adepto do helenismo, intitulou-se a si próprio sumo sacerdote, concedendo grandes tributos a Antíoco IV em troca de proteção e outros privilégios. Jason estimulou a construção de um ginásio em Jerusalém, favoreceu a implantação de práticas gregas, e identificou muitos lugares públicos com nomes gregos. Menelau, um benjamita, adquiriu o título de sumo sacerdote pagando um tributo maior do que Jason.

Os judeus ortodoxos, que ficaram escandalizados quando Jason foi nomeado sumo sacerdote, demonstraram profunda consternação quando Menelau, um benjamita, aspirou ao sumo sacerdócio.

Levantou-se, então, uma disputa entre facções de judeus, muito bem aproveitada por Antíoco Epifanes. Este rei avançou sobre Jerusalém (169 AC), num dia de sábado — quando os ortodoxos não poderiam se defender — matando grande número de judeus contrários a Menelau. Os muros e as fortalezas da cidade foram destruídos, e removidos todos os traços da fé ortodoxa. O Deus de Israel foi identificado com Júpiter, e uma

imagem esculpida com barba abundante — deidade pagã — foi erigida no altar do Templo (6 de dezembro de 167 AC). (10) No mesmo altar foram oferecidos escarnecedores sacrifícios de porcos, substituindo a imolação de cordeiros. Os judeus foram proibidos, sob pena de morte, de praticar a circuncisão, observar o sábado ou celebrar as festas religiosas do calendário judaico. Muitas cópias das Sagradas Escrituras foram destruídas e queimadas. A cidade tornou-se uma colo,ia militar, onde a lei de segurança era aplicada com

muita crueldade. Um idoso escriba chamado Eleazar, foi "flagelado até morrer por ter-se negado a tos da população de Jerusalém e consumir carne de porco”. (11)

Guardas militares foram designados em todo o território judeu para fiscalizar a celebração de sacrifícios pagãos, e induzir os judeus a tais práticas, por meio de força. "Por causa destes, os residentes de Jerusalém fugiram; ela tornou-se guarida de estranhos" (I Mac. 1:38).

No primeiro livro de Macabeus (livro apócrifo), encontra-se o relato da enérgica posição assumida

pelo sacerdote Matatias, quando compelido por um oficial grego, a oferecer sacrifício pagão. Um outro sacerdote, temeroso das conseqüências, ofereceu o sacrifício.

Matatias, apesar de idoso, avançou decidido contra o oficial e o apóstata dando-lhes cruenta morte. Matatias e seus cinco filhos organizaram então, uma resistência bélica, conhecida com o nome de

Revolta dos Macabeus, a qual, em levantamentos esporádicos, persistiu até o início da hegemonia romana.

Sob o domínio dos Selêucidas, a preservação das Sagradas Escrituras e sua tradução à língua corrente, seria impossível. O desígnio de Deus, porém, permitiu que outro ramo do mesmo tronco — os Ptolomeus - garantissem as condições favoráveis para a tradução da Septuaginta.

A dinastia dos Ptolomeus iniciou-se em 320 AC, com o governo de Ptolomeu I, providencialmente cognominado Soter, que significa "salvador". Teve seu centro administrativo em Alexandria, onde os judeus tiveram tratamento humanitário, e onde a religião e o pensamento judaicos transformaram-se em

verdadeiros focos de propagação.

Os judeus da Palestina desfrutaram de florescente período de prosperidade sob o domínio dos Ptolomeus. Os tributos eram pagos para o governo estabelecido no Egito, porém os assuntos da comunidade judaica eram administrados pelo sumo sacerdote. A grande figura deste período foi Simão o Justo, o qual é descrito no apócrifo Livro Eclesiástico como "grande entre seus irmãos e glória do seu povo". Simão reparou os muros da

cidade e o Templo de Jerusalém, dirigindo ao mesmo tempo, a construção dum grande reservatório

d'água para suprir as necessidades deste elemento durante as estações secas. No entanto, nenhuma expressão da fé judaica teve maior penetração e influência no ambiente pagão, do que a tradução da Septuaginta.



A Tradução da Septuaginta:



O relato sobre as circunstâncias que envolveram a tradução da Sep­tuaginta, é extraído dos escritos de Josefo e de urna antiga carta do sé­culo II AC, supostamente escrita por alguém chamado Aristéias, e enviada ao seu irmão Filócrates. Nesta carta é referido o conselho que Ptolomeu II Filadelfo recebera de seu bibliotecário, no sentido de obter uma tradução das Escrituras Hebraicas para a sua biblioteca real.

Ptolomeu Filadelfo, amante das artes e das letras, solicitou do su­mo sacerdote Eleazar, de Jerusa­lém, que lhe enviasse um grupo de judeus eruditos e versados nas duas línguas com uma cópia fidedigna da “Lei” (Torah). Os esco­lhidos foram 72 judeus, represen­tando as doze tribos de Israel, os quais, chegando à Alexandria, foram recebidos com muitas honra­rias e hospedados isoladamente em aposentos da ilha de Pharos. Terminada a tradução, esta foi lida diante de massiva concentração de judeus e gregos, e entregue ao rei, entre frenéticos aplausos e salvas.

