A questão é crucial. Se o princípio não for válido, ou, caso não deva ser aplicado a Daniel 7, 8 e 9, nossa mensagem cai por terra. O princípio do dia profético é legítimo, e, caso seja, por que aplicá-lo àqueles três capítulos de Daniel?
Primeiramente, o princípio do dia profético não se originou com os mileritas ou adventistas do sétimo dia. Judeus e cristãos vêm utilizando esse princípio há séculos, muitas vezes aplicando-o aos mesmos textos que os adventistas usam hoje. Clemente de Alexandria (segundo a terceiro séculos d.C.), um dos fundadores da igreja cristã, aplicou o princípio do dia profético às setenta semanas de Daniel 9, assim como tem feito a maioria dos teólogos através dos séculos, tanto judeus como gentios. Um dos maiores teólogos hebreu Rashi (1040-1105 d.C.), traduziu Daniel 8:14 da seguinte maneira: "E ele disse a mim: Até 2300 anos". Esse princípio tem sido reconhecido e aceito em todo o mundo durante séculos. Não é uma inovação adventista.
* Qual, porém, é a evidência bíblica?
Conhecemos o texto de Números 14:34: "Segundo o número dos dias em que espiastes a terra, quarenta dias, cada dia representando um ano." E Ezequiel 4:4 a 7: "Conforme o número dos dias que te dei, cada dia por um ano."
* Embora estes textos possam sugerir a validade desse princípio, que outra evidência existe?
O Antigo Testamento desde há muito tem reconhecido uma relação entre dias e anos, e, em alguns casos, embora a palavra ano apareça no texto, a palavra usada no original hebreu foi dia. A comemoração da Páscoa, por exemplo, era celebrada uma vez por ano. Leia Êxodo 13:10. A tradução da versão Almeida diz: "Portanto, guardarás esta ordenança no determinado tempo, de ano em ano." Mas o original em hebraico diz literalmente, "de dias em dias", embora o texto quisesse dizer de ano em ano.
Primeiro Samuel 27:7 diz: "E todo o tempo que Davi permaneceu na terra dos filisteus foi um ano e quatro meses." O original hebraico diz: "dias e quatro meses", em vez de de "ano e quatro meses". Em hebraico, há uma palavra comum para ano, shanab, mas nestes versos a palavra "dias" é usada, demonstrando uma ligação entre ano e dias na Bíblia. Outros exemplos desse tipo podem ser encontrados. Leia I Samuel 2:19; I Samuel 1:21; I Reis 1:1.
* Todavia, mesmo que estes e outros versos ajudem a provar a idéia de uma relação entre dia e ano, podemos ter a certeza que deveríamos aplicar esse conceito às profecias de tempo de Daniel 7, 8 e 9?
Daniel 9 declara que "desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o Ungido", passaria sessenta e nove semanas. Mesmo que alguém defendesse que a ordem para reconstruir Jerusalém ocorresse numa data com cinqüenta anos de diferença para o ano 457a.C., ainda sobrariam cerca de 400 anos entre aquela data e a vinda de Jesus - "[o] Ungido, [o] Príncipe". Se as sessenta e nove semanas fossem literais, então, desde a ordem para restaurar e reconstruir Jerusalém (quinto século a.C.) até o Messias (primeiro século d.C.) haveria sessenta e nove semanas - ou seja, um ano, quatro meses e três dias. Ridículo! O princípio do dia profético precisa ser aplicado a essa profecia, ou a mesma se torna sem sentido. Talvez a maior prova da validade do dia profético e sua aplicação em Daniel 9, é o fato que dá certo!
* Por acaso é coincidência que se aplicarmos esse princípio às sessenta e nove semanas, teremos um período de tempo que encaixa perfeitamente nos dois eventos descritos no verso?
Se não usarmos o princípio, a profecia não faz sentido; se usamos o princípio, a profecia cumpre-se com exatidão. Apenas isto já é uma prova irrefutável da validade do dia profético. Fica óbvio que o princípio do dia profético é válido para a profecia das sessenta e nove semanas, que foram "cortadas" da profecia dos 2.300 dias. Portanto, ambas fazem parte da mesma profecia.
* E, se o dia profético funciona para uma parte da profecia, não seria lógico que fosse usado com sucesso na outra parte também? É claro que sim.
Na verdade, não é apenas lógico, mas absolutamente necessário. Aplicando o princípio do dia profético às setenta semanas, temos 490 anos, ou seja, 176.400 dias. Como poderíamos cortar 176.400 dias de 2.300 dias? É impossível. A única maneira de as setenta semanas poderem ser cortadas é aplicarmos o princípio do dia profético aos 2.300 dias também. De outra forma, seria como tentar tirar dois quilômetros de três metros. Portanto, o dia profético precisa ser válido nos 2.300 dias também.
Existem outras evidências a favor do dia profético nos 2.300 dias em Daniel 8:13, que é literalmente a seguinte: "Até quando durará a visão do sacrifício diário e da transgressão assoladora, visão na qual é entregue o santuário e o exército, a fim de serem pisados?"
Alguns detalhes importantes devem ser notados: A tradução literal é "Até quando" estas coisas aconteceriam? - e não "Quanto tempo?" A ênfase está no término dos eventos. "Até quando" estes eventos acontecerão? Lembre-se de que a palavra para visão, hazon, tem a ver com a visão como um todo, isto é, o carneiro, o bode, etc.
E finalmente, embora a versão King James mencione a palavra concernente, (Quanto tempo durará a visão concernente ao sacrifício diário?), no hebraico não consta essa palavra, nem a própria construção do hebraico exige que ela esteja ali. Definitivamente ela não pertence ao texto.
* O que isto quer dizer?
A questão diz respeito ao término ("até quando") de tudo que foi descrito: hazon, ou visão (que inclui o carneiro e o bode), o "sacrifício diário" e a transgressão assoladora estão incluídos. A pergunta não se refere apenas a visão concernente ao "sacrifício diário", ou às atividades do chifre pequeno, mas a tudo que há na visão, incluindo a parte da hazon a respeito do carneiro e do bode. "Quanto tempo" durarão estas coisas envolvendo o carneiro, o bode e o chifre pequeno? A resposta é literalmente: "Até 2300 tardes e manhãs."
Portanto, os 2300 dias envolvem todos os eventos listados na pergunta, ou seja, o carneiro, o bode e o chifre pequeno. Logo, o período de tempo inclui a Média-Pérsia, a Grécia, bem como a Roma pagã e papal. Todos esses fatores estão contidos no período de tempo da pergunta "Até quando?" e devem cumprir-se em 2300 dias.
Se tomados literalmente, 2300 dias somam seis anos, três meses e vinte dias. Como poderia esta profecia ser literal e incluir todos esses eventos? Impossível. Só a Média-Pérsia durou de 539 a 331 a.C. Apenas essa nação, sem contar a Grécia e Roma, dura demais para encaixar-se em apenas seis anos. Portanto, necessariamente temos que usar o princípio profético, com a qual a profecia cobre mais de dois milênios, tempo suficiente para incluir todos os eventos. Sem o dia profético, a profecia não faz sentido.
Embora a profecia comece com nações que existiam há milhares de anos, foi dito a Daniel que a visão era para o "tempo do fim". Obviamente, qualquer que fosse o período de tempo envolvido na profecia, teria que cobrir muito mais que seis anos a fim de levar a profecia de tantos séculos no passado até o "tempo do fim". Sem o dia profético, a profecia não poderia estender-se tanto. Aqui, novamente, o dia profético soluciona o problema.
Em Daniel 7 temos este terrível poder, o chifre pequeno. Decididamente, esse é o item mais detalhado do capítulo, superando todos os outros animais, incluindo os poderosos impérios babilônicos, medo-persa, grego e romano - nações que duraram centenas de anos cada uma. Apesar do poder desses impérios, a ênfase é colocada no chifre pequeno, que é tão terrível que o próprio Deus destruirá após o julgamento.
* Contudo, o poder desse chifre pequeno, pior que qualquer outro animal que durou centenas e centenas de anos, duraria três anos e meio?
Um período de três anos e meio não se encaixa na magnitude dos grandes eventos descritos nas primeiras fases da profecia. Além disso, vimos que o quarto animal foi Roma pagã, império que terminou 1500 anos atrás. O poder que a seguiu, o chifre pequeno, teria que se estender até o tempo do fim, quando Deus Se assenta para julgar e estabelecer Seu reino. Três anos e meio não são suficientes para estender-se dos dias finais de Roma pagã até o tempo do fim. Aqui, outra vez, o tempo literal não se encaixa nos eventos que são descritos na profecia, e, novamente, o dia profético soluciona o problema.
Note, também, as palavras exatas usadas nesta profecia de Daniel 7:25: "Por um tempo, dois tempos e metade de um tempo."
Que estranha maneira de dizer três anos e meio. É como se alguém perguntasse minha idade e eu respondesse: "Tenho vinte anos, dois anos e dez anos." Talvez estivesse tentando dizer outra coisa. Daniel 4:45 diz que Nabucodonosor ficaria doente, vivendo como um animal até "sete tempos por cima de ti". Por que não disse "um tempo, e tempos, e tempos, e um tempo, e metade de um tempo, e metade de um tempo"? O princípio profético não pode ser aplicado a Daniel 4:45. Obviamente, Daniel quis dizer um tempo literal, a respeito da doença do rei, e esta é provavelmente a razão por que usou um número normal.
Talvez Daniel tivesse dito: "Por um tempo, dois tempos e metade dum tempo", no capítulo 7, porque não queria dizer literalmente, três anos e meio. Em vez disso, em vez disso queria passar a idéia de um tempo profético. Daniel 7 está cheio de símbolos: um leão, um urso, um leopardo com asas, chifres que falam - todos simbolizando coisas diferentes. Logo, não seria lógico pensar que a seqüência de tempo dada nesta profecia também teria algum simbolismo, especialmente quando se analisa que a mesma foi enunciada de maneira tão estranha? Claro que sim.
Os mesmos fatores são encontrados nos 2300 dias. Daniel 8 também é uma visão com imagens simbólicas. Não é uma profecia sobre animais, assim como Daniel 7 não o é. É inteiramente profética. Não seria de se esperar que o tempo nesses capítulos também fosse simbólico, em vez de literal?
Além do mais, "tardes e manhãs" não é maneira comum de descrever dias. A palavra típica para dias na Bíblia é yamin, plural yom, que ocorre mais de mil vezes na Bíblia. Não seria mais simples ter dito: "Até seis anos, três meses e vinte dias, e o santuário será purificado", em vez de 2300 dias? Daniel 8:14 não traz a forma típica de indicar o tempo. Em II Samuel 5:5, por exemplo é dito que o rei "reinou sobre Judá sete anos e seis meses", não 2700 dias.
Até mesmo as setenta semanas de Daniel não são uma forma comum de expressar tempo. Por que não foi dada como um ano e quatro meses e meio?
A razão para tudo isto poderia ser simplesmente que o Senhor não esta Se referindo a tempo literal, e usou esses números e unidades de tempo "simbólicos" para mostrar ao leitor que estava falando de tempo profético, e não literal. Claramente, muitas evidências comprovam a validade do dia profético em Daniel 7, 8 e 9. Os capítulos simplesmente não fazem sentido sem o uso desse princípio.
Revista Adventista, Março de 1999, págs. 32 e 33.
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12 de dezembro de 2008
O princípio dia-ano
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Análise do capítulo 8 de Daniel
Luiz Gustavo S. Assis
"Satanás odeia a verdade do Santuário, pois sabe que ela é a suprema verdade do Céu para hoje. Ela envolve diretamente a sua pessoa - seu destino e condenação, a sua futura e final extinção. Ele está procurando ganhar tempo. Deseja intensamente arrastar para a perdição o maior número de pessoas possível. Iniciará e estimulará, portanto, toda tentativa para modificar, reestruturar, deturpar ou alterar a ênfase e o conceito da verdade do Santuário, e invalidar o testemunho, reprimir seu ensino e corromper sua integridade."
Daniel 8
Uma das passagens mais complexas do estudo sistemático das Escrituras é o capítulo 8 do livro de Daniel. Trata-se de um capítulo que só se torna coerente e válido se aplicarmos a interpretação histórica (ver o artigo "Interpret Profética, por José Carlos Ramos), isto pode ser comprovado ao vermos o cumprimento da visão que o profeta nos apresenta durante a história e não no futuro, como alguns grupos religiosos estão apresentando. Começando no terceiro ano do reinado do Rei Belsazar, ou seja, por volta de 551 a.C. Daniel estava com aproximadamente 72 anos de idade, nessa ocasião ele teve uma visão (a palavra hebraica neste caso é Hazon), "na cidade de Susã, que é província de Elão." V.2. Susã estava situada no sudoeste da Pérsia e, "de acordo com o historiador grego Xenofonte, os reis persas posteriormente usavam a cidade como residência de inverno, e passavam o resto do ano em Babilônia ou em Ecbatana." (SDABC, sobre Daniel 8:2).
E foi também "na cidade de Susã", onde estava localizado o trono do Rei Assuero (Xerxes), que ocorreu a célebre história da rainha Éster. (Éster 1:2), ele se achava "junto ao Rio Ulai". O rio passava por Susã na direção sul e do sudeste, e desaguava no rio Karun."(SDABC, sobre Daniel 8:2). Analisamos até aqui a geografia e a história que envolve os dois primeiros versículos".
A visão apresenta alguns símbolos que merecem a nossa análise:
- Um Carneiro que tinha dois chifres ( v. 3): O anjo posteriormente identifica este símbolo como representando os reis da Média e da Pérsia (v. 20).