Jerônimo, padre da igreja cristã, relata que cada um dos tradutores fora colocado em aposentos separados, e que, logo após a conclusão do trabalho, as versões acharam-se miraculosamente idênticas. (12)

Deus orientou e levou a efeito cada um dos eventos, previamente pressagiados, que envolveram o surgimento desta monumental obra, a Septuaginta. Foi erigida para tes­temunhar da originalidade e autori­dade do texto hebraico, e para man­ter a ligação da Palavra Divina com o classicismo de todas as épocas.



Referências:



1. Würthwein, Ernst. "The Text of the Old Testament" (Eerdmans Pub. Co. Michigan, 1979), pág. 49.

2. Septuaginta; edidit Alfred Rahifs (Privilegieite Württembergische Bibelans Talt. Stuttgart, 1952), pág. xxii.

3. Würthwein, Ibid.

4. Haskell, Stephen N. "The Story of Daniel the Prophet" (Review & Herald, Reprint by Heritage Library, Tenn. 1977), pág. 180.

5. Haskell, Op. cit., pág. 184.

6. Comentaristas modernos como John Hayes, estendem um manto de dúvida sobre o relato de Josefo.

7. Haskell, Op. cit., pág. 186.

8. The Holy Bible; It is Written Seminar Edition (Thomas Nelson Inc., Publishers, Tenn. 1975), pág. 856.

9. Hayes, John & Maxwell, J. Miller. "Israelite and Judaean History (The Westminster Press, Philadelphia, 1977), pág. 577.

10. The Holy Bible: It Is Written Sem. Edition, pág. 858.

11. Ibid.

12. Kagan, Donald: "The Western Heritage" (MacMillan Pub. Co. Inc., N.Y., 1979), pág. 166.

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Atitudes na oração

"Através de todas as eras em todas as religiões os fiéis aproximam-se de Deus com reverencia e veneração. Quando observamos adoradores em religiões não-cristãs na África. Ásia ou Oriente Próximo, sempre os encontramos encurvados, ajoelhados ou mesmo tocando o chão com a fronte e com as mios postas. Por que deveria ser de outra forma com os filhos de Deus? (1)

Onde nos dirigimos a Deus em oração, é nosso dever e privilégio fazê-lo reverentemente. Devemos humilde e solenemente inclinar-nos diante dEle em atitude de absoluta dependência.

As sagradas Escrituras indicam qual deve ser nossa postura ao orar a Deus, como indicado pelas seguintes passagens da Bíblia:

"Ele, por sua vez, se afastou, cerca de um tiro de pedra, e, de joelhos, orava". Lc . 22: 41.

"Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles". At. 20: 36.

"Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou" . Sl. 95: 6.

Ademais, há outros textos bíblicos correlatos que a irmã White indica em passagens deste mesmo capítulo. Como povo de Deus, temos sido beneficiados pelos dons do Espírito. Refiro-me especialmente ao Espírito de Profecia. A Sra. White nos oferece uma orientação valiosa no que diz respeito i forma correta em que devemos nos aproximar de Deus no culto público.

Durante o Serviço de Adoração

"Quando o ministro entra, deve fazê-lo com o semblante solene e digno. Deve curvar-se em oração silenciosa assim que sobe ao palpito, e ferventemente buscar o auxílio de Deus. Que impressão fará isto! Haverá solenidade e temor sobre o povo. Seu ministro está comungando com Deus; está-se entregando a Deus antes de ousar colocar-se perante o povo. Solenidade repousa sobre todos e anjos de Deus são trazidos bem próximo". (2)

Enquanto o ministro está ocupado em oração silenciosa fazendo súplicas a Deus por Sua divina presença eu ajuda, o povo deve também unir-se ao ministro em oração silenciosa.

"Cada um da congregação, também, que teme a Deus, deve com a cabeça baixa unir-se em oração silenciosa com ele para que Deus possa agraciar a reunião com Sua presença e dar poder a Sua verdade proclamada por lábios humanos." (3)

Ao começar o culto de adoração, a oração inicial deve ser feita de joelhos. Não devemos ser descuidados nisto.

"Quando a reunião ~ iniciada pela oração todo joelho deve se dobrar na presença dAquele que é santo, e todo coração deve elevar-se a Deus em devoção silenciosa". (4)

Ajoelhemo-nos

A irmã White recebia cartas interrogando-a com respeito atitude correta a ser tomada por uma pessoa que oferece uma oração ao soberano do Universo. Ela perguntava. "Onde nossos irmãos obtiveram a idéia de que devem ficar de pé enquanto estão orando a Deus? Um que tinha sido educado por cerca de cinco anos em Battle Creek foi solicitado a dirigir a oração antes da irmã White falar ao povo. Mas quando o contemplei ereto, de pé, enquanto seus lábios estavam para se abrir em oração a Deus, minha alma agitou-se dentro em mim para reprova-lo abertamente. Chamando-o pelo nome eu disse: 'Abaixe-se sobre seus joelhos: Esta E a posição própria sempre". (5)

Como continuação, com o intuito de reforçar sua declaração prévia, a irmã White cita a Bíblia: "Mas Pedro, tendo feito sair a todos, pondo-se de joelhos, orou; e voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te. Ela abriu os olhos e, vendo a Pedro, sentou-se". At. 9:40.