- Mais alto do que o outro (v. 3): Embora se tenha levantado posteriormente a Média, a Pérsia tornou-se o poder dominante quando Ciro derrotou Astíages de Média em 553 a.C ou 550 a.C. Os medos, contudo, não foram tratados como povo inferior ou subjugados, mais sim como confederados.
- Dava marradas para o ocidente (v. 4): Ciro conquistou a Lídia em 547 a.C, e Babilônia em 539 a.C. Cambises estendeu as conquistas na direção do sul até o Egito e Etiópia em 525 a.C. Dario Histaspes dirigiu para o norte para o norte contra os Cytas em 513 a.C. Império Medo-Persa cobriu muito mais território que o seu predecessor, Babilônia. Tão bem sucedidas foram as armas persas que nos dias de Assuero (Éster 1:1) o império se estendia da Índia à Etiópia. As extremidades meridionais e orientais do mundo então conhecido. Um título freqüente dos monarcas era "rei dos reis" ou "rei das nações".
- Se engrandecia ( v. 4): Literalmente, "fazia grandes coisas", "fez-se grande" ou "magnificou-se" (RSV).
- Bode (v.5): Identificado como representando a Grécia (v. 21) isso é, o império Macedônio de Alexandre.
- Do Ocidente (v. 5): A Grécia situava-se a ocidente do Império Persa.
- Sem tocar no chão (v. 5): Esta descrição de grande velocidade retrata apropriadamente a rapidez e perfeição espantosa das conquistas de Alexandre.
- Chifre Notável (v. 5): De acordo com o verso 21, este chifre notável representa o primeiro grande rei da Grécia, isto é, Alexandre o Grande.
- Enfurecido (v.7): Heb. Marar, na forma aqui encontrada, "estar enfurecido". A linguagem deste verso retrata a inteira sujeição da Pérsia a Alexandre. O poderio do império foi completamente despedaçado. Os países foram arrebatados, os seus exércitos desbaratados e dispersos, as suas cidades saqueadas. A cidade real de Persépolis, cujas ruínas ainda existem como um monumento do seu antigo esplendor, foi destruída pelo fogo.
- Se engrandeceu sobremaneira (v. 8): Ou, "magnificou-se extremamente."
- Na sua força (v. 8): A profecia prediz que Alexandre cairia enquanto o seu império estivesse no auge do seu poderio. Com a idade de 32 anos, ainda na primavera da vida, o grande líder morreu duma febre, agravada, sem dúvida, pela sua intemperança.
- Quatro Chifres notáveis (v. 8): Sobre os quatro reinos macedônicos (ou helenísticos) em que o império de Alexandre foi dividido.
- De um deles (v. 9): ( VARA - De um dos chifres saiu). Esta frase apresenta confusão de gênero no Hebraico. A palavra "deles" Hem, é masculina. Isto indica que gramaticalmente, o antecedente é "ventos" (v.8), e não "chifres", visto que "ventos" pode ser masculino ou feminino, mas "chifres" só pode ser feminino. Por outro lado à palavra para "um", Achath, é feminina, sugerindo "chifres" como antecedente. Achath poderia, evidentemente, referir-se à palavra anterior para "ventos", que ocorre mais freqüentemente no feminino. Porém é de se duvidar que o escritor tivesse determinado dois gêneros para o mesmo substantivo numa tão estreita relação contextual. Para se obter concordância gramatical, Achath seria mudada para masculino, fazendo assim a frase inteira referir-se claramente a "ventos", ou a palavra "deles" (de um dos) seria mudada para feminino, em cujo caso a referência seria ambígua, visto que tanto "ventos", como chifres "poderiam ser antecedentes. Um certo número de manuscritos reflete a escrita correta, a passagem ainda ambígua".
Os comentaristas que interpretam o "chifre pequeno" do v. 9 como se referindo a Roma, tem-se embaraçado ao tentarem explicar satisfatoriamente como Roma poderia ser dito levantar-se duma das divisões do império de Alexandre. Se "deles" se refere a "ventos", toda dificuldade desaparece. A passagem então simplesmente expõe que de um dos quatro pontos cardeais viria um outro poder. Roma veio do ocidente. Na explicação literal dos símbolos da visão Roma é dito levantar-se "no fim do seu reinado" (v. 23), isto é, o "reinado" dos quatro chifres. Contudo, o v. 23 refere-se somente ao tempo em que o chifre pequeno levantar-se-ia, e não diz nada a cerca do local do seu levantamento, enquanto que o v. 9 diz respeito exclusivamente à sua situação.
Dever-se-ia lembrar que o profeta esta dando aqui um relatório vivo da simbolização profética, como as cenas lhe foram apresentadas. Ele ainda não esta interpretando a visão. A interpretação desta feição da visão ocorre no v. 23. Uma regra importante a seguir-se quando se interpreta os símbolos das visões, é determinar-se uma interpretação somente as feições das representações pictóricas que forem destinadas a ter valor interpretativo. Como com parábolas, certas feições são necessárias para completar a apresentação dramática, porém não são, em si, necessariamente significativas. Quais destas tem valor interpretativo, somente a inspiração pode determinar. Vendo-se que neste exemplo a inspiração (v.23) fala somente do "tempo" em que o poder representado por este chifre emergiria, e não diz a respeito do ponto geográfico de sua origem, não existe razão alguma para pormos ênfase na frase "de um deles" (VARA- de um dos chifres).
Visto que a visão do cap. 8 é estreitamente paralela aos esboços proféticos dos capítulos 2 e 7, e visto que em ambos aqueles esboços o poder que sucede à Grécia é Roma, a adaptação razoável aqui é que o "poder" chifre do v. 9 também se aplica a Roma. Esta interpretação é confirmada pelo fato de Roma preencher precisamente as várias especificações da visão.
- Um Chifre Pequeno (v. 9): Este chifre pequeno representa Roma em ambas as suas fases, pagã e papal. Daniel viu Roma primeiramente na sua fase pagã, imperial, guerreando contra o povo judeu e os primeiros cristãos, e depois na sua fase papal, continuando a luta contra a verdadeira igreja até os nossos dias e até ao futuro.
- Excessivo (v.9): (VARA-muito). Hebraico Yether, basicamente significando "resto". Alguns exemplos descreve, como aqui, o que esta acima da medida, no sentido de deixar um resto. É traduzida "excelência" (Gen.49:3), "largura" (Sal.31:23), "mais famoso" (Isa.56:12). A palavra traduzida "muito" em Dan. 8:8 é Me'od, a palavra mais comum para "excessivamente". No Velho Testamento Me'od é traduzido "excessivo" ou "excessivamente" (VARA- Grande) 22 vezes ( Gen. 13:13 ; 15:1 ; etc.) na sua forma simples e 9 vezes na sua forma repetida. Não se pode argumentar que Yether (Daniel 8:9) represente um grau maior que Me'od. Qualquer grandeza excedente de Roma sobre a da Grécia deve ser provada historicamente, e não sobre a base destas palavras.
- Para o Sul (v.9): O Egito fora por muito tempo um protectorado não oficial de Roma. O seu destino já estava nas mãos de Roma em 168 a.C. quando Antíoco Epifânio, que estava querendo fazer guerra aos Ptolomeus foi expulso do país. O Egito, ainda sob a administração dos seus governantes ptolomaidas fora um penhor da política de Roma Oriental por muitos anos antes que se tornasse, em 30 a.C., uma província romana.
- Para o oriente (v. 9): O Império Selêucida perdeu as suas terras mais ocidentais para Roma ainda em 190 a.C., e finalmente se tornou à província romana da Síria em 65 a.C. ou pouco depois.
- Terra Deleitável (v.9): (VARA- Terra Gloriosa). Hebraico Sebi, "ornamento", "decoração", "glória". Ou Jerusalém ou a terra da Palestina é aqui mencionada. Sebi é traduzido "glorioso" no cap. 11:16,41. Contudo, ali o hebraico tem a palavra para "terra", enquanto que aqui terra "está subentendida. A Palestina foi incorporada no império Romano em 63 a.C.
- Exército dos Céus (v. 10): Daniel está ainda descrevendo o que viu em visão. Visto que o anjo prove posteriormente a interpretação (v. 24), não fomos deixados às escuras quanto ao significado do que aqui esta descrita. O "exército" e as "estrelas" obviamente representam "o poderoso (VARA- poderosos) e o povo santo" (v. 24).
- Os Pisou (v. 10): Isto se refere à fúria com que Roma tem freqüentemente perseguido o povo de Deus através dos séculos. Nos dias dos tiranos Nero, Décio e Diocleciano nos tempos pagãos, e de novo nos tempos papais, Roma nunca hesitou proceder duramente com aqueles que quer condenar.
- Príncipe do Exército (v. 11): o verso 25 fala deste mesmo poder que se levanta contra o Príncipe dos Príncipes. A referência é a Cristo, que foi crucificado sob a autoridade de Roma.
- Por Ele (v. 11): (VARA- dele). Hebraico Mimmennu, que também se pode traduzir "dele", isto é, do "príncipe do exército". O hebreu desta passagem apresenta certos problemas difíceis de traduzir. Uma escrita bem diferente é achada na versão grega de Teodócio. Ela insere o seguinte o seguinte: "E (este será) até que o capitão principal tenha libertado o cativeiro: e por causa dele o sacrifício foi perturbado e ele prosperou; e o lugar santo será feito desolado". Não existe meio de se determinar até que o ponto, se a algum, esta versão reflete mais perfeitamente o texto original de Daniel. O texto massorético, como refletido pela KJV e RSV parece ser, em geral, a escrita mais natural.
- Sacrifício Diário (v. 11): (VARA- Costumado). Hebraico TAMID, uma palavra que ocorre 103 vezes no Velho Testamento, usada tanto adverbial como adjetivamente. Significa "continuadamente" ou "contínuo", e é aplicado a vários conceitos, tais como atividade contínua (Ezequiel 39:14), sustentação permanente (II Sam. 9:7,13), dor contínua (Sal. 38:17), esperança contínua (Sal. 71:14), provação contínua (Isa. 65:3) etc. É usado freqüentemente em conexão com o Ritual do Santuário para descrever várias figuras dos seus serviços regulares tais como o "pão contínuo" que era para ser conservado na mesa da proposição (Num. 4:7), a lâmpada que era para estar acesa continuamente sobre o altar (Lev. 6:13), as ofertas queimadas que eram para ser oferecidas diariamente (Num. 28:3,6), o incenso que era para ser oferecido cada manhã e cada crepúsculo da tarde (Ex. 30:7,8). A palavra em si não significa "diariamente", mas simplesmente "contínuo" ou "regular". Das 103 ocorrências é traduzida "diariamente" somente Num. 4:16 e nas suas cinco ocorrências em Daniel (8:11,12,13; 11:31; 12:11). A idéia de "diário" foi evidentemente derivada, não da palavra em si, mas daquela com que foi associada.
No capítulo 8:11 TAMID, tem o artigo definido e é portanto usado adjetivalmente. Além disso, acha-se, sem um substantivo, e deve, ou, ser entendido subjetivamente com significado "continuidade", ou ser suprido de um substantivo. No Talmude, quando TAMID é usado independentemente como aqui, a palavra consistentemente denota o sacrifício diário. Os tradutores da KJV, que supriram a palavra "sacrifício", obviamente acreditaram que a oferta queimada diária fosse o assunto da profecia. Com respeito à significação de TAMID nesta passagem, três principais pontos de vista tem sido mantidos:
1. Que o "diário" se refere exclusivamente aos sacrifícios oferecidos no templo em Jerusalém. Alguns expositores que mantém este ponto de vista, aplicam o tirar do "diário" à interpretação do serviço do Templo por Antíoco Epifânio, por um período de cerca de três anos, de 167 a 164 a.C. Outros aplicam-no à desolação do Templo pelos Romanos em 70 a.D.
2. Que o "diário" se refere ao "paganismo", em contraste com a "abominação desoladora" (Cap. 11:31), ou o papado que ambos os termos identificam poderes perseguidores; que a palavra "diário", corretamente significando "Contínuo", refere-se à longa continuidade da oposição de Satanás à obra de Cristo pelo intermédio do paganismo; que o tirar do "diário" e o estabelecimento da "abominação desoladora" representa Roma Papal substituindo Roma pagã, e que este evento é o mesmo que o descrito em II Tess. 2:7 e Apoc. 13:2.
3. Que o termo "diário" - "contínuo" - se refere ao ministério sacerdotal de Cristo no Santuário Celestial ( Heb. 7:25 e Jo. 2:10) e ao verdadeiro culto de Cristo na era do evangelho; que o tirar do "diário" representa a substituição pelo papado de unidade compulsória numa igreja visível em lugar da unidade voluntária de todos os crentes em Cristo, da autoridade duma cabeça visível - o papa - em lugar de Cristo, a cabeça invisível da igreja, duma hierarquia sacerdotal, em lugar do acesso direto a Cristo por todos os crentes, dum sistema de salvação por meio de obras ordenadas pela igreja em lugar da salvação pela fé em Cristo, e, mais particularmente, do confessionário e do sacrifício da missa em lugar da obra mediadora de Cristo como nosso grande sumo sacerdote nas cortes celestiais; e que este sistema desvia completamente a atenção dos homens de Cristo, privando-lhes assim dos benefícios do seu ministério.
Além disso, visto que este terceiro ponto de vista defende o chifre pequeno com Roma imperial e Roma papal (veja-se comentários sobre 9,13), as predições concernentes as suas atividades devem também ser entendidas como se aplicando a Roma pagã, bem como a Roma Papal. Assim o "diário" deve também se se referir ao Templo Terrestre e seus serviços, e o tirar do "diário" aplica-se à desolação do Templo pelas legiões Romanas em 70 A.D e a conseqüente cessação dos serviços sacrificais. Foi este aspecto da atividade de "abominação da desolação" que Cristo se referiu na sua delineação de eventos futuros.
Em comentário a estes três pontos de vista, pode-se dizer que o de Antíoco deve ser riscado pela razão que este não se encaixa nos períodos de tempo, ou noutras especificações da profecia.
Tanto a segunda como a terceira interpretação tem sido mantida por vários expositores capazes dentro do Movimento Adventista. Algum devoto estudante da Bíblia tem considerado que o "diário" se ao paganismo, e outros, igualmente devotos estudantes das Escrituras, dizem que o "diário" se refere ao Ministério Sacerdotal de Nosso Senhor. Talvez esta seja uma das passagens da Escritura acerca de cujas devamos esperar até um dia melhor para uma resposta final. Como com outras passagens difíceis das Escrituras , a nossa salvação não depende da compreensão plena do significado de Daniel 8:11.
Sobre o desenvolvimento histórico do segundo e terceiro ponto de vista, vejam-se págs. 60-64 do SDABC, vol. 4.
- Lugar (v. 11): Hebraico MAKON, "sítio". MAKON é usado na frase "para a casa de Deus, para a restaurarem no seu lugar (Esd. 2:68). A referência primária aqui deve ser a destruição de Jerusalém".
- Hoste (v.12): (VARA - Exército). Hebraico SABA', geralmente significando "hoste" ou "exército" e poucas vezes significando "serviço", tais como militar ou trabalho forçado (Jô 7:1 ; 10:17 ; 14:14 ; Isa. 40:2). Interpretando como "hoste", ou "exército", a predição deve referir-se às multidões que caíram sob a influência deste poder. O poder tornar-se-ia "grande" mas não por sua própria força (Dan.8:24).
- Deitou Por Terra a Verdade (v. 12): O papado acumulou a verdade de tradições e ofuscou-a por meio de superstições.
- Até Quando (v. 13): A questão é claramente exposta no hebraico, que insere literalmente "Até quando a visão, o contínuo, a transgressão desoladora para dar ambos santuário e hoste para serem pisados".
- A transgressão da Desolação (v. 13): (VARA - transgressão assoladora). Este termo abarca AMBOS os sistemas - pagão e papal de religião falsa em conflito com a religião de Deus. (veja os comentários dos versos 9 e 11).
- Santuário (v. 13): Veja os comentários sobre o verso 14.
- Exército (v.13): Veja os comentários sobre o verso 10.
- Me Disse (v. 14): A Septuaginta, Teodócio e a Siríaca inserem "a ele".
- Dias (v. 14): Hebraico EREB BOQUER, literalmente, "tardes e manhãs", uma expressão comparável com a descrição dos dias da criação, "tarde e manhã" "o primeiro dia" (Gen. 1:5) etc. Os LXX trazem a palavra "dias" seguindo a expressão "tarde e manhã".
Num esforço para trazer este período grosseiramente semelhante aos três anos da devastação do Templo por Antíoco IV, alguns têm ingenuamente assinalado, para as expressões "duas mil e trezentas tardes e manhãs" somente 1150 dias literais. Concernente a isto, Keil adequadamente observou: "um leitor hebreu não poderia possivelmente entender o período de tempo de 2300 tardes e manhãs de 2300 meios dias ou 1150 dias inteiros, porque tarde e manhã na criação na criação constituíram não meio dia, mas sim o dia inteiro". Após citar a precedente afirmação Edward Young diz: "Por isso precisamos entender a frase como significando 2300 dias (The Prophecy Of Daniel, pág. 174)".
Os comentaristas têm-se esforçado, porém sem serem bem sucedidos, por encontrar algum evento histórico que se adaptasse ao período de 2300 dias literais. Segundo Wright observa: "Todos os esforços, contudo, para harmonizar o período, quer seja considerado por 2300 dias, ou como 1150 dias, com qualquer época histórica precisa mencionada nos livros dos Macabeus, ou em Josefo, tem-se mostrado baldados... O professor Driver é justificado ao afirmar: Parece impossível encontrarem-se dois eventos separados por 2300 dias (= 6 anos e quatro meses) que correspondem à descrição". (Charles H. H. Wrigth, Daniel and His Prophecies, 1906, págs. (186,187). O único caminho a seguir-se para que se possa dar consistência a esses "dias" é aplica-los num sentido profético pela aplicação do princípio dia-ano.
O tempo aqui envolvido é específico e definido, porém no cap. 8 nenhuma data é indicada para o seu inicio. Contudo no cap. 9 uma tal data é especificamente mencionada (Dan. 9:25). Esta será demonstrada ser 457 a.C. A partir desta data como inicio, os 2300 dias proféticos, designando tantos anos solares, atingem 1844 a.D. Para uma consideração de evidência contextual de que o cap. 9:24-27 prove uma explicação da visão do cap. 8:13-14, e assim localiza o ponto de partida dos 2300 dias ou ano, veja-se o comentário sobre o cap. 9:21. Para comentários sobre a validade da data de 457 a.C. veja-se o comentário sobre o cap. 9:25.
Para comentários sobre um erro numa edição posterior dos LXX, que apresentou "2400" em vez de 2300 veja-se pág. 58, SDABC, Vol. 4.
- Santuário (v. 14): Visto que os 2300 projetam-se longe da Era Cristã, o Santuário não pode referir-se ao templo de Jerusalém, que foi destruído em 70 a.D. O Santuário do novo pacto é claramente o Santuário no Céu, "que o Senhor erigiu, não o homem" (Hebreus 8:2). Deste Santuário Cristo é o Sumo Sacerdote (Hebreus 8:1). João previu um tempo em que especial atenção seria dirigida para "o templo (VARA- Santuário) de Deus, e seu altar, e os que nele adoravam" (Aposse. 11:1). Os símbolos empregados pelo revelador são extraordinariamente semelhantes aos empregados em Daniel 8:11-13.
- Será Purificado (v. 14): Do hebraico SADAQ, "ser justo", "ser reto". O verbo ocorre na forma aqui encontrada (niphal) somente esta vez no Velho Testamento, cujo termo esta indicada. Lexicógrafos e tradutores sugerem várias significações, tais como "ser posto reto", ou "ser posto numa condição legítima", "ser vindicado". A tradução "será purificado" é a que se lê nos LXX que aqui tem a forma verbal KATHARISTHESETAI. Não se sabe se os tradutores da Septuaginta deram uma significação adaptada ao Hebraico SADAQ ou se traduziram de manuscritos que empregassem uma palavra hebraica diferente, talvez TAHAR, a palavra comum para "ser puro", "purificar". A vulgata tem a forma MUDABITUR, que também significa "puruficado".
Como uma ajuda para determinação de que evento em conexão com o Santuário Celeste é aqui mencionado, é útil examinarem-se os serviços do Santuário Terrestre, porque os sacerdotes no Santuário Terrestre serviam "em figura e sombra das cousas celestes." (Heb. 8:5). Os serviços no Tabernáculo do deserto e no Templo consistiam de duas divisões principais, o diário e o anual. O Ministério diário de Cristo como nosso Sumo Sacerdote era tipificado nos serviços diários. O Dia da Expiação anual, tipificava uma obra que Cristo empreenderia no fim dos tempos. Para uma discussão mais detalhada destas duas fases do serviço, veja-se comentários sobre Lev. 16, SDABC. A profecia de Daniel 8:14 anuncia o tempo para o começo desta obra especial. A Purificação do Santuário Celestial compreende toda obra toda obra do juízo final, começando com a fase investigativa e terminando com a fase executiva, que resulta na erradicação permanente do pecado no universo.
Uma característica significante do juízo final é a reivindicação do caráter de Deus perante todas as inteligências do Universo.
As falsas acusações que Satanás tem apresentado contra o governo de Deus devem ser demonstradas como totalmente infundadas. Deus deve ser mostrado ter sido inteiramente reto na seleção de certos indivíduos para suprir o Seu Reino futuro, e no evitar a entrada de outros ali. Os atos finais de Deus evocarão dos homens as confissões: " Justo e verdadeiros são os teus caminhos" (Apocalipse 15:3), "Tu és justo, ò Senhor" (Apoc. 16:5), e, "Verdadeiros e justos são os Teus juízos".(Apoc. 16:7). A palavra traduzida para "justo" e "reto" é DIKAIO, equivalente ao Hebraico SADDIK, derivado de SADAQ, uma forma do que é traduzido "será purificado" em Daniel 8:14. Assim o Hebraico SADAQ pode exprimir o pensamento adicional de que o Caráter de Deus será plenamente reivindicado como o clímax para a "hora do seu juízo" (Apoc. 14:7). Que começou em 1844.
Veja-se PROBLEMS IN BIBLE TRANSLATION, págs. 174-177.
- Procurei Entende-la (v. 15): Daniel não compreendeu o significado do que vira. Muitas vezes os próprios portadores de uma mensagem profética precisam estuda-lá a fim de que descubram o seu significado (I Pe. 1:10-12). É dever do profeta relatar fielmente o que vira e ouvira (Apoc. 1:11)
- Gabriel (v. 16): No Velho Testamento o nome de Gabriel ocorre somente aqui e no verso 21 do capítulo 9. O Novo Testamento relata o aparecimento deste ser celeste para anunciar o nascimento de João Batista (Luc. 1:11-20), e de novo para anunciar a Maria o nascimento do Messias (Luc. 1:26-33). O visitante angélico declarou de si mesmo: "Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus". (Luc. 1:19).
- Tempo do Fim (v. 17): A visão atingiu até um tempo em que o poder desolador seria destruído, um acontecimento associado com a Vinda de Jesus (II Tess. 2:8).
O Fato de que os últimos acontecimentos representados na visão cumprir-se-ão no fim da história deste mundo, deve ser trazido em mente quando se busca uma interpretação dos símbolos da visão. Qualquer exposição que encontra um cumprimento completo da visão num período mais cedo, tal como no tempo dos Macabeus (veja o comentário sobre Dan. 8:25), fica incapacitada de encontrar cabalmente as especificações do anjo, e deve ser considerada errônea e desencaminhadora.
- Fim da Indignação (v. 19): Veja comentário sobre o verso 17.
- O Carneiro (v. 20): Veja comentários sobre os versos 3 e 4.
- Peludo (v. 21): "Cabeludo", ou "peludo". Essa palavra no original é também usada independentemente para descrever um bode. (Gen. 37:31 ; Lev. 4:23 ; etc.). Sobre a interpretação veja o comentário sobre Dan. 8:5.
- Chifre Grande (v. 21): Um símbolo de Alexandre o grande, o "primeiro rei" do império mundial Grego-Macedônio que foi destinado a substituir o Império Persa (vejam-se comentário sobre os versos 5-8).
- Quatro Reinos (v. 22): Compare-se com o verso 8; cap. 11:4. O cumprimento perfeito desta feição da visão assegura-nos, que o que se segue seguramente virá a acontecer como esta predito.
- Último Tempo (v. 23): (VARA- fim do seu reinado). Isto é depois que as divisões do Império de Alexandre tivessem existido por algum tempo. O império de Roma levantou-se gradualmente, e somente alcançou supremacia após as divisões do império Macedônio se terem enfraquecido. A profecia aplica-se a Roma em ambas as suas formas, pagã e papal. Parece haver uma confusão de aplicação; certas feições aplicam-se a ambas, outras, mais especificamente, a uma ou a outra. (veja o comentário sobre o verso 11). Que Roma papal foi para todos os propósitos práticos, a continuação do Império Romano é um fato da história bem estabelecido:
" Quaisquer que foram os elementos romanos que os bárbaros e os Arianos deixaram... foram... postos sob a proteção do Bispo de Roma, que foi a pessoa principal depois do desaparecimento do Imperador... A IGREJA ROMANA DESTA MANEIRA SECRETAMENTE PRECIPITOU-SE NO LUGAR DO IMPÉRIO MUNDIAL ROMANO, DE CUJO ELA É A ATUAL CONTINUAÇÃO; o império não mas somente sofreu uma transformação... Essa não é uma sagas observação, mas o reconhecimento do verdadeiro estado do assunto historicamente, e a mais apropriada e frutífera maneira de descrever o caráter desta igreja. Ela ainda governa as nações... Ela é uma criação política, e como se impõe como um Império Mundial, por causa da continuação do Império Romano. O Papa, que se chama a si mesmo de "Rei" e "Pontífice Máximo", é sucessor de César".
Adolf Harnack, WHAT IS CHRISTIANITY? - Nova Iorque; G. P. Putnam's Sons, 1903 (págs. 269,270 itálicos no original).
- Os Transgressores (v. 23): (VARA- prevaricadores). Nas versões gregas inserem "pecados", uma tradução que se pode obter do hebraico por uma mudança na pontuação massorética.
- Atingirem a Plenitude (v. 23): (VARA- prevaricadores - acabarem). Talvez haja aqui uma referência a várias nações, ou, possivelmente, especialmente aos judeus, que encheram a taça da sua iniqüidade.
- Catadura Feroz (v. 23): Provavelmente uma alusão a Deuteronômio 28:49-55.
- Sentenças Escuras (v. 23): (VARA - intrigas). Hebraico CHIDOTH, "relatório enigmáticos", como em Números 12:8, "enigmas", como em Juízes 14:12; Ezequiel 17:2, ou "perguntas perplexas", como em I Reis 10:1. Alguns crêem que o significado aqui seja "discurso ambíguo" ou "de duas caras".
- Levantar-se-á (v. 23): Isto é: assumirá o poder.
- Não Por Sua Própria Força (v. 24): Compare-se com: "O exército lhe foi entregue" (v.12). Alguns vêm aqui uma referência ao fato de que o papado reduziu o poder civil à subserviência e fez a espada do estado ser manejada a favor dos seus objetivos religiosos.