"E apedrejavam a Estevão que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu". At. 7: 59, 60.

Além disso, ela cita os seguintes textos bíblicos At. 20: 36; At. 21: 5; Ed. 9: 5. 6; SI. 95:6; e Ef. 3: 14.

"Inclinar-se quando em oração a Deus é a posição correta a tomar. Este ato de adoração foi requerido dos três cativos hebreus em Babilônia. . . Mas tal ato era uma homenagem a ser prestada unicamente a Deus, - o soberano do mundo, o Governador do universo; e estes três hebreus recusaram-se a dar tal honra a qualquer ídolo, mesmo que feito de ouro puro." (6)

"E quando vos congregais para adorar a Deus, certificai-vos de dobrar os joelhos perante Ele. Que este ato testifique que toda a alma, corpo e espírito estão sujeitos ao Espírito de Verdade". (7)

"Tanto no culto público quanto no particular E nosso privilégio pôr-nos de joelhos diante do Senhor quando oferecemo-lhe nossas petições. Jesus, nosso exemplo. 'de joelhos, orava" (Lc. 22: 41). De seus discípulos E registrado que eles também se ajoelhavam e oravam. 'Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai". (Ef. 3: 14). Ao confessar diante de Deus os pecados de Israel, Esdras se ajoelhou. Daniel 'três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante de seu Deus". (8)

Devemos orar de maneira distinta e reverente porque esta­mos falando com o Santo, o Criador do Universo e o Todo-Poderoso.

Embora geralmente os ministros, oficiais e membros da igreja ao redor do mundo atendem a este conselho, não obstante e ato único de dobrar os joelhos diante de Deus não indica necessariamente que estamos sendo reverentes. Ocorre algumas vezes que assumimos uma atitude imprópria ao orar por deixar os olhos abertos, inclinar-nos sobre os bancos e fazer movi­mentos e gesticulações com as mãos e o corpo. Muitas vezes dobramos os joelhos na igreja mas o coração nega-se a inclinar-se diante de Deus em reconhecimento de nossa absoluta dependência dEle.

"Alguns pensam que é um sinal de humildade orar a Deus de maneira comum, como se estivessem falando com um ser humano. Eles profanam Seu nome ao misturar com suas orações, desnecessária e irreverentemente. as palavras 'Deus Todo-Poderoso' - palavras terríveis e sagradas, que nunca devem passar pelos lábios humanos, exceto em tons submissos e com um sentimento de temor". (9)

"A verdadeira reverência por Deus e inspirada por um senso de Sua infinita grandeza e uma conscientização de Sua presença. Com o senso do Invisível, todo coração deve ser profundamente impressionado. O lugar e hora da oração são sa­grados, porque Deus está 1á; e como a reverência é manifesta em atitude e comportamento, o sentimento que a inspira será aprofundado". (10)

As Orações Públicas Devem Ser Curtas

Embora saiba-se, geralmente que as oraç3es publicas devem ser breves e objetivas, vale a pena, não obstante, ouvir o Espírito de Profecia sobre este ponto.

"Cristo imprimiu sobre seus discípulos a idéia de que suas orações deviam ser curtas, expressando justamente o que eles queriam, e nada mais... Um ou dois minutos é tempo suficiente para qualquer oração normal". (11)

"Quando orais , sede breves, ide direto ao ponto. Não pregueis ao Senhor um sermão em vossas longas orações". (12)

Os Olhos Devem Estar Fechados

"Parece que a idéia de os crentes orarem com os olhos abertos. como se olhassem ao céu, é uma das mentiras baratas de Satanás.... O Senhor não Se agrada quando Seu povo, que tem recebido tão grandes e nobres verdades de Sua palavra, permitem que suas mentes se demorem em fábulas fracas e tolas". (13)

Usar Linguagem Simples

"Linguagem bombástica é inapropriada para a oração, quer a petição seja oferecida no púlpito, no circulo familiar ou em secreto. Especialmente deve aquele que faz uma oração pública usar linguagem simples, para que outros possam entender o que é dito e unir-se à petição". (14)

Achegar-se a Deus em oração de joelhos e com solenidade não nos fará mais santos nem mais dignos diante de Deus, mas nos ajuda a reconhecer nossa condição caída sob o pecado, nossa insuficiência e nossa absoluta dependência dEle.

II. DEVEM OS ADORADORES AJOELHAR-SE EM TODAS AS ORAÇÕES PÚBLICAS?

Todos concordamos que a melhor maneira na qual devemos nos apresentar a Deus é ajoelhando-nos diante dEle. Além disso, tal ocasião requer uma atitude total de solene reverência.