- Causará Estupendas Destruições (v. 24): Este poder perseguiu mesmo à morte aqueles que se opuseram as suas pretensões blasfemas, e teria extinguido "o povo santo" não tivesse o Senhor se interposto aos seus objetivos.
- Astúcia (v. 25): Melhor, "fraude". Os métodos deste poder são a perfeição em subtilezas e fraudes.
- Pela Paz (v. 25): (VARA-que vivem despreocupadamente). Melhor, "enquanto vivem facilmente", isto é: enquanto muitos pensam que estão vivendo em segurança serão destruídos inopinadamente. O Dr. Mervyn Maxwell em seu livro "Uma Nova Era Segundo as Profecias de Daniel", página 192, faz uma alusão a este versículo comparando com "o Massacre de São Bartolomeu".
- Príncipes dos Príncipes (v. 25): Evidentemente o mesmo ser designado por "príncipe dos exércitos" no v. 11, ninguém mais senão Cristo. Foi um governador romano que sentenciou Cristo à morte. Mãos romanas pregaram-no na cruz, e uma lança romana furou o Seu lado.
- Sem Mãos (v. 25): Isto implica que o próprio Senhor eventualmente destruirá este poder (Dan. 2:34). O sistema eclesiástico representado por este poder continuará até ser destruído sem mãos humanas na segunda Vinda de Cristo.
Um certo número de comentaristas tem realçado o ponto de vista de que o "chifre pequeno" do cap. 8 simboliza a carreira de Antíoco Epífânio. Contudo um exame cuidadoso da profecia torna evidente a imperfeição com que este perseguidor rei Selêucida preenche as especificações realçadas. Os quatro chifres do bode (cap. 8:8) foram reinos (v. 22), e é natural esperar-se ser o chifre pequeno também um reino. Porém Antíoco foi somente um rei do império Selêucida, daí o ter sido apenas uma parte de um chifre. Portanto não poderia ter sido UM OUTRO chifre completo. Além disso, este chifre se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa, ou seja, a Palestina (v. 9). O avanço de Antíoco no Egito terminou em humilhação da parte dos romanos, os seus sucessos na Palestina foram pouco duradouros, e o seu esforço no sentido do oriente foi interrompido pela sua morte. A sua política de fortalecer o Helenismo falhou totalmente e a sua astúcia não lhe trouxe prosperidades salientes (v.12).
Além disso, Antíoco não apareceu no fim (v. 23), mas sim cerca da metade do período dos divididos reinos helenísticos; a sua força dificilmente seria atribuída a algo mais, senão ao seu poder próprio; a sua astúcia e política falharam mais do que progrediram (v. 25); não se levantou contra nenhum "Príncipe dos Príncipes" judeu (v. 25); o seu lançamento da verdade por terra (v. 12), foi temporário e completamente mal sucedido, por ter levado os judeus à defesa de sua fé contra o Helenismo. Mesmo embora tenha falado palavras altivas, oprimindo o povo de Deus, e brevemente profanado o Templo, o ainda que alguns outros pontos possam ser provados como parcialmente verdadeiros de suas atividades, não obstante a disparidade de Antíoco como um cumprimento de muitas especificações da profecia é óbvia.
- Da Tarde e Da Manhã (v. 26): Uma clara referência à profecia do tempo do v. 14 (ver os comentários sobre o seguinte versículo). Neste verso o anjo não dilata a visão dos 2300 dias, mas meramente põe ênfase a sua veracidade.
- Preserva (v. 26): Compara-se com instruções registradas no cap. 12:4.
- Por Muitos Dias (v. 26): O cumprimento dos vários detalhes da visão estender-se-ia para o futuro distante.
- Eu Daniel Enfraqueci (v. 27): Daniel estava, sem dúvida, profundamente interessado nos acontecimentos que lhe tinham sido revelados. Em vez de predizer um fim imediato da indignação, Gabriel informou ao profeta que o fim derradeiro seria muitos anos no futuro.
RELACIONAMENTO TIPOLÓGICO ENTRE DANIEL 8 E LEVÍTICO.
Seria correto, razoável, analisar Levítico para compreender a profecia em Daniel?
Os evangélicos na concordam com isto, não crêem que Daniel tenha qualquer relacionamento com Levítico. Vejamos, porém, alguns aspectos em Daniel 8 que apontam diretamente para Levítico, e o ponto central é que Daniel 8 é uma profecia sobre o santuário e, se queremos considerar alguma pare da Bíblia que fala direta e extensamente sobre o santuário, só encontramos em Levítico. Estudar Daniel 8 sem estudar Levíticos é deixar de lado a mais importante de informação.
1. Carneiro - Os animais de Daniel 8 contrastam com Daniel 7 - neste os animais são bestas/feras, enquanto;
2. Bode - naquele são animais domésticos, que se USAVAM NOS SACRIFÍCIOS.
3. Chifres - após se quebrar o grande chifre na cabeça do bode, quatro outros crescem em seu lugar. Num jogo de palavras com um israelita daquele tempo, se falássemos "quatro chifres", a idéia associada seria "altar" (os chifres do altar).
4. Santuário - a palavra é utilizada três vezes na profecia.
5. Tamid - palavra que é usada para ministração - ocorre 30 vezes no VT em relação ao santuário.
6. Tarde/manhã - tempo do santuário (Deus indicava o tempo através da nuvem).
7. Santo (Daniel 8:13) - a palavra usada no VT para anjo é MALA´K. mas não é este termo empregado aqui. SANTO é um título raro no VT, Por que a palavra em relação a anjos? Porque são santos e estão servindo num santo lugar. O que é este santo lugar? O SANTUÁRIO, Isto foi demonstrado no próprio santuário: querubins sobre o propiciatório e figuras de anjos nas cortinas.
Portanto, estes itens estabelecem a ligação entre Daniel e Levítico e é perfeitamente lógico buscar informações sobre o santuário no livro de Levítico.
Estudo feito por Luiz Gustavo S. Assis, baseado no Comentário Bíblico Adventista de Daniel (1963), na apostila "Sermões Doutrinários" do Dr. Alberto R. Timm, no livro do Dr. Mervyn Maxwell "Uma Nova Era Segundo As Profecias de Daniel", na apostila "Profecia Bíblica" feita pelo Dr. José Carlos Ramos e na apostila "Estudos Sobre Santuário" feita pelo Pastor Carlos Alvarenga.
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Os 1290 e 1335 dias de Daniel 12
Alberto R. Timm
A interpretação dos "1290 dias" e dos "1335 dias" de Daniel 12:11 e 12 respectivamente como 1290 anos e 1335 anos é antiga, podendo ser encontrada já entre os expositores judeus do século 8 d.C. Essa interpretação, baseada no princípio dia-ano (Núm. 14:34; Ezeq. 4:6 e 7), continuou sendo advogada pelos seguidores de Joaquim de Fiore (1130-1202), bem como por vários outros expositores, durante a pré-Reforma, a Reforma e a tradição protestante subseqüente.1
Guilherme Miller (1782-1849), por sua vez, acreditava, em primeiro lugar, que tanto os 1290 anos como os 1335 anos haviam iniciado em 508, quando Clóvis obteve a vitória sobre os visigodos arianos, passo esse decisivo na união dos poderes político e eclesiástico para a punição dos considerados hereges pelo catolicismo medieval. Em segundo lugar, Miller cria que os 1290 anos haviam se cumprido em 1798, com o aprisionamento do Papa Pio VI pelos exércitos franceses; e, finalmente, que os 1335 anos se estenderiam por mais 45 anos até o término dos 2300 anos de Daniel 8:14, entre 1843 e 1844.2
Essa interpretação foi mantida pelos primeiros adventistas observadores do sábado,3 transformando-se na posição histórica da Igreja Adventista do Sétimo Dia até hoje.4 Porém, em anos recentes, alguns pregadores independentes começaram a propagar o que consideram nova luz sobre os 1290 e 1335 dias de Daniel 12. Rompendo com a tradicional compreensão adventista, tais indivíduos alegam que ambos os períodos são compostos por dias literais, e não dias que representam anos, a se cumprirem ainda no futuro.
Alguns deles sugerem que ambos os períodos iniciarão com o futuro decreto dominical; que os 1290 dias literais são o período reservado para o povo de Deus sair das cidades; e que ao término dos 1335 dias literais a voz de Deus será ouvida anunciando "o dia e a hora" da volta de Cristo.5 Por mais interessante que essa teoria possa parecer, existem pelo menos cinco razões básicas que nos impedem de aceitá-la.
1. A teoria se baseia numa leitura parcial e tendenciosa dos escritos de Ellen White.
Um dos argumentos para justificar o cumprimento futuro dos 1290 e 1335 dias é a falsa alegação de que Ellen White considerava como errônea a noção de que os 1335 dias já haviam se cumprido no passado. Alusões são feitas à carta que ela enviou "à igreja na casa do irmão Hestings", datada de 7 de novembro de 1850, na qual são mencionados alguns problemas relacionados com o irmão O. Hewit, de Dead River.
No texto original em inglês dessa carta aparece a seguinte declaração: "We told him of some of this erros in the past, that the 1335 days were ended and numerous errors of his."6 Essa declaração deveria ser traduzida simplesmente como: "Nós lhe mencionamos alguns dos seus erros do passado, que os 1335 dias haviam se cumprido e muitos dos seus erros." No entanto, alguns defensores da nova teoria profética preferem substituir a conjunção "que" (inglês that) pela expressão "tais como" (inglês such as), alterando dessa forma o sentido do texto. Assim, eles conseguem fazer com que a sentença diga que entre os erros advogados por Hewit estava também a idéia de "que os 1335 dias haviam se cumprido".
Se a intenção de Ellen White era realmente corrigir o irmão Hewit por crer que os 1335 dias já haviam se cumprido, permaneceriam as indagações? Por que Ellen White se limitou a corrigir, em 1850, de forma parcial e tendenciosa, apenas a posição desse irmão, sem qualquer repreensão aos demais líderes do movimento adventista que também criam que esse período profético já havia se cumprido em 1844? Por que ela não reprovou o seu próprio esposo, Tiago White, por afirmar na Review and Herald, ainda em 1857, que "os 1335 dias terminaram com os 2300, com o Clamor da Meia-Noite em 1844"?7
Por que ela não o repreendeu por continuar publicando na mesma Review vários artigos de outros autores, advogando a mesma idéia?8
E mais, como poderia Ellen White haver declarado, em 1891, que "nunca mais haverá para o povo de Deus uma mensagem baseada em tempo. Não devemos saber o tempo definido nem para o derramamento do Espírito Santo nem para a vinda de Cristo"?9
Evidências de que Ellen White cria que esses períodos já haviam se cumprido em seus dias podem ser encontradas também em suas declarações segundo as quais Daniel já estava sendo vindicado em sua sorte (ver Dan. 12:13) desde o início do tempo do fim.10 Cremos, portanto, que o Dr. Gerard. P. Damsteegt, professor do Seminário Teológico da Universidade Andrews, estava correto ao declarar que "já em 1850 E. G. White havia escrito que 'os 1335 dias haviam se cumprido', sem especificar o tempo do seu término".11
2. A teoria quebra o paralelismo profético-literário do livro de Daniel.
Para justificar o suposto cumprimento futuro dos 1290 e 1335 dias, os advogados da "nova luz" profética alegam, sem qualquer constrangimento, que o conteúdo da Daniel 12:5-13, onde são mencionados esses períodos, não é parte da cadeia profética do livro de Daniel. Porém, uma análise mais detida da estrutura literária do livro não confirma essa teoria. O Dr. William H. Shea esclarece que, no livro de Daniel, cada período profético (1260, 1290, 1335 e 2300 dias) aparece como um apêndice calibrador ao corpo básico da respectiva profecia que lhe corresponde.
Por exemplo, a visão do capítulo sete é descrita nos versos 1-14, mas o tempo a ela relacionado só aparece no verso 25. No capítulo 8, o corpo da visão é relatado nos versos 1-12, mas o tempo só ocorre no verso 14. De modo semelhante, os tempos proféticos relacionados com a visão do capítulo 11 só são mencionados no capítulo 12.12 Esse paralelismo comprova que os 1290 dias e os 1335 dias de Daniel 12:11 e 12 compartilham da mesma natureza profético-apocalíptica dos termos "tempo, tempos e metade de um tempo", de Daniel 7:25, e as 2300 tardes e manhãs de Daniel 8:14.
Assim, se aplicarmos o princípio dia-ano aos períodos proféticos de Daniel 7 e 8, também devemos aplicá-lo aos períodos de Daniel 12, pois todos esses períodos estão interligados, de alguma forma, e a descrição de cada visão indica apenas um único cumprimento para o período profético que lhe corresponde.
Além disso, a alusão em Daniel 12:11 ao "sacrifício diário" e à "abominação desoladora" conecta os 1290 e os 1335 dias não apenas com o conteúdo da visão de Daniel 11 (Dan. 11:31), mas também com as 2300 tardes e manhãs de Daniel 8:14 (ver Dan. 8:13; 9:27). O mesmo poder apóstata que haveria de estabelecer a "abominação desoladora" em lugar do "sacrifício diário" é descrito em Daniel 7 e 8 como o "chifre pequeno", e em Daniel '' como o "rei do Norte." Portanto, a tentativa de interpretar alguns períodos proféticos de Daniel (70 semanas, 2300 tardes e manhãs) como dias que simbolizam anos, e outros (1290 dias, 1335 dias) como meros dias literais, é totalmente incoerente com o paralelismo profético-literário do livro de Daniel.
3. A teoria apóia-se em uma interpretação não bíblica do termo hebraico tamid.
A teoria de que tanto os 1290 dias quanto os 1335 dias iniciam com o futuro decreto dominical é baseada na suposição de que, em Daniel 12:11, as expressões "sacrifício diário" e "abominação desoladora" significam respectivamente o sábado e o domingo. Mas também essa suposição carece de fundamento escriturístico.
A expressão "sacrifício diário" é a tradução do termo hebraico tamid, que significa "diário" ou "contínuo", ao qual foi acrescentada a palavra "sacrifício", não encontrada no texto original de Daniel 8:13 e 12:11. A palavra tamid é usada nas Escrituras em relação não apenas com o sacrifício diário do santuário terrestre (ver Êxo. 29:38 e 42), mas também com vários outros aspectos da ministração contínua daquele santuário (Êx. 25:30; 27:20; 28:29 e 38: 30:8; I Crôn. 16:6). No livro de Daniel, o termo se refere, obviamente, ao contínuo ministério sacerdotal de Cristo no santuário celestial (Dan. 8:9-14). Já a expressão "transgressão assoladora" ou "abominação desoladora" subentende o amplo sistema de contrafação a esse ministério, construído sobre as teorias antibíblicas da imortalidade natural da alma, da mediação dos santos, do confessionário, do sacrifício da missa, etc.
Não podemos concordar com a teoria de que em Daniel 12 o "diário" representa simplesmente o sábado, e a "abominação desoladora", o domingo. Para crermos dessa maneira, teríamos que esvaziar essas expressões do amplo significado que lhes é atribuído tanto pelo próprio contexto bíblico no qual aparecem, como também pelo consenso geral das Escrituras.
4. A teoria reflete a interpretação jesuíta futurista da Contra-Reforma católica.
Os defensores da interpretação literal-futurista dos 1290 e 1335 dias alegam que sua posição é genuínamente adventista e plenamente sancionada pelos escritos de Ellen G. White. No entanto, se analisarmos mais detidamente o assunto à luz da História, perceberemos que essa teoria rejeita o historicismo e o princípio dia-ano da tradição protestante, para se alinhar abertamente com o futurismo literalista da Contra-Reforma católica.
Os reformadores protestantes do século 16 identificavam o "chifre pequeno" com o papado, do qual se originaria a "abominação desoladora" de que fala Daniel.13
Foi para inocentar o papado dessas acusações que o cardeal italiano Roberto Bellarmino (1542-1621), o mais capaz e renomado de todos os polemistas jesuítas, sugeriu que o "chifre pequeno" era um mero rei e que os 1260, 1290 e 1335 dias eram apenas dias literais a se cumprirem somente no período que antecederia o fim do mundo.14 Dessa forma, o papado contemporâneo não poderia mais ser identificado como o "chifre pequeno" ou "rei do Norte" e, conseqüentemente, não mais poderia ser responsabilizado pela "transgressão assoladora" ou "abominação desoladora".
Muitos dos defensores contemporâneos da interpretação futurista dos 1290 e 1335 dias desconhecem o comprometimento dessa teoria com o futurismo da Contra-Reforma católica. Mas, mesmo assim, tais indivíduos deveriam pelo menos reconhecer que "essas propostas futuristas repousam, essencialmente, sobre uma compreensão errônea dos padrões de pensamento da poesia hebraica", e que "elas representam uma leitura do idioma hebraico através de óculos ocidentais".15
5. A teoria menospreza as advertências de Ellen G. White contra a tentativa de se estender o cumprimento de qualquer profecia de tempo para além de 1844.
Se essa teoria fosse correta, bastaria ser promulgado o decreto dominical, e já saberíamos por antecipação quando a porta da graça se fecharia e quando ocorreria a segunda vinda de Cristo. Essa é, por conseguinte, mais uma forma sutil e capciosa de se estabelecer datas para os eventos finais. Por mais originais e criativas que possam parecer, essas tentativas não passam de propostas especulativas, que desconhecem ou menosprezam, em nome de Ellen White, as suas próprias advertências sobre o assunto.
Já em 1850, ela escreveu: "O Senhor me mostrou que o tempo não tem sido um teste desde 1844, e que o tempo nunca mais será um teste."16
Posteriormente, acrescentou que "nunca mais haverá para o povo de Deus uma mensagem baseada em tempo". "O Senhor mostrou-me que a mensagem deve ir, e que não deve depender de tempo; pois tempo não será nunca mais uma prova. Deus não nos revelou o tempo em que esta mensagem será concluída, ou quando terá fim o tempo de graça."17
Somente depois do fechamento da porta da graça, e pouco antes da segunda vinda, é que Deus há de declarar aos salvos "o dia e a hora da vinda de Jesus".18
Comentando a expressão "que não haveria mais tempo" (Apoc. 10:6 KJV), em 1900, a sra. White declarou: "Esse tempo, que o anjo declara com um solene juramento, não é o fim da história deste mundo, nem o tempo de graça, mas o tempo profético, que precederia o advento de nosso Senhor. Ou seja, o povo não terá outra mensagem a respeito de um tempo definido. Após este período de tempo, que se estende de 1842 a 1844, não pode haver qualquer cálculo definido de tempo profético."19
Sendo esse o caso, por que então continuar insistindo em reaplicar os 1290 dias e os 1335 dias de Daniel 12 para o futuro? Cabe somente a Deus julgar o grau de sinceridade daqueles que assim o fazem, mas uma coisa é certa: A"fé em uma mentira não terá influência santificadora sobre a vida ou o caráter. Nenhum erro é verdade, nem pode tornar-se verdade pela repetição, ou por fé nele. ... Posso ser perfeitamente sincera em seguir um caminho errado, mas isso não torna o caminho certo, nem me levará ao lugar que eu desejava chegar."20
PROTEGIDOS DO ENGANO
É evidente, portanto, que a teoria de um cumprimento futuro dos 1290 e 1335 dias baseia-se numa leitura parcial e tendenciosa dos escritos de Ellen White, quebra o paralelismo profético-literário do livro de Daniel, apóia-se em uma interpretação não bíblica do termo hebraico tamid, reflete a interpretação jesuíta futurista da Contra-Reforma católica, e menospreza as inspiradas advertências contra a tentativa de se estender o cumprimento de qualquer profecia de tempo para além de 1844.
Numa época em que os vendavais de falsas doutrinas estarão soprando com forte intensidade (Efés. 4:14), "para enganar, se possível, os próprios eleitos" (Mat. 24:24), só estaremos seguros se alicerçados sobre a clara e inamovível Palavra de Deus. Toda "nova luz", para ser verdadeira, deve estar em perfeita harmonia com o consenso geral das Escrituras e dos escritos inspirados de Ellen White.21 Os atalaias do povo de Deus jamais deveriam permitir que as conjecturas e as especulações humanas os impeçam de dar à trombeta o sonido certo (Eze. 33:1-9; I Cor. 14:8).
Referências:
1 LeRoy Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, Washington, D.C.: Review and Herald, 1954, vol. 4, págs. 205 e 206.
2 William Miller, Evidences from Scripture and History of the Second Coming of Christ about the Year a.D. 1843, and of His Personal Reign of 1000 Years, Brandon, Vermont: Telegraph Office, 1833, pág. 31; Idem, Evidence from Scripture and History of the Second Coming of Christ, about the Year 1843,
Exhibited in a Course of Lectures, Boston, Joshua V. Himes, 1842, págs. 95-104, 296 e 297; Idem, Synopsis of Miller's Views, Signs of the Times, 25/01/1843, págs. 148 e 149.
3 P. Gerard Damsteegt, Foundations of the Seventh-day Adventist message and Mission, Grand Rapids, MI; Eerdmans, 1977, págs. 168-170.
4 ver Uriah Smith, Synopsis of the Present Truth, nº 12, Review and Herald, 28/01/1858; Stephen N. Haskell, The Story of Daniel the Prophet, Berrien Springs, MI, 1903; págs. 263-265; J. N. Loughborough, The Thirteen Hundred and Thirty-Five Days, Review and herald, 04/04/1907, págs. 9 e 10; Uriah Smith, The Prophecies of Daniel and the Revelation, Washington, D.c., Review and Herald, 1944, págs. 330 e 331; George Price, The Greatest of the Prophets: A New Commentary on the Book of Daniel, (Mountain View, CA, 1955, págs. 337-342; Araceli S. Melo, Testemunhos Históricos das profecias de Daniel, Rio de Janeiro, RJ, Laemmert, 1968, págs. 727-729. Francis D. Nichol (editor), The Seventh-day Adventist Bible Commentary, Washington, D.C., Review and Herald, 1977, vol. 4, págs. 880 e 881; Vilmar e. Gonzalez, "Os 1290 e 1335 dias em Daniel 12", Revista Adventista, 09/82, págs. 43 e 45; Hacques B. Doukhan, Daniel: The Vision of the End, Berrien springs, MI, 1989, pág. 135; William H. Shea, "Time Prophecies of Daniel 12 and Revelation 12 e 13, in Frank Holbrook (editor), Symposium on Revelation - Book 1, Daniel and Revelation Commitee Séries, vol. 6, Silver Spring, MD, 1992, págs. 327-360.
5 Victor Michaelson, Delayed Time-setting Heresies Exposed, Payson, AZ; Leaves-Of-Autumn, 1989.
6 E. G. White, Carta H-28, 07/11/1850.
7 James White, "The Judgment", Review and Herald, 29/01/1857, pág. 100.
8 J. N. Loughborough, "The Hour of His Judgement Come", Review and Herald, 14/02/1854, pág. 30; Uriah Smith, "Short Interviews with Correspondents", Idem, 24/02/1863, pág. 100, e 08/09/1863, pág. 116.
9 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 188.
10 Idem, Manuscrito 50, 1893; Carta K-59, 22/11/1896; Manuscrito 176, 04/11/1899; Manuscrito 10, 1900; Carta B-6, 17/01/1907.
11 P. Gerard Damsteegt, Op. Cit., pág. 169.
12 William H. Shea, The Abundant Life Bible Amplifier, Boise ID, Pacific Press Association, 1996, págs. 217-223.
13 LeRoy Froom, Op. Cit., vol. 2, págs. 241-463.
14 Ibidem, págs. 495-502.
15 Frank Holbook, Symposium on Revelation - Book 1, pág. 327.
16 Elen G. White, Primeiros Escritos, pág. 75
17 Idem, Op. Cit., vol 1, págs. 188 e 191.
18 Idem, O Grande Conflito, pág. 640.
19 Comentários de Ellen White em The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 7, pág. 971.
20 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 56.
21 Idem, Counsels to Writers and Editors, págs. 33-51.
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As 2300 Tardes e Manhãs e a Hora do Juízo
Alejandro Bullón
O juízo universal
No livro do Apocalipse encontramos o anúncio de um juízo. Um juízo universal e de conseqüências eternas. Um dia Lúcifer disse que estava certo e Deus, errado. O Criador deu-lhe o tempo necessário para provar a validade de suas acusações e para esclarecer qualquer dúvida na mente das criaturas. Mas, finalmente, chega o dia em que todas as acusações e seus resultados devem ser julgados.
No capítulo 14 de Apocalipse, o apóstolo João nos leva a contemplar essa cena crucial do grande conflito entre o bem e o mal. "Vi outro anjo" - diz o profeta - "voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, tribo, língua, e povo." (Apocalipse 14:6).
* Quem é esse anjo e a quem simboliza?
Ao longo de todo o livro do Apocalipse são mencionados muitos anjos. Dessa vez João vê outro anjo. Este "anjo" ou "mensageiro" representa, segundo os comentaristas bíblicos, "os servos de Deus empenhados na tarefa de proclamar o evangelho".1 Afinal de contas, a missão de pregar o evangelho foi dada por Jesus aos discípulos antes de o Mestre partir." (Marcos 16:15 e 16). Quer dizer que, hoje, existe neste mundo um povo especial, com uma mensagem especial para ser dada aos moradores da Terra.
A mensagem que essas pessoas proclamam é a seguinte: "Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora de Seu juízo." (Apocalipse 14:7). Essa mensagem é de suma importância porque é o anúncio do dia do acerto de contas: finalmente chegou a hora do julgamento. Quando o juízo findar, todo o Universo saberá sem sombras de dúvidas quem estava com a razão: Satanás ou Cristo. Lá nos céus, muito tempo atrás, Lúcifer acusou a Deus de ser tirano, arbitrário e cruel. Acusou-O de estabelecer princípios de vida que nenhuma criatura poderia cumprir e, portanto, de não merecer mais adoração nem obediência. Mas agora chegou o momento do veredicto final. A História encarregou-se de acumular as provas. Os livros serão abertos, e o juízo começará.
A Bíblia está cheia de afirmações que confirmam a existência de um juízo para a raça humana. Observe algumas delas:
1. "Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más." (Eclesiastes 12:14)
2. "Porquanto [Deus] estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça..." (Atos 17:31)
3. "Porque importa que todos nós compareçamos ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou mal que tiver feito por meio do corpo." (II Coríntios 5:10)
Mas a grande pergunta é: Quando acontece o juízo? Como saber o tempo exato em que esse julgamento terá início? Se nosso destino eterno está em jogo, não deveríamos preocupar-nos por estudar a profecia a fim de estar preparados para aquele dia?
Dia do juízo
Para compreender as profecias do Apocalipse é preciso conhecer bem o Velho Testamento. Isso porque, no Apocalipse, muitos detalhes proféticos do Velho Testamento cobram sentido. No Apocalipse está o maravilhoso final da história que começa no Gênesis. Portanto, para saber quando começa o juízo que o Apocalipse menciona, é preciso rever, na história bíblica, quando se realizava o juízo em Israel, o povo de Deus no Velho Testamento.