Não obstante, algumas das declarações concernentes a "atitude em oração" feitas por Ellen White têm sido interpretadas por alguns crentes sinceros como indicações de que todas as orações devem ser feitas de joelhos sem exceção. Isto quer dizer que as orações que geralmente fazemos de pé durante o culto de adoração, tais como a invocação e a bênção final devem também ser feitas de joelhos para serem eficazes.

É interessante estudar o contexto de tais declarações, que algumas vezes parecem enérgicas, para descobrir a razão da vigorosa admoestação. Por exemplo, no cap. um desta obra, citamos o caso de um que tinha estudado por cinco anos em Battle Creek e em uma reunião pública estava apresentando a oração inicial de pé. A irmã White chamou-o pelo nome e disse-lhe: "Recline-se sobre seus joelhos. Esta é sempre a posição correta". (Veja II ME, 34).

Comentando sobre este caso, a irmã White amplia sua censura, fazendo-a mais geral, desde que já havia penetrado em nossas igrejas e escolas um espírito de negligência em orações públicas a nosso Deus.

Contexto das Declarações de E.G. White

"Apresento como prova estes textos, com a pergunta, 'Onde o irmão H obteve sua educação?'- Em Battle Creek. Será possível com toda a luz que Deus tem dado a Seu povo sobre o assunto de reverência, que ministros, diretores e professores em nossas escolas, por preceito e exemplo, ensinem aos jo­vens a ficar de pé na devoção como faziam os fariseus? Olharemos para isto como expressivo de sua auto-suficiência e auto-importância? Devem esses traços torna-se em eméritos?" (15)

"Esperamos que nossos irmãos não manifestarão menos reverência e temor enquanto se aproximam do único Deus vivo e verdadeiro, do que os pagãos manifestam por suas divindades idolátricas. ou estas pessoas serão nossos juizes no dia da decisão final. Quero falar a todos os que ocupam o lugar de professores em nossas escolas, homens e mulheres, não façais desonra a Deus por vossa irreverência e pompa. Não vos ponhais de pé em vosso farisaísmo e ofereçais vossas orações a Deus. Desconfiai de vossa própria força. Não dependais dela, mas frequentemente colocai-vos sobre vossos joelhos diante de Deus, e adorai-O". (16)

Está claro que nestas declarações - a irmã White não está discutindo o assunto de se é necessário fazer todas as orações públicas de joelhos, já que em algumas escolas e particularmente Battle Creek, um espírito descuidado e irreverente tinha se infiltrado entre os professores bem como entre os ministros, e assim eles estavam ensinando aos alunos por preceito e exemplo.

A função do Espírito de Profecia é edificar e guiar a igreja e aqui vemos um exemplo desta função.

Embora tenhamos enfatizado no capítulo anterior, repetimos aqui que devemos ser muito mais reverentes diante do Senhor em todos os tempos, não apenas no culto público; contudo, necessário que não confundamos os meios com o fim. Isto quer dizer, a oração é o meio através do qual comunicamo-nos com Deus; não é um fim em si mesma. Ninguém deve estabelecer a regra de que todas as orações devem ser feitas de joelhos por­que podemos facilmente cair no erro do formalismo, honrando mais a postura do que Deus.


Creio que o aspecto mais Importante desta questão é o exemplo na vida da irmã White.

Atitude Pessoal de Ellen G. White

"Na Conferência Geral de 1909, Ellen White falou um dia, e enquanto finalizava seu discurso, disse isto: Que o Senhor vos ajude a lançar mão desta obra como nunca o fizestes antes. Fareis isto? Erguer-vo-eis aqui e testificareis que fareis de Deus vosso auxilio e esperança? (A congregação se pôs de pé e ela orou)". (17)

"Esta experiência não é um caso isolado. Ellen White fa­lou na igreja em Oakland, Califórnia em 7 de março de 1908. Ao finalizar seu sermão, ela convidou a congregação a responder a seu apelo levantando-se. Então ela orou. Damos o registro do apelo e o inicio da oração, como se acha em nossas fichas"

"Agora solicitamo-nos que busqueis o Senhor de todo o coração. Que aqueles que estão determinados a desvencilhar­-se de toda tentação do inimigo e buscar o céu, demonstrem tal determinação colocando-se de pé". (Quase toda a congregação respondeu). (18)

Na Igreja de Oakland no ano seguinte, 8 de fevereiro de 1909, ela falou sobre a necessidade do Espírito Santo em nossas vidas. Ela finalizou o discurso com um apelo. Novamente citamos do registro do manuscrito:

"A menos que façais determinados esforços por vós mesmos o Espírito Santo não virá sobre sôs. . . Quem agora, pergunto, fará um esforço determinado para obter a educação mais elevada? Aqueles que quiserem, manifestem-no colocando-se de pé, (A congregação se levantou). Aqui está toda a congregação. Que Deus possa ajudar-vos a manter vossa promessa. Oremos". (19)

Em 1934, o pastor D.E. Robinson respondendo a uma pergunta similar àquela que está sendo considerada neste capítulo, fez a seguinte declaração:

"Tenho estado presente repetidas vezes em reuniões campais e sessões da Conferência Geral nas quais a própria irmã White tem feito orações com a congregação de pé, e ela própria de pé". (20)

E o pastor Robinson acrescentou na mesma carta:

"O pensamento de que na benção final o pastor e a congregação devem ajoelhar-se não é em parte alguma declarado nos Testemunhos ou na Bíblia". (Veja II Cr. 6: 3; I Rs. 8: l4, 22; Lv. 9: 22)." (21)

Declarações de W. C. White

"Tenho estado associado com a irmã White por muitos anos em seus labores e nunca soube que ela aconselhasse as pessoas a ajoelhar-se durante a benção final. Estive com ela muitas vezes quando a bênção final foi dada da maneira usual e ela parecia aprová-lo inteiramente". (22)

"É verdade que tem havido ocasiões em que reuniões muito solenes eram terminadas por oração na qual a congregação se ajoelhava, mais isto era muito excepcional e muito incomum." (23)

Ajoelhar-se em oração é ao máximo recomendado pela Bíblia e o Espírito de Profecia. Não obstante, não encontramos qual­quer declaração quer na Bíblia ou nos escritos da irmã White que indique ser esta a única forma na qual podemos nos aproximar de Deus no culto público. A irmã White foi testemunha de orações feitas de pé, tais como a invocação e a bênção final e não pronunciou qualquer objeção. Mesmo ela própria fez estas orações de pé em várias ocasiões.

"Nem sempre é necessário colocar-vos sobre vossos joelhos a fim de orar. Cultivai o hábito de falar com o Salvador enquanto andais e quando estais ocupados com a lida diária". (24)

CONCLUSÃO

Nesta pequena monografia, a inegável necessidade ser reverentes e solenes quando dirigimos nossas orações a Deus durante o culto público é expressa. No capítulo 1, demonstrou-se qual é a postura correta para oração... quer dizer que devemos manter o costume de ajoelhar-nos em sinceridade sem formalismo para a oração no culto público, e com um espírito de súplica e completa dependência de Deus.

Não obstante, ficou claro no capitulo dois que nem todas orações que fazemos em publico devem necessariamente ser feitas de joelhos. Ademais, mostrou-se que devemos nos guardar de fazer disto um fim em si mesmo, nem ocasionar desunião na igreja por um espírito intransigente.

A Sra. White estava certa e fez bem ao enfatizar a oração de joelhos. Está é a melhor postura para nos dirigirmos a Deus. Mas esta ênfase não é uma indicação de que todas as orações devem ser feitas de joelhos. A irmã White teve ocasiões de consagração nas quais ficou de pé com a congregação. Ela fez a oração final em diferentes ocasiões e permaneceu de pé para estas orações. O problema é que ela notou um "crescente relaxamento" nesta área de culto e achou necessário censurar os culpados. Este conselho dado meio século atrás ainda aplica-se a nossos dias.

Graças a Deus porque o Espírito de Profecia tem sido uma bênção constante para a edificação da igreja. Quão gratos devemos ser de que ele tem-nos orientado para uma profunda reverência e. ao mesmo tempo, nos protegido de um fanatismo destrutivo.

Referências:

1. Pastor Stuttgart-Sillenbuch, "Posture While Praying", The Ministry, (abril 1966), pp. 35-36.

2. Ellen G. White, Testimony Treasures (3 vols.; Califórnia: Pacific Press Publishing Association, 1949), II p. 195.

3. Idem

4. Idem

5. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. II, p. 311.

6. Idem, p. 132.

7. Idem, p. 314.

8. Ellen G. White, Gospel Workers (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Assn., 1948), p. 178.

9. Idem, p. 177.

10. Idem, p. 178.

11. Ellen G. White, Testimonies for the Church (9 vols.; Califórnia: Pacific Publishing Assn., 1948), II, p. 518.

12. Idem, V, p. 201

13. Ellen G. White, Manuscript Release nº 167, February 21, 1901 (Califórnia), p. 3.

14. Ellen G. White, Gospel Workers, p. 177.

15. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, II, p. 313.

16. Idem, p. 314

17. Ellen G. White Publications Office Document, A. L. White, Standing for Prayer (Washington, D.C.) February 17, 1960, p. 1.

18. Idem

19. Idem, p. 1, 2.

20. Carta, D. E. Robinson para Willian H. Daylish, 4 de março de 1934, Andrews University Theological Seminary, Ellen G. White State, Harper Letter File.

21. Idem

22. Carta, W. C. White para S. T. Borg, 2 de março de 1934, Andrews University Theological Seminary, Ellen G. White State, Harper Letter File.

23. Idem.

24. Ellen G. White; The Ministry of Healing (Califórnia: Pacific Press Publishing Association, 1942), p. 510-511.

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Análise de Jó 19:25 "eu sei que meu redentor vive"

Dr. Aristarcho Pinheiro Mattos

Respondendo a seus amigos, Jó dizia: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e por fim Se levantará sobre a Terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne ve­rei a Deus. Vê-Lo-ei por mim mesmo, os meus olhos O verão, e não outros.” Jó 19:25-27.