Segundo o Mishná, que é a coleção dos escritos judeus, o juízo de Israel começava no primeiro dia do sétimo mês, com a Festa das Trombetas, e terminava no décimo dia, com a Cerimônia da Expiação. Até hoje esse dia é denominado "Yom Kippur", que significa literalmente "dia do juízo".2 Nesse dia, cada verdadeiro israelita renovava sua consagração a Deus e confirmava seu arrependimento, ficando, assim, perdoado e limpo. (Levítico 16:30)
Nesse dia, também, o sumo sacerdote de Israel efetuava a limpeza ou purificação do santuário, com sacrifícios de animais. Note agora o que a Bíblia diz a esse respeito: "Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos Céus se purificassem com tais sacrifícios; mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios a eles superiores. Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém, no mesmo Céu, para compadecer, agora, por nós, diante de Deus." (Hebreus 9:23 e 24).
Um santuário no Céu e o juízo
Se você analisar com cuidado essa declaração bíblica, chegará à conclusão natural de que existe um Santuário lá nos Céus e que o santuário terreno do povo de Israel era apenas uma figura do verdadeiro que está nos Céus. Bom, se o dia da purificação do santuário de Israel era o dia do juízo para aquele povo, está claro que o dia da purificação do Santuário Celestial será também o dia do juízo da humanidade. Mas quando acontecerá isso? Se descobrirmos essa data, teremos descoberto a data do início do julgamento do planeta em que vivemos. Não é fascinante?
Agora vem algo que surpreende: a Bíblia contém uma profecia quase desconhecida pela humanidade (se você tiver uma Bíblia em casa, é só conferir). Essa profecia esta registrada em Daniel 8:14, e diz assim: "Até duas mil e trezentas tardes e manhãs e o santuário será purificado." Essa profecia não pode se referir à purificação do santuário de Israel, porque essa purificação era realizada a cada ano. Aqui está falando necessariamente da purificação do Santuário nos Céus. E isto é confirmado pela própria Bíblia (Hebreus 9:25 e 26). Isso que dizer que, se descobrimos quando termina essa profecia, teremos descoberto o dia da purificação do Santuário Celestial, ou seja, o dia do juízo dos seres humanos.
Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que, em profecia, um dia equivale a um ano (Números 14:34; Ezequiel 4:6 e 7). Para saber, então, quando termina esse período de dois mil e trezentos anos é preciso saber quando ele começa. Essa profecia foi revelada ao profeta Daniel com a seguinte advertência: "A visão da tarde e da manhã é verdadeira. Tu porém cerra a visão porque se refere a dias mui distantes." (Daniel 8:26). E Daniel acrescenta: "Eu, Daniel, desmaiei, e estive enfermo alguns dias... E espantei-me acerca da visão, pois não havia quem entendesse." (Daniel 8:27).
Enquanto Daniel orava pedindo que Deus lhe revelasse o significado da profecia, o anjo apresentou-se novamente ao profeta, dizendo: "No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a palavra, e entende a visão... Sabe e entende, que desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o Ungido, o Príncipe, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas... E ele fará um pacto firme com muitos por uma semana; e, na metade da semana, fará cessar o sacrifício." (Daniel 9:23 a 27).
Nesse texto estão contidos dados necessários para entender a profecia. Com essa declaração bíblica podemos estabelecer o seguinte diagrama: (primeiro leia os pontos explicativos e depois olhe para o diagrama).
1. Perceba que o período profético de 2300 anos começa quando saiu "a ordem para restaurar e edificar Jerusalém". (Daniel 9:25; Esdras 7:7 e 11; Esdras 7:21 e 22). E a História registra que essa ordem foi dada pelo rei Artaxerxes, da Pérsia, no ano 457 a.C. Este é, então, o ano do início do período profético.
2. A profecia diz que, do ano 457 a.C. "até o Ungido Príncipe" (ou seja, o batismo de Jesus), haveria "sete semanas e sessenta e duas semanas". Esse total de 69 semanas, em linguagem profética, equivale a 483 anos, o que nos leva ao ano 27 d.C., data em que historicamente realizou-se o batismo de Jesus. Até aqui a profecia tem-se cumprido com exatidão.
3. A profecia fala de uma semana a mais (sete dias proféticos = sete anos), que nos leva do ano 27 d.C. até o ano 34 d.C., quando o apóstolo Estevão foi apedrejado pelo povo judeu e, com isso, o tempo de Israel estava acabado. "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo" (Daniel 9:24), tinha dito o anjo ao explicar a profecia para Daniel. Isso também se cumpriu com exatidão.
4. A profecia afirma que, na metade dessa última semana - que nos leva ao ano 31 d.C. - "fará cessar o sacrifício". Noutras palavras, Jesus morreria na cruz e já não seria mais necessário o sacrifício de animais que Israel realizava. A História registra que, exatamente no ano 31 d.C., Jesus foi morto, e você pode ver mais uma vez como a profecia se cumpriu de maneira extraordinária.
5. Até aqui, tudo aconteceu como estava previsto. A profecia foi dada a Daniel por volta do ano 607 a.C. e, séculos depois, tudo se cumpriu ao pé da letra.
6. Agora me acompanhe no raciocínio. Se, depois do período de 70 semanas (490 anos) continuarmos contando o tempo, concluiremos que o período de 2300 anos termina em 1844. Quer dizer que, naquele ano, segundo a profecia, o Santuário Celestial seria purificado, ou seja, começaria o grande julgamento da raça humana.
* 457 a.C. - Emissão da ordem para reconstruir Jerusalém (Esdras 7:11 e 12).
* 408 a.C. - Jerusalém reconstruída e o Estado judeu restaurado.
* 27 d.C. - Batismo de Jesus (Mateus 3:13 a 17).
* 34 d.C. - Morte de Estevão (Atos 7:54 a 60); a Igreja é perseguida (Atos 8:1 a 3) e o Evangelho é levado aos gentios (Atos 13:44 a 48).
* 1844 - Início do Juízo Investigativo (Daniel 8:14; Apocalipse 3:7 e 8).
Vivendo em pleno juízo
Isso é algo surpreendente e de solene significado. A humanidade não pode viver este milênio sem saber que o juízo divino começou. Este não é um assunto para o futuro. Segundo a profecia, foi a partir de 1844 que o destino dos homens começou a ser definido, e milhões de pessoas no mundo ignoram essa verdade. Por isso o Apocalipse declara que era necessário levantar-se um anjo "voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a toda nação, tribo, língua, e povo, dizendo em grande voz: temei a Deus e dai-Lhe glória, pois "É CHEGADA A HORA DE SEU JUÍZO".
Perceba que o anjo voa. Isso é urgente. Voar significa rapidez. Não há mais tempo a perder. Perceba que a mensagem é dada em alta voz. Isso não pode ser ignorado por mais tempo. Precisa ser proclamado em toda a Terra e para todos os seres humanos. E, finalmente, perceba que este evangelho é eterno. Não é nada novo; algo que foi inventado por alguém. Trata-se da história do maravilhoso amor de Deus pelos seres humanos.
Infelizmente, o juízo, por algum motivo, é mal compreendido pela humanidade. Muitos confundem o juízo divino com os flagelos e catástrofes que acontecerão antes da volta de Cristo, e que também estão profetizados no Apocalipse. Só que aqueles flagelos são parte da sentença. Eles são resultado do juízo. Não é juízo. A prisão ou pena de morte, por exemplo, não é o juízo da pessoa, mas a condenação. Juízo é o processo pela qual se considera o caso: existe um juiz, um advogado, um promotor de acusação, testemunhas e provas.
Veja como o profeta Daniel descreve o juízo celestial: "Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de dias Se assentou; Sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça, como a lã pura... um rio de fogo manava e saía de diante dEle. Milhares e milhares O serviam, e miríades e miríades estavam diante dEle; assentou-se o tribunal, e se abriram os livros." (Daniel 7:9 e 10) Note, aí estão o Juiz e também os livros.
Agora confira como o juízo é descrito pelo Apocalipse: "E olhei, e eis não somente uma porta aberta como também a primeira voz que ouvi dizendo: sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas." (Apocalipse 4:1). Depois de que coisas? Depois que a porta for aberta, claro. E quando é que a porta foi aberta?
Uma porta aberta em 1844
No santuário de Israel, a porta que levava do lugar santo ao lugar santíssimo, era aberta a cada ano, no Dia da Expiação (que era o dia do juízo). Com relação ao Santuário Celestial é dito que:
* "Pois Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio Céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; nem também para Se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote de ano em ano entra no santo lugar com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que Ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, Se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de Si mesmo, o pecado." (Hebreus 9:24 a 26)
Que dizer que, em 1844, a porta entre o lugar santo e o lugar santíssimo, lá nos Céus, abriu-se para que Jesus pudesse iniciar a purificação do Santuário. E quando essa porta se abriu, veja o que João viu:
* "Imediatamente, eu me achei no espírito, e eis armado no Céu um trono, e no trono alguém sentado." (Apocalipse 4:2).
Depois, João descreve a cena ao longo de todo o capítulo quatro de Apocalipse. Ali são mencionados: o trono de Deus, rodeado de querubins; um arco-íris em cima do trono; e, em volta, 24 pequenos tronos onde se assentam 24 anciãos, que declaram: "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder." (Apocalipse 4:11).
Não são semelhantes essa declaração e a do anjo de Apocalipse 14, que proclama: "Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora de seu juízo"? Anjos no Céu e homens na Terra confirmam que a glória pertence a Deus, porque alguém quer usurpar essa glória. Depois de descrever a cena, João continua: "Vi na mão direita dAquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro, e por fora selado com sete selos."
Está montada a cena. O tribunal está instalado. Segundo a profecia isso aconteceu em 1844 e, no presente momento, a humanidade está sendo julgada. Qual é o assunto em pauta? Qual é a acusação? Quais os argumentos? Quem é o acusador? Quem é o Advogado de defesa? Quem são as testemunhas? E quem é o Juiz? A cortina vai cair e o conflito dos séculos será desvendado.
Alejandro Bullón, O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse, 1.ª ed., 1998, pág. 29.
Para saber mais sobre: O Princípio do Dia Profético dos 2300 anos.
1. Seventh-Day Adventist Bible Comentary, vol.7, pág. 827.
2. The Jewish Encyclopedia, vol. 2, pág. 281.
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Re-exame de EREB BOQUER de Daniel 8:14
Siegfried Julio Schwantes
Sinopse editorial: A tradução literal da expressão cronológica de Daniel 8:14 rezaria assim: "E ele me disse: ate tarde ('ereb) manhã (bóqer) dois mil e trezentos, então . . ."
Os eruditos modernos comumente usam esta frase das 2300 Tardes-manhãs como referência ao TÁMID ("regular, continuo") sacrifício da tarde e da manhã que era oferecido diariamente como sacrifício regular por todo o Israel. Pressupõe-se que o texto se refere a 2300 sacrifícios regulares. Uma vez que dois destes sacrifícios eram oferecidos a cada dia, a cifra é reduzida à metade a fim de se obter aquilo que se imagina ser a extensão de tempo envolvida, ou seja, 1150 dias.
Desta forma, a conhecida versão "Good News Bible" (TEV), publicada pela Sociedade Bíblica Americana, interpreta a passagem da seguinte maneira. "Ouvi o outro anjo responder: 'Isto continuará durante 1.150 dias, durante os quais os sacrifícios da tarde e da manha não serão oferecidos.’" (A interpretação reflete a tentativa popular de tentar harmonizar as declarações de Daniel com o modelo de Antíoco IV e o período de dessecração do templo, ocorrida entre 167 e 164 A. C.). O autor deste capitulo nega a validade de semelhante interpretação do numero 2300 em Daniel 8:14 e apresenta as seguintes observações:
1. Em primeiro lugar, não esta comprovada a suposição de que a expressão 2300 tardes e manhãs se refere ao sacrifício támid. Esse termo não aparece no texto. Assim, é necessário supor que "tarde-manhã" se refira a támid.
A palavra hebraica támid efetivamente aparece com bastante regularidade em conexão com o ritual do santuário. Ela é amplamente utilizada como advérbio ("continuamente" ou "diariamente") e como adjetivo ("continuo , perpetuo"). Seu uso como substantivo aparece somente no livro de Daniel, onde aparentemente esta em relação com todas as facetas regulares das atividades do primeiro .compartimento do santuário.
2. Os eruditos modernos pressupõem adicionalmente que o termo támid pode ser entendido como aplicando-se a cada um dos dois sacrifícios diários públicos. Mas esta suposição é claramente negada pelas evidencias bíblicas. Quando o termo é aplicado aos sacrifícios, descreve o duplo sacrifício como uma unidade. O 'olat támid ("oferta queimada continua") era vista aparentemente como único sacrifício (embora apresentado em dois segmentos). Portanto, mesmo que fosse correio supor que a expressão "tarde-manhã" devesse aplicar- se aos sacrifícios támid, seria incorreto reduzir à metade a cifra de 2300.
3. Dever-se-ia observar que a seqüência na expressão "tarde-manhã" não é a expressão utilizada pelo idioma hebraico ao referir-se ao seu sistema religioso. A ordem segundo a qual alguém falava da unidade támid de ofertas queimadas, era "sacrifícios da manha e da tarde", em que "manha" sempre precedia "tarde".
Efetivamente. a expressão "tarde-manha" é uma frase aplicada a tempo cujas raízes mais naturais se encontram em Gênesis 1, onde a unidade de tempo de um dia é expressa nos mesmos termos e na mesma seqüência de tarde/manha (Gên. 1:5, 8, 13, 17, 23, 31).
Portanto a fraseologia de 2300 tardes e manhãs pode ser mais naturalmente compreendida como abrangendo 2300 dias completos. (Em profecia simbólica, este elemento de tempo deveria ser entendido como 2300 dias simbólicos.)