Como podem ser entendidas es­tas palavras? Qual, realmente, de­ve ser a aplicação primária destas declarações? Estaria Jó pensando em uma vida além-túmulo, por meio da ressurreição, ou será que ele esperava por alguém, que o socorresse, fazendo sua defesa, já em seus dias?

Na verdade, o texto de Jó, acima referido, é um dos mais difíceis de todo o Antigo Testamento. Muitos são os intérpretes que, perplexos, tentam achar caminho por entre estas palavras do texto sagrado. Já dizia o Prof. Meek que são tantas e variadas as interpretações dadas ao texto, que dificilmente seriam encontrados dois intérpretes que estivessem de acordo entre si, diante destas palavras de Jó. (1)

Clemente de Roma (I século de nossa era), foi o primeiro, dentre os escritores pós-apostólicos, a co­locar esta aludida passagem de Jó no contexto da ressurreição, (2) no que foi seguido por Orígenes. (3) De fato, o pensar em Jó 19:25-27 co­mo uma referência à ressurreição, é também uma constante desde os dias de Agostinho, cobrindo toda a Idade Média, até os dias da Reforma Protestante. (4)

“Porque eu sei que o meu Redentor vive.” Ao se buscar o texto original, observa-se que a palavra Redentor é tradução do vocábulo hebraico go’el. E uma pergunta se impõe: Para o semita, o que vem a significar a palavra go’el?

Esse termo hebraico é de uso exclusivo entre as línguas semíticas, tendo passado a ser hebraísmo a partir do Antigo Testamento, para línguas próximas. (5) Ocorre no texto hebraico cerca de 121 vezes. (6)

Em Israel o termo go’el fazia referência àquele parente mais chegado de uma pessoa, que conseqüentemente podia ser, não só ir­mão, tio, primo, mas um outro consangüíneo, “obrigado a defender esta pessoa e proteger seus direitos”. (7) Havia certas regras de conduta que se esperava fossem seguidas pelo go’el, em relação a um seu parente desvalido. De fato, no Antigo Testamento, a expressão go’el hadam é traduzida para vingador do sangue, como por exemplo, nestas passagens: Números 35:19 e seguintes, e Deuteronômio 19:6 e 12.

No livro de Rute, o termo go’el (com suas derivações gramaticais) aparece 23 vezes. Em forma substantiva, na sua maioria faz referência ao parente próximo de Noemi anônimo, o “remidor”, ou a Boaz. Aquele homem devia, de acordo com suas obrigações, resgatar a propriedade que fora de Elimeleque, o qual muito seguramente de­via ter tido algum problema, por causa de insolvência econômica (Lev. 25:24).

Cabia também ao remidor (go’el) a obrigação de casar-se com a viúva de seu parente, caso este não tivesse descendente, a fim de que seu nome não perecesse (Deut. 25:5). De acordo com o relato do livro de Rute, é sabido que o “pa­rente próximo” estava disposto a resgatar a propriedade, mas não queria casar-se com Rute (8), que no caso representava Noemi (Rute 4:1-6), deixando estas responsabilidades a cargo de Boaz (vs. 6-10).

Observa-se que, no transcorrer do tempo, dentro da mentalidade hebraica, paulatinamente todas es­tas obrigações redentoras foram transferidas do “parente próximo” para o rei, que como o Grande Go‘el do povo, devia salvar o pobre e oprimido, da mão do opressor. Falando do rei, assim escreve o salmista: “Porque Ele acode ao necessitado que clama, e também ao aflito e ao desvalido. Ele tem piedade do fraco e do necessitado, e salva a alma aos indigentes. Redime as suas almas da opressão e da violência, e precioso Lhe é o sangue deles.” (Sal. 72:12-14.) Ainda no livro de Provérbios há esta admoestação: “Não removas os mar­cos antigos, nem entres nos campos dos órfãos, porque o seu Vingador (Go’el) é forte, e lhes pleiteará a causa contra ti.” (23:10 e 11.)

E avançando um pouco mais, a transferência continuava, agora do rei para Yahweh, o Messias que havia de vir, como atestam as passagens de Salmos 19:15, 119:151- 154, Provérbios 22:23 e Jeremias 50:34.

O Messias vindouro devia encarnar em Si, e em Sua obra, todas as qualidades e obrigações próprias do go’e hebreu. De fato, o Messias é o nosso Grande Go ‘el, em quem podemos inteiramente confiar.

Voltemos mais uma vez ao texto de Já: “Porque eu sei que o meu Redentor (Go’el) vive, e por fim Se levantará sobre a Terra.” (Já 19:25.) A expressão “levantar”, como aparece no texto, pode ter a conotação ou o sentido do “levantar-se” de uma pessoa, em uma corte de justiça, para fazer a defesa de alguém. Isto pode ser visto, ao se fa­lar de Deus, quando Se levantou “para julgar, e salvar todos os humildes da Terra” (Sal. 76:9).