4. A expressão "tarde-manhã" é escrita no singular. Este fato favorece o ponto de vista de que a expressão representa uma unidade de tempo, qual seja, um dia completo.
5. A Septuaginta, grega, tanto na versão mais antiga quanto na de Teodósio, do livro de Daniel, compreende a expressão como denotando "dias". Ambas inserem a palavra "dia" na passagem e dizem literalmente: "Ate dias de tarde e manhã dois mil e trezentos ..."
A expressão ‘ereb bóqer de Daniel 8:14 e interpretada na 1 literatura corrente como u ma referência aos sacrifícios matinais e vespertinos oferecidos diariamente no Templo. A omissão de 2300 destes sacrifícios corresponderia a 1150 dias, o intervalo de tempo durante o qual os serviços do Templo foram suspensos, em seguida à profanação do mesmo e de seu altar por Antíoco Epífânio. Esta interpretação veio a tornar- se praticamente normativa, de modo que os modernos eruditos raramente reservam algum tempo para examina-la de modo crítico.
Assim, por exemplo, A. Bentzen declara: "2300 tardes-manhãs, ou seja, 1150 dias, e a forma peculiar de indicar o tempo do qual se esta falando, uma vez que o total de sacrifícios-tamid omitidos é fornecido; uma vez que cada manhã e tarde, de cada dia, testemunhava um tamid, a omissão de 2300 destes sacrifícios significa 1150 dias." (1) Bentzen acrescenta a interessante observação de que esta interpretação data retrospectivamente à época de Ephraem Syrus. A mesma explanação é repetida sem qualquer preocupação crítica pela grande maioria dos modernos comentaristas. (2)
Duas observações poderiam ser feitas aqui. Em primeiro lugar, Nenhum destes modernos comentaristas questiona a exatidão ou correção de que támid efetivamente se refira a cada um dos dois sacrifícios diários, o da manhã e o da tarde. Em segundo lugar, a razão proposta por alguns comentaristas para o estranho fato de que "tarde" esteja a preceder "manhã" em Daniel 8:14, não é sustentável à luz do uso bíblico comum.
Ao se examinar a primeira suposição, ou seja, que támid possa referir-se a cada um dos sacrifícios diários tomados separadamente, vale a pena observar que a palavra támid não é empregada como substantivo, exceto no livro de Daniel 8:11, 12, 13; 11:31; 12:11. Em todo o restante do Velho Testamento o termo é muitas vezes utilizado como advérbio, no sentido de "continuamente" ou "diariamente", ou como adjetivo, com o significado de "continuo", "perpetuo", "regular", etc. E empregada 26 vezes numa construção de relação a fim de qualificar nomes, tais como "oferta queimada", "oferta de manjares", "fogo", "pães da proposição", "festa", "compensação", e assim por diante. Uma vez que támid é usado com maior freqüência para qualificar ofertas ou sacrifícios queimados, a palavra " sacrifício" foi suprida por diferentes tradutores a fim de completar o sentido do támid elíptico nos cinco textos de Daniel. A Septuaginta simplesmente traduziu támid como thusia nestas passagens. Uma vez, porém, que a palavra era usada para qualificar outros aspectos do serviço do Templo, alem dos sacrifícios, seria mais oportuno suprir o termo "serviços" em lugar de "sacrifícios" nos mesmos textos. Quando o santuário foi subvertido pelas atividades do "chifre pequeno", não apenas os sacrifícios deixaram de ser oferecidos, como ainda a totalidade dos serviços do Templo cessou. .
Entretanto, ainda que a palavra "sacrifício" devesse ser suprida nos diferentes textos de Daniel em que o termo támid ocorre, dever-se-ia simultaneamente observar que támid um termo
técnico na linguagem do ritual a fim de designar o duplo sacrifício queimado da manhã e da tarde, o qual deveria ser apresentado diariamente. A legislação de Êxodo 29:38-42 é muito precisa. Depois de apresentar uma detalhada prescrição quanto à oferta diária de dois cordeiros de um ano, sem qualquer mácula, o verso 42 resume todas as instruções ao dizer: "Este será o holocausto contínuo por vossas gerações ..." O texto hebraico apresenta o ponto de modo ainda mais claro: "olat támid dórotêkem. É evidente que a dupla oferta da manhã e da Tarde formava Uma unidade, compreendida pela expressão 'ólat támid.
O texto paralelo de Números 28:3-6 indica o mesmo uso técnico do termo: "dois cordeiros de um ano, sem defeito, em continuo holocausto" (verso 3), onde se lê no texto hebraico: "'ólat támid, que provavelmente deva ser corrigido para 'ólat tamid. (3)
As instruções precedentes são resumidas da seguinte forma. (v.6): "E holocausto contínuo . . .", repetindo o termo técnico 'óIat támid. Torna-se claro que na linguagem do culto as ofertas da manhã e da tarde constituíam um só "holocausto contínuo."
Nos versos restantes de Números 28 e no capítulo 29 pode-se ler um resumo de todos os sacrifícios a serem oferecidos ao longo do ano religioso: os que eram apresentados nos sábados (28:9 e 10); os das luas novas (versos 11-15); os dos sete dias de pães asmos, festa que vinha apôs a celebração da Páscoa no dia de Nisã (versos 16-25); os do dia das primícias, ou primeiros frutos (versos 26 a 31); os do primeiro dia do sétimo mês (29:1-6); os do décimo dia do mesmo mês (versos 7-11); e os que diziam respeito aos oito dias da festa dos tabernáculos (versos 12-38).
Em todos os casos os sacrifícios especiais deveriam ser oferecidos "além do holocausto contínuo" (28;9, 15, 23. 31; 29:6, 11, 16, 19, 22, 25, 28, 31, 34 e 38) - ao todo, cerca de catorze vezes.
Sem levar em conta o numero de sacrifícios a serem apresentados em ocasiões de festas, o 'ólat tamid jamais deveria ser suspenso.
A partir do contexto também se torna claro que a expressão'ólat tamid envolve o duplo holocausto da manha e da tarde, sendo a única exceção encontrada em Números 28:23 - "Estas cousas oferecereis, além do holocausto da manha que e o holocausto contínuo."
Estudo cuidadoso desta Ultima passagem indica que provavelmente o manuscrito tenha problemas, e que o copista, depois de escrever 'ólat habboqer, tentou corrigir o erro acrescentando, a ser lê 'ólat hattámid, da formula regular. Esta exceção isolada não inválida a regra de que, neste longo texto, 'o 1at támid significa tecnicamente o duplo holocausto da manhã e da tarde.
Nossa afirmação de que o támid aparece como símbolo do duplo holocausto da manha e da tarde, ã primeira vista parece ser contra ditada pelo texto de Ezequiel 46:14 e 15: "Juntamente com ele/cordeiro de um ano . . . - vide verso 13/ prepararás manhã apôs manhã uma oferta de manjares . . . Assim prepararão o cordeiro, e a oferta de manjares, e o azeite, manha apôs manhã, em holocausto continuo." Esta objeção poderia ser considerada importante se se pudesse observar que as ordenanças do culto apresentadas em Ezequiel, capítulos 45 e 46, pretendiam ser detalhadas e exaustivas - em vez apenas um esboço simples das características essenciais da nova ordem que ele vislumbrava.
John Skinner, G. A. Cooke e Georg Fohrer tomam o texto para indicar que Ezequiel nada sabia a respeito de um holocausto da tarde.(4) O argumento padrão e que no período pré-exílico existia apenas o ‘olah matinal e o minháh vespertino. Supostamente isto é apoiado pelo fato de o rei Acaz haver ordenado ao sacerdote Urias: "Queima no grande altar o holocausto da manhã, como também a oferta de manjares da tarde . . ." (II Reis 16:15).
Por outro lado, alguns eruditos têm entendido as instruções cúlticas de Ezequiel como representando meramente um esboço dos serviços do templo, e não como prescrições detalhadas. Assim, Johannes Pedersen, ao comentar Ezequiel 45:13-17, chama a atenção para a omissão de dois importantes itens na lista de ofertas que deveriam ser feitas, e apresenta a seguinte explanação:
Provavelmente seja em razão de o plano sor incompleto que se justifique não serem aqui mencionados o vinho e os bovinos. Deve ser esta mesma razão a justificativa para que não se mencione a oferta diária, exceto aquela pelo príncipe: um cordeiro como holocausto a cada manhã, junto com produtos agrícolas é azeite . . .Temos abundantes evidências de que o diário sacrifício da tarde foi, efetivamente, preservado em tempos pós-exílicos.(5)
Da mesma forma, W. Zimmerli, em seu comentário recente, expressa a opinião de que a instrução de Ezequiel 46:13-15 e um resumo, antes que uma apresentação completa dos serviços sacrificiais:
Em vista do fato de que no período pré-exílico já eram conhecidos os sacrifícios da manha e da tarde, não e provável que Ezequiel 46:15 signifique uma redução dos serviços plenos. Provavelmente seu editor tenha sido obrigado, pela revisão do verso 13 e seguintes, e pela combinação de ambos os sacrifícios num só, a concentrar tudo no támid matutino e a descrever apenas este támid (6)
Que as prescrições rituais de Ezequiel não são mais que apenas um esboço, torna-se também evidente a partir da referencia à celebração da Páscoa no capitulo 45, verso 21. Esta declaração não pode ser tomada senão como uma fugaz referência ao conhecido ritual, longamente praticado. Diz-se de Josias que ele celebrou a Páscoa com toda a solenidade no décimo-oitavo ano de seu reinado (II Reis 23:21-23). (7) Dever-se-ia conservar em mente que na maioria dos casos Ezequiel não estava inovando, e sim padronizando antigas praticas de acordo com um plano ideal.
Deve-se acrescentar que o texto de II Reis 16:15 tampouco exclui a possibilidade de que um sacrifício queimado vespertino estivesse sendo oferecido. O texto faz referencia ao "holocausto do rei, e a sua oferta de manjares", assim como ao "holocausto de todo o povo da terra, a sua oferta de manjares, e as suas libações." Isso torna evidente que os serviços diários eram compostos por algo mais, mesmo nos dias de Acaz, do que "o holocausto da manhã /e/ a oferta de manjares." Os comentários do profeta Isaías, contemporâneo de Acaz, sobre o cerimonialismo da época, deixa a distinta impressão de que o numero de sacrifícios oferecidos no templo, nesta oportunidade, era imenso (Isa. 1:11-13).(8) Não havia falta de zelo cerimonial, e sim uma clamorosa ausência de moralidade e racionalidade na religião que então se praticava.
Não e possível emiti/r opinião finai sobre a validade do argumento baseado em II Reis 16:15 antes que se defina claramente o termo minháh.
N. H. Snaith expressou a opinião de que, com o passar do tempo, minháh adquiriu o sentido limitado de "oferta de grãos (cereais)", mas que poderia também haver conservado o sentido original de "tributo, presente." Ele argumenta que, "em virtude disto, poderia o termo haver sido utilizado num sentido mais amplo, ou seja, referindo-se a toda a cerimonia." (9) Como exemplo deste sentido mais amplo, Snaith refere-se ao 'olát, ' hamminháh de I Reis 18:29 e 36, evidentemente oferecido à tarde e ao 'olát hamminháh de II Reis 3:20, obviamente oferecido peia manha. Ele prossegue dizendo que "as duas cerimonias mencionadas são o támid de Êxodo 29:38 e seguintes e Números 28:3 e seguintes."
Parece razoável supor que o minháh de II Reis 3:20, oferecido pela manhã, incluía o holocausto padrão. Por outro lado, o minháh a que se refere I Reis 18:29 e 36 certamente inclusa, entre outras coisas, o holocausto oferecido naquela tarde pelo próprio Elias, no topo do Monte Carmelo, Se concede este sentido mais amplo ao minháh de II Reis 16;15, não existe razão para se excluir a possibilidade de que um holocausto vespertino fosse incluído na cerimônia total conhecida como minháh.
Temos suposto - corretamente, cremos - que o termo támid de Daniel 8 significa a cerimonia de duplo holocausto, da manhã e da tarde. Os parágrafos anteriores demonstraram que esta suposição não se invalida através de Ezequiel 46:15, ou pelo texto frequentemente citado de II Reis 16:15. (10)
As evidências providas pêlos textos de Êxodo 29 e Números 28 e 29, que são fundamentais ã discussão do significado do támid deveriam precaver qualquer exegeta imparcial diante da suposição apressada de que o hattámid de Daniel designa cada um dos sacrifícios separadamente, como se os sacrifícios da manha e da tarde fossem duas unidades independentes. O texto de Esdras 3:3-5 é particularmente significativo no contexto da pres.ente discussão. Apôs falar da restauração do altar e da apresentação de "holocaustos ao Senhor, de manhã e ã tarde", o verso 5 resume o diário sacrifício da manhã e da tarde sob a expressão ' olat támid, evidentemente singular.
Mais que isto, dever-se-ia observar que a palavra támid, por si própria, não é encontrada em Daniel 8:14. Simplesmente se assume a sua presença com base nas referencias a ela encontradas nos versos 11 a 13. Mas a suposição de que a fórmula 'ereb bóqer é a equivalente ao hattámid dos versos precedentes, ignora outro fato fundamental da linguagem do culto, ou seja, que na descrição dos sacrifícios diários o termo "manhã" sempre precede o termo "tarde".