Nesta altura da exposição do te­ma, podemos formular uma pergunta: Quem seria este redentor de Já? Baseado no contexto histórico, pensa-se que aqui o go’el não pode ser aplicado a nenhum de seus filhos, uma vez que estes já eram mortos (1:13-19), e que de igual forma, não pode referir-se a parentes mais chegados, pois estes se tinham ausentado dele. (19:13 e 14.)

Indaga-se mais, insistindo: Dar-se-ia o caso de haver entre a sua parentela, alguém desconhecido de nós, mas no qual Já depositava toda a sua esperança, de um dia, ainda nesta vida, ser reivindicado, alguém que se “levantando” o de­fenderia? Ë bem provável que isto fosse correto. Já, no caso, nutria no coração a esperança de ver um dia terminado o seu drama, e mais ainda, que alguém, levantando-se, co­mo num tribunal, defendesse a sua inocência, julgando a sua causa.

Não obstante, não nos importa se Já estaria pensando em algum parente amigo, que ao se “levantar sobre a terra”, viraria o seu cativeiro, ainda nesta vida. Não impor­ta que Já mesmo não estivesse pensando na ressurreição. O importante é que a serva do Senhor toma esta passagem, em uma colo­cação secundária, é verdade, e a aplica em uma dezena de vezes a Jesus, como sendo o nosso Grande Redentor (Go’el). (9)

Jesus, o Nosso Redentor Se Jesus é o nosso “Parente próximo”, e cremos que sim, seria possível ver cumpridas nEle, para conosco, as obrigações impostas ao go’el? Com toda a ênfase, podemos responder “sim”. Com relação ao resgate do reino terrestre, uma vez usurpado por Satanás da mão de nossos primeiros pais, é- nos declarado assim, no Apocalipse: “Então ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora veio a salva­ção, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do Seu Cris­to.” (12:10.) E a reintegração de posse, de que falam os profetas antigos.

A serva do Senhor, ao tratar do tema da reintegração do reino, as­sim escreve: “Satanás, em virtude do êxito que obteve em desviar o homem do caminho da obediência, tornou-se ‘o deus deste século’. II Cor. 4:4. O domínio que uma vez pertenceu a Adão passou ao usurpador. Mas o Filho de Deus Se propôs vir à Terra a fim de pagar a penalidade do pecado, e assim não apenas redimir o homem, mas re­cobrar o domínio usurpado. E des­ta restauração que Miquéias profetizou quando disse: ‘A ti, á torre do rebanho, monte da filha de Sião, a ti virá; sim, a ti virá o primeiro do­mínio.’ Miquéias 4:8. O apóstolo Paulo a ela se referiu como a ‘redenção da possessão de Deus’. Efé. 1:14. E o salmista tinha em mente a mesma restauração final do homem em sua herança original quando declarou: ‘Os justos herdarão a Terra e habitarão nela para sempre.’ Sal. 37:29.” (10)

Notamos que como obrigações inerentes às suas funções, o go‘el não só comprava a propriedade que se perdera da mão do parente endividado, mas também o resgatava, caso se vendesse como escravo; e nós, por nada, nos vendemos a Satanás. No entanto, o nosso Redentor declara: “Por nada fostes vendidos; e sem dinheiro sereis resgatados.” (Isa. 52:3.) E João, o revelador, vê profeticamente, o momento apoteótico em que um cântico será entoado em louvor a Jesus, após Ele ter consumado a redenção eterna deste mundo: “Então ouvi que toda criatura que há no Céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Aquele eu está sentado no trono e ao Cordeiro, seja louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.” (Apoc. 5:13)

Aprendemos também que o go ‘el se casava com a viúva do parente morto, a fim de que o seu nome não desaparecesse de sobre a Ter­ra. Com isto em mente, verifica-se que esta figura se encontra de todo presente no esquema redentorista de Jesus (o nosso Go’el), quando a Escritura Sagrada fala do casa­mento dEle com a Igreja — Sua es­posa (II Cor. 11:2, Apoc. 19:7, 21:2 e 9). “Nunca mais te chamarão: Desamparada: nem a tua terra se denominará jamais: Desolada; mas chamar-te-ão: Hefzibá (Minha-delícia), e à tua terra: Beulá (Desposada); porque o Senhor Se delicia em ti; e a tua terra se desposará.” (Isa. 62:4.)

Observou-se linhas acima, que o go‘el, ou mais especificamente, o go‘el hadam, (traduzido algumas vezes para vingador do sangue), de­via de fato ser aquele que, uma vez ferido o parente, se incumbia de vingar-lhe o sangue, matando o inimigo e criminoso.

Recorda-se que as páginas da História Sagrada, bem como da secular, estão empapadas do sangue de milhares de homens e mulheres, velhos e crianças, que não desejando trair sua consciência, não desejosos de trair o sagrado depósito, depuseram a vida diante de Deus, que tudo vê e julga.