0. Plöger, por exemplo, ao comentar Daniel 8:14, segue inúmeros predecessores ao afirmar: "Uma vez que o sacrifício era oferecido à tarde e pela manhã, isto significaria um intervalo de 1150 dias." (11) Dever-se-ia observar, contudo, que a linguagem do ritual sempre designa o sacrifício da manhã antes do da tarde, sem qualquer exceção . A pesquisa do Velho Testamento produz as seguintes ilustrações. Êxodo 29:39; Levíticos 6:13; Números 28:4; II Reis 16: 15; I Crônicas 16:40; 23:30; II Crônicas 2:4; 13:11; 31:3; Esdras 3:3. "Holocaustos da manhã e da tarde" tornou-se uma frase estereotipada, que desconhece exceções na literatura bíblica. Ela também é perpetuada no período pos-bíblico, conforme o exemplo oferecido em I Esdras 5:50, onde temos: "e eles ofereciam sacrifícios segundo o tempo, e holocaustos ao Senhor tanto pela manha quanto à tarde." (12).
A expressão mé'ereb 'ad-boqer e usada em Levíticos 24:3, mas isto ocorre em referência ao tempo em que as lâmpadas deveriam arder no santuário. A razão para a sequência tarde-manhã neste instante particular ë obvia. As lâmpadas deveriam arder durante a noite, e não durante o dia. Comentando as cerimonias diárias do templo, J. B. Segal salienta que "o ritual diário do templo seguia a rotina dia após dia, começando pela manhã e terminado a tardinha." (13)
Alguns estudiosos alegam que a inversão da ordem na expressão 'ereb bóqer de Daniel 8:14 reflete o uso de um novo calendário adotado pêlos israelitas em seu primeiro contato com a civilização babilônica. De acordo com R. de Vaux, por exemplo, a introdução do calendário lunar babilônico provocou uma modificação na antiga forma israelita de contar o dia. (14) Ao passo que antes do exilío a ordem usual havia sido manhã-tarde no período pós-exílico a sequência tarde-manhã veio a ser normal. Demonstrei em outro estudo que o argumento de Vaux, baseado no uso da fórmula "dia e noite", e insustentável a luz da evidência oferecida pela literatura babilônica, (15) De modo geral se reconhece que na Mesopotâmia o dia era contado de tarde a tarde, o que usualmente é o caso quando se observa um calendário lunar. (16) Conseqüentemente, se o argumento de Vaux estivesse correto, seria de esperar que na literatura babilônica a expressão "noite e dia" fosse muito mais comum que sua forma inversa, "dia e noite". Mas um conto metódico no típico de Gilgamés, o protótipo sumeriano do Dilúvio, que é "A Descida de Inana ao Mundo Inferior" e também o Épico da Criação, apresentam preponderância da fórmula "dia e noite", em vez de "noite e dia", mostrando a proporção de 4:1. (17)
A partir desta pesquisa superficial da literatura babilônica torna-se óbvio que não existe correlação entre o tipo de calendário utilizado e o uso da formula "dia e noite" ou seu reverso.
A preferência universal pela modalidade "dia e noite" reflete,
conforme salienta Segal, "o curso ordinário do comportamento humano. E pela manhã que o homem começa o trabalho ativo do dia e, por esta razão, a frase presente na boca humana é "dia e noite'. (18)
Não e de surpreender, pois, que a formula "dia e noite" seja presenciada com muito maior frequência que "noite e dia" na literatura bíblica pré-exílica, independentemente do tipo de calendário usado. Pela mesma razão é ela que prossegue sendo a mais comum nos livros pós-exílicos. Assim, Neemias prossegue pregando "dia e noite" (Neemias 1:6). Em seus dias estabelece-se uma guarda como proteção contra o inimigo "dia e noite" (Neemias 4:9). Siracide, escrevendo na porção iniciai do segundo século A. C., ainda fala de "manhã ate tarde" (Sir. 18:26). Judas Macabeu ordenou ao povo que clamasse ao Senhor "dia e noite" (II Mac. 13:10). Judite é apresentada como servindo ao Deus do Céu (Judite 11:17). A formula estereotipada prossegue sendo usada continuamente até o inicio da era cristã, conforme o demonstra a literatura de Qumran. (19)
A linguagem do Novo Testamento aponta ã mesma direção, ou seja, que o uso da expressão estereotipada "dia e noite", ou sua forma reversa, não guarda relação com a forma de se computar o dia. Assim, em o Novo Testamento a fórmula nuktos kai hémeras ("noite e dia") é usada oito vezes (Atos 20:31; Romanos 13:12; II Cortntios 11:25; I Tessalonicenses 2:9; 3:10; II Tessalonicenses 3:8; I Timóteo 5:5; II Timóteo 1:3), ao passo que a formula reversa hémeras kai nuktos ("dia e noite") é usada dez vezes (Mateus 4:2; 12:40; Lucas 18:7; Atos 9:24; 26:7; Apocalipse 5:8; 7:15; 12:10; 14:11; 20;10). Também em muitas passagens do Talmude a expressão "dia e noite" e empregada, conforme salienta C. H. Borenstein.(20) E mesmo em nossos dias parece ser pequena a correlação entre linguagem e sofisticação astronômica ou do calendário"
A evidência destacada acima demonstra que a expressão 'ereb bóqer de Daniel 8;14 não poderia haver derivado da linguagem do culto, onde a ordem manhã-tarde é o padrão em todas as oportunidades. Tampouco existe evidência de que a formula cúltica "manhã e tarde", aplicada aos sacrifícios, foi modificada durante o cativeiro ou nos períodos subsequentes. Sendo este o caso, a procedência da expressão 'ereb bóqer deve ser buscada em outra parte, que não a linguagem do culto, É inadmissível que um escritor tão familiarizado com a jargão do culto, conforme o foi o autor do livro de Daniel, pudesse cometer um erro tão grosseiro.
O argumento do presente autor e que a pouco usual expressão 'ereb bóqer de Daniel 8:14 deve ser buscada na lapidar linguagem de Génesis 1. Ali a expressão padronizada way hì-'ereb way hì-bóqer ("e foi a tarde e a manhã") e usada para cada dia da narrativa da criação (Gên. 1:5, 8, 13, 19, 23, 31). R. de Vaux está certo ao chamar a atenção ao fato de que em Gênesis 1, 'ereb assinala o final do ato criativo realizado durante o dia, e bóqer marca o final da noite de descanso. (21) Parece razoável que ao descrever os dias da criação, o destaque seja dado ã atividade criativa ocorrida durante a parte clara do dia, em vez de sobre a noite de descanso.
Sendo assim as coisas, remanesce o fato de que esta maneira de designar um dia completo não é encontrada em qualquer outra parte do Velho Testamento, exceto em Daniel 8:14. A prática padronizada é designar o dia de 24 horas pela fórmula "dia e noite "ou, com frequência muito menor, "noite e dia". Segue-se que, se o autor de Daniel tomou emprestada a expressão 'ereb bóqer de Gênesis 1, conforme as evidências parecem fartamente indicar, não ê razoável aplicá-la a meios-dias, conforme tantas vezes se faz de modo não crítico, e sim a dias completos.
K. Marti reivindica que a expressão 'ereb bóqer de Daniel 8:14 deve ser entendida de acordo com a expressão paralela de Daniel 8:26, onde a existência da conjunção we entre dois substantivos indica que 'ereb bóqer de 8:14 não deveria ser tomada como uma unidade de 24 horas. (22) A conclusão de Marti está aberta a questionamento, uma vez que o simples fato de que 'ereb bóqer, com ou sem conjunção we, se encontra no singular, representa evidência de que a expressão significa uma unidade de tempo, mais exatamente, um dia completo. Assim a entendeu a Septuaginta de Teodósio ao acrescentar hémerai ao texto. Em todas as demais partes de Daniel os dias, semanas ou anos são contados sempre no plural e aparecem precedendo o numeral. Assim, na porção hebraica do livro nos encontramos sanim ("anos") 3 (1:5); yámim ("dias") 10 (1:12, 14); sábu'im ("semanas") 70, 7, 62(9:24, 25. 26); yámim ( "dias")1290 (12:11); yámim ("dias"); 1335 (12:12). Em contraste, a fórmula 'ereb bóqer aparece no singular, tal como o francês apès-midi, que também é invariável.
O próprio fato de, que a expressão 'ereb bóqer apareça excepcionalmente no singular, em contraste com todas as outras enumerações do livro, favorece o ponto de vista de que ela representa uma unidade de tempo. Se reconhecer também que a expressão 'ereb bóqer não poderia haver sido tomada emprestada da linguagem do culto, mas que com muita probabilidade foi modelada segundo a fraseologia de Gênesis 1, é praticamente inevitável concluir-se que ela está representando um dia completo.
AUSS 16 (outono de 1978): 375-385.
Referências:
1. A. Bentzen, Daniel (Tubingen, 1972), p. 71.
2. J. Montgomery, The Book of Daniel (Edinburgh, 1927), p. 343; Jean Steinmann, Daniel (Pa ri s ,1950), p. 124; N. M. Porteous, Das Danielbuch (Göttingen, 1962), p. 104; 0. Plöger, Das Buch Daniel (Paris , 1965), p. 127; M. Delcor, Le livre de Daniel" (Paris, 1971). p. 177; André Lacocque, L e livre de Daniel (Paris. 1976), p. 49.
3 . Cf. R. Kittel, Bíblia hebraica , 3º adição.
4. John Skinner, The Book of Ezeckiel (Nova Iorque, 1905), pp. 472-73; G. A. Cooke, The Book of Ezechiel (Edinburgh, 1936), p. 511; Georg Fohrer, Ezechiel (Tubingen , 1955) , p. 256
5. J. Pedersen, Israel: It's Life and Culture, 3/4 (Londres, 1940):352.
6. W. Zimmerli, Ezechiel (Neukirchen, 1969), p. 1175.
7. Quanto a origem antiga da Páscoa, veja R. de Vaux, Lês sacrifices de L'Ancien Testament (Paris, 1964), p.22.
8. Cf. As observações de Miquélas, contemporâneo de Isaías, em Miquëias 6:6-8.
9. N. H. Snaith, "Sacrifices in the 0ld Testament", VT 7 (1957), p. 315.
10. Quanto a menção de támïd em Ezequiel 46:14, Zimmerli, a pagina 1168, explica-a como uma intrusão do verso 15.
11. Plöger, página 127. Entretanto, Porteous, à pagina 104, é cuidadoso ao observar a ordem manhã-tarde: "wahrend dieses Zei tabschnittes ware das tamid-Opfer 2300mal am Morgen oder Abend dargebracht worden."
12. APOT, 1:39. De acordo com R. H. Charles, a data de Esdras poderia ser "a época tardia dos gregos." A expressão holokautomata to kurio to proinon kai to deilinon de I Esdras 5:49 na Septuaginta, não contem termos técnicos, conformes sugere Montgomery à pagina 343, mas simplesmente repete os termos já empregados na Septuaginta de Êxodo 29:39.
13. J. B. Segal, "Intercalation and the Hebrew Calendar", VT 7 (1957):254.
14. R. de Vaux, Ancient Israel: Its Life and Institutions (Nova Iorque, 1961 ), p. 181
15. S. J. Schwantes, "Did the Israei1tes Ever Reckon the Day from Morningto Morning? ", The Ministry, Julho de 1977, páginas 36 a 39
16. Veja 0. Neugebauer, The Exact Sciences in Antiquity (Harpér Torchbook, editor; Nova Iorque, 1962).página 106; A. Parker e W. H. Dubberstein, Babilonian Chronology, 626 B.C. (Harpér Torchbook, editor; Nova Iorque, 1962).página 106; A. Parker e W. H. Dubberstein, Babilonian Chronology, 626 B.C. A. D. 45 (Providence, 1956), p. 26 ;"Jack Finegan, Handbook of the Bib1e Chronology (Princeton, NJ, 1964), pagina 8; E. J. Bickermann, Chronology o f the Ancient Horid (Londres, 1968), páginas 13 e 1 4.
17. Quanto à formula "dia e noite", veja o Épico de Gilgamesh, Tablet I. 2.24, 4.21. 5.19 (ANET. pp. 74-75); a versão em babilônio antigo do Tablet II, 2.6 (ANET. p. 77) e X, 2.5, 8 (ANET, pp. 89-90); a versão assíria do Tablet XI, linhas 126 e 199 (ANET, pp. 94-95); o protótipo sumeriano do Diluvio, linha 203 (ANET, p. 44); o mito sumeriano da descida de Inana ao Mundo Inferior, linha 169 (ANET, p. 55); o Épico da Criação, Tablet l, linha 50 (ANET, p. 61). Quanto à formula "noite e dia", veja o Épico da Criação, Tablet I, linha 129, e Tablet III. linhas 19 e 78 (ANET. pp. 62, 64-65).
18. Segal, p. 254.
19. I Qm 14:13; veja J. van der Plöeg, "La rëgie de la guerre: Traduction et notes", VT 5 (1955): 389, 415.
20. Citado por S. Zeitlin, "The Beginning of lhe Jewish Day", JQR 36 (1945-46): 410. Deve-se observar que Zeitlin favorece a hipótese de que os israelitas contavam o dia de manhã a manha nos tempos pré-exílicos.
21. De Vaux, Ancient Israel, p. 181.De Vaux usa a ordem 'erebbóqer como argumento em favor da hipótese de que de tempos pre-exílicos o dia fosse contado de manhã a manhã. G. von Rad Gênesis (Philadelphia, 1961). página 51. esboça a mesma conclusão: "0 dia parece ser aqui contado de manhã a manhã, estranho contraste com sua contagem na 1ei do culto." Dever-se-ia dizer, contudo, que Gênesis 1 não foi escrito com o propósito de reconhecer ou estabelecer qualquer calendário particular ou método de contagem do dia. Para um ponto de vista diferente, veja E. A. Speiser, Gênesis (Garden City, NY, 1964), p. 5.
22. K. Marli, Das Buch Daniel (Tübingen, 1901), p. 60.
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