O pior é que muitos destes milhares que morreram, foram silenciados pela morte de modo ignominioso, como as mais abjetas das criaturas. Morreram sob o estigma da vergonha. “Na Terra tinham si­do destruídos, afligidos e atormentados. Milhões baixaram ao túmulo carregados de infâmia, porque recusaram render-se às enganosas pretensões de Satanás. Por tribunais humanos os filhos de Deus fo­ram condenados como os mais vis criminosos.” (11)

“Levantar-Se-ia de sobre a ter­ra” o nosso Go’el, a fim não só de vingar-lhe o sangue, mas julgar-lhe a causa, reabilitando, mostrando a todos, tratar-se na realidade, de homens e mulheres de Deus, “santos do Altíssimo”, como fala o profeta Daniel? No Apocalipse, ao falar dos mártires de Deus, sob a figura das “almas debaixo do altar”, João coloca em sua boca, es­tas palavras: “Até quando, á Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a Ter­ra?” (6:10). O texto sagrado cont­nua dizendo: “E lhes disseram que repousassem ainda por pouco tem­po, até que também se completas­se o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos co­mo igualmente eles foram” (v. 11).

E isto evidentemente pode, com a mesma força, ser aplicado a nós outros, que hoje vivemos neste mundo. Quanta calúnia, maldade e injustiça não fere o coração dos fi­lhos de Deus, levando-os ao sofri­mento e mesmo à morte?

Sabemos que celeremente se aproxima o dia em que virá o nosso Redentor (Go’el). Diríamos, para usar a expressão de Jó, que Ele mui breve “subirá da terra”, para vindicar nossa causa, e vingar nosso sangue. Fala assim a serva do Senhor: “Brevemente estarão perante o Juiz de toda a Terra, para prestar contas pelos sofrimentos físicos e morais infligidos à Sua he­rança. Podem agora entregar-se a acusações falsas, podem injuriar os que Deus apontou para Sua obra, podem entregar os crentes à prisão, aos grilhões, ao desterro e à morte; todavia serão argüidos por toda a agonia de sofrimento e toda lágrima vertida. Deus lhes pagará dobradamente por seus peca­dos”. (12) Deus mesmo já dissera, por boca de Moisés: “A Mim Me pertence a vingança, a retribui­ção... porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegar. Porque o Senhor fará justiça ao Seu po­vo...” (Deut. 32:35 e 36).

Digo a você, leitor, que na realidade não sei e nem mesmo posso explicar o que se passa, e o porquê de sua vida, que neste tempo pode estar sobremaneira conturbada. Entregue tudo, mas tudo mesmo na mão do nosso Grande Go ‘el, que tudo vê e tudo julga. Dar-se-ia o caso de haver em seus olhos uma lágrima sufocada, ou um sonho desfeito, ou ainda, segundo as aparências, sua vida esteja verdadeiramente arruinada? Em tudo isto você foi inocente? Não procure vingança. Lembre-se do que Deus diz: “Minha é a vingança.” Falando daquele tempo, que celeremente se aproxima, a serva do Senhor declara: “Então as sentenças dadas na Terra serão inverti­das. Então ‘tirará o opróbrio do Seu povo de toda a Terra’. Vestes brancas dar-se-ão a todos eles. ‘E chamar-lhes-ão: povo santo, remi­dos do Senhor.’ Qualquer que tenha sido a cruz que suportaram, quaisquer as perdas sofridas, qual­quer a perseguição que padece­ram,mesmo a perda da vida temporal, os filhos de Deus serão amplamente recompensados. ‘Verão o Seu rosto, e nas suas testas estará o Seu nome.” (13) Concluindo, podemos com segurança dizer: “Eu sei que o meu Go’el vive, e por fim Se levantará sobre a Terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-Lo-ei por mim mesmo, os meus olhos O verão, e não outros.” (Jó 19:25-27.) Amém, Aleluia.



Referências:



1.Meek, Th. J., Job XIX, 25-27, Vetus Testamentum, vol. VI, 1956, pág. 100.

2.ZINK, J. K., Impatient Job – an iterpretation of Job 19, 25-27, JBL, vol. LXXXIV, part II, June 1965, pág. 147.

3.Ibidem.

4.Ibidem.

5.STAMM, J. J., Go’el, Geulah Redimir, Diccionario Teológico Del Antigo Testamento, Madrid, Ediciones Cristandad, 1978, tomo I, pág. 902.

6.Cf. STAMM, op. Cit., pág. 554, há aqueles que não obstante, pensam que o levirato não fazia parte das obrigações do go’el.

7.Para Ilustração, bastam os três exemplos: Medicina e Salvação, pág. 33; Mensagens aos Jovens, pág. 410; O Grande Conflito, pág. 298.

8.White, E. G., Profetas e Reis, S. Paulo: CPB, 1960, pág. 682.

9.White, E. G., Parábolas de Jesus, S. Paulo: CPB, 1967, pág. 179.

10.Idem, págs. 178 e 179.

11.Ibidem.



Fonte: Revista Adventista, Junho de 1984, págs. 43-45

